Luiz Carlos protagonizou uma das mexidas mais insólitas deste mercado ao assinar pelo... Aguiar da Beira - Foto: Aguiar da Beira
Luiz Carlos protagonizou uma das mexidas mais insólitas deste mercado ao assinar pelo... Aguiar da Beira - Foto: Aguiar da Beira

Há 14 anos estava na Champions, agora saiu da reforma para jogar nas distritais

Luiz Carlos foi um dos craques da equipa que levou o Paços de Ferreira ao histórico terceiro lugar em 2013. Depois de ter pendurado as botas nos castores em 2024, decidiu voltar ao ativo no… Aguiar da Beira

Pelos Caminhos do (que mais de puro tem o) Futebol, A BOLA chegou nesta semana a Aguiar da Beira. É precisamente nesta terra do distrito da Guarda que Luiz Carlos vai voltar a jogar. Para quem não se lembra, passemos a recordar…

O médio-defensivo chegou do Brasil (o seu país natal) a Portugal no verão de 2009, oriundo do Ipitanga, para representar o Freamunde, da Liga 2. Dois anos depois, o centrocampista deu o salto para a Liga, mas não para muito longe dali: Paços de Ferreira foi o destino que se seguiu e foi na Capital do Móvel que Luiz Carlos deixou a sua grande marca no futebol português.

Em 2012/13, na segunda época nos castores, o trinco foi um dos talismãs do histórico terceiro lugar que qualificou o Paços de Ferreira, de Paulo Fonseca, para a Liga dos Campeões. O SC Braga não perdeu tempo e contratou-o na temporada seguinte. Pelos guerreiros do Minho, o médio fez 110 jogos (de 2013 a 2016), jogou a Liga Europa e, no último ano, venceu uma Taça de Portugal contra o FC Porto.

Luiz Carlos na inesquecível final da Taça de Portugal de 2016

Com um percurso de louvar em território luso, o brasileiro aventurou-se no futebol asiático em 2016. No Al Ahli, conquistou uma supertaça da Arábia Saudita. Do emblema de Jeddah, seguiu para a Turquia, onde permaneceu duas temporadas (2016/17 e 2017/18) no Osmanlispor.

Aos 33 anos, o atleta nascido no Rio de Janeiro voltou a Portugal para provar que também se pode (e, muitas vezes, deve) voltar a uma casa onde já se foi feliz. Noutras circunstâncias, com o clube na Liga 2, Luiz Carlos regressou, então, a Paços de Ferreira. Mas o jogador — com a inconformidade que todos lhe reconhecem — não aceitou a conjuntura vigente e, logo no primeiro ano (2018/19), voltou a pôr os castores no principal escalão do futebol português. A história do jogador na Capital do Móvel estava longe de estar acabada.

Em 2020/21, Luiz Carlos voltou a ajudar a levar a equipa às competições europeias, depois do quinto lugar. No ano seguinte, aí sim, pela primeira vez, o craque vestiu de amarelo na Europa e fez parte da equipa que venceu o Tottenham na primeira mão do play-off da Liga Conferência. O 1-0 em Portugal foi, todavia, insuficiente, tendo os lusos perdido (0-3) em Inglaterra.

Luiz Carlos no Estádio da Luz em novembro de 2021

Nesse ano que começou com uma vitória sobre os Spurs, o Paços de Ferreira foi consistente no campeonato, alcançando o 11.º posto. No entanto, na época seguinte, os nortenhos não resistiram e acabaram por descer para a Liga 2. Luiz Carlos não abandonou, todavia, o clube e cumpriu essa temporada no campeonato secundário, até se despedir dos relvados… ou assim se pensava!

Num volte-face inesperado e após dois anos sabáticos, Luiz Carlos está agora de volta ao ativo! A surpresa veio de Aguiar da Beira, onde o médio está atualmente a residir, como refere, ao nosso jornal, o presidente do clube, Fábio Baltazar, explicando como o convenceu a voltar ao ativo: «Foi um amigo barbeiro que me disse que ele tem família aqui perto e marcámos um jantar para lhe fazer a proposta. Ao início, não estava muito virado para jogar, mas demos-lhe a volta e vai ser uma mais-valia tanto para o clube como para a distrital da Guarda, que nunca teve um jogador com o currículo dele.»

«É uma pessoa muito pacata, humilde e não tinha noção do que é o distrital. Explicámos-lhe como ia ser e aceitou para se divertir um bocadinho», acrescentou o dirigente.

Wilson Eduardo louva o regresso do ex-colega

Apesar de ser descrito por Fábio Baltazar como «uma pessoa discreta», quem o conhece desde o tempo das grandes conquistas revela que Luiz Carlos também é «brincalhão».

Wilson Eduardo venceu, com o médio, a Taça de Portugal pelo SC Braga em 2015/16 e recorda a boa relação com o colega: «Tínhamos uma relação tranquila, e o grupo em geral também era muito porreiro. É verdade que tem a sua parte tímida, não é de falar muito, mas também é muito dado e tem um lado divertido e engraçado. Gosta de soltar a sua piada.»

SC Braga venceu a segunda Taça de Portugal em 2016. Luiz Carlos e Wilson Eduardo fizeram parte dessa equipa

«Este regresso surpreendeu-me, porque já tinha deixado de jogar, mas é o bichinho... Também vimos o Ronaldinho a voltar com 46 anos», exemplifica o extremo de 36, que, por seu turno e após uma época no Belenenses, ainda está «a decidir» se continuará a jogar.

A origem do clube que representa os três grandes

Atentando o emblema dos beirões, salta à vista uma estranha miscelânea entre os símbolos de Benfica, FC Porto e Sporting. Não é por acaso… E o presidente explica porquê: «Os fundadores eram quatro: dois benfiquistas, que quiseram a águia; um portista, que quis a esfera azul; e um sportinguista, que pôs a faixa verde. E foi assim que nasceu o emblema.»

A inscrição Os Cabicancas é mais um pormenor com história, continua Fábio Baltazar: «Era uma lenda aqui de Aguiar da Beira. Havia uma cabicanca, que era uma cegonha gigante que pousava no chafariz, contam os antigos. Devido a isso, meteram a alcunha de Cabicancas à equipa e ficámos conhecidos assim.»

O Aguiar da Beira tem um emblema que une os três grandes - Foto: D.R.

Mesmo com o reforço mais sonante do futebol distrital da Guarda, o dirigente faz questão de ter os pés bem assentes no chão. A subida aos nacionais está longe de ser um objetivo: «É difícil. Quem disser o contrário, está a mentir. O município tem dado o apoio que consegue e agradecemos, mas é preciso mais. Não é fácil uma equipa do distrital da Guarda sem SAD conseguir chegar ao Campeonato de Portugal e fixar-se.»

Ainda assim, Fábio Baltazar não desencorajará a equipa à maior das ambições: «Mas, como é lógico, se as coisas correrem bem e estivermos em primeiro, não vou pedir aos jogadores para perderem.»

O Aguiar da Beira conta, no palmarés, com três títulos de campeão distrital. No entanto, nunca foi além do Campeonato de Portugal (ou equivalente). «O atual projeto passa por voltar a cimentar o nome do clube na região. Não nos propomos a ser campeões, mas gostávamos, pelo menos, de atingir o segundo lugar de acesso à Taça de Portugal», assume o líder.

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