Há 14 anos estava na Champions, agora saiu da reforma para jogar nas distritais
Pelos Caminhos do (que mais de puro tem o) Futebol, A BOLA chegou nesta semana a Aguiar da Beira. É precisamente nesta terra do distrito da Guarda que Luiz Carlos vai voltar a jogar. Para quem não se lembra, passemos a recordar…
O médio-defensivo chegou do Brasil (o seu país natal) a Portugal no verão de 2009, oriundo do Ipitanga, para representar o Freamunde, da Liga 2. Dois anos depois, o centrocampista deu o salto para a Liga, mas não para muito longe dali: Paços de Ferreira foi o destino que se seguiu e foi na Capital do Móvel que Luiz Carlos deixou a sua grande marca no futebol português.
Em 2012/13, na segunda época nos castores, o trinco foi um dos talismãs do histórico terceiro lugar que qualificou o Paços de Ferreira, de Paulo Fonseca, para a Liga dos Campeões. O SC Braga não perdeu tempo e contratou-o na temporada seguinte. Pelos guerreiros do Minho, o médio fez 110 jogos (de 2013 a 2016), jogou a Liga Europa e, no último ano, venceu uma Taça de Portugal contra o FC Porto.
Com um percurso de louvar em território luso, o brasileiro aventurou-se no futebol asiático em 2016. No Al Ahli, conquistou uma supertaça da Arábia Saudita. Do emblema de Jeddah, seguiu para a Turquia, onde permaneceu duas temporadas (2016/17 e 2017/18) no Osmanlispor.
Aos 33 anos, o atleta nascido no Rio de Janeiro voltou a Portugal para provar que também se pode (e, muitas vezes, deve) voltar a uma casa onde já se foi feliz. Noutras circunstâncias, com o clube na Liga 2, Luiz Carlos regressou, então, a Paços de Ferreira. Mas o jogador — com a inconformidade que todos lhe reconhecem — não aceitou a conjuntura vigente e, logo no primeiro ano (2018/19), voltou a pôr os castores no principal escalão do futebol português. A história do jogador na Capital do Móvel estava longe de estar acabada.
Em 2020/21, Luiz Carlos voltou a ajudar a levar a equipa às competições europeias, depois do quinto lugar. No ano seguinte, aí sim, pela primeira vez, o craque vestiu de amarelo na Europa e fez parte da equipa que venceu o Tottenham na primeira mão do play-off da Liga Conferência. O 1-0 em Portugal foi, todavia, insuficiente, tendo os lusos perdido (0-3) em Inglaterra.
Nesse ano que começou com uma vitória sobre os Spurs, o Paços de Ferreira foi consistente no campeonato, alcançando o 11.º posto. No entanto, na época seguinte, os nortenhos não resistiram e acabaram por descer para a Liga 2. Luiz Carlos não abandonou, todavia, o clube e cumpriu essa temporada no campeonato secundário, até se despedir dos relvados… ou assim se pensava!
Num volte-face inesperado e após dois anos sabáticos, Luiz Carlos está agora de volta ao ativo! A surpresa veio de Aguiar da Beira, onde o médio está atualmente a residir, como refere, ao nosso jornal, o presidente do clube, Fábio Baltazar, explicando como o convenceu a voltar ao ativo: «Foi um amigo barbeiro que me disse que ele tem família aqui perto e marcámos um jantar para lhe fazer a proposta. Ao início, não estava muito virado para jogar, mas demos-lhe a volta e vai ser uma mais-valia tanto para o clube como para a distrital da Guarda, que nunca teve um jogador com o currículo dele.»
«É uma pessoa muito pacata, humilde e não tinha noção do que é o distrital. Explicámos-lhe como ia ser e aceitou para se divertir um bocadinho», acrescentou o dirigente.
Wilson Eduardo louva o regresso do ex-colega
Apesar de ser descrito por Fábio Baltazar como «uma pessoa discreta», quem o conhece desde o tempo das grandes conquistas revela que Luiz Carlos também é «brincalhão».
Wilson Eduardo venceu, com o médio, a Taça de Portugal pelo SC Braga em 2015/16 e recorda a boa relação com o colega: «Tínhamos uma relação tranquila, e o grupo em geral também era muito porreiro. É verdade que tem a sua parte tímida, não é de falar muito, mas também é muito dado e tem um lado divertido e engraçado. Gosta de soltar a sua piada.»
«Este regresso surpreendeu-me, porque já tinha deixado de jogar, mas é o bichinho... Também vimos o Ronaldinho a voltar com 46 anos», exemplifica o extremo de 36, que, por seu turno e após uma época no Belenenses, ainda está «a decidir» se continuará a jogar.
A origem do clube que representa os três grandes
Atentando o emblema dos beirões, salta à vista uma estranha miscelânea entre os símbolos de Benfica, FC Porto e Sporting. Não é por acaso… E o presidente explica porquê: «Os fundadores eram quatro: dois benfiquistas, que quiseram a águia; um portista, que quis a esfera azul; e um sportinguista, que pôs a faixa verde. E foi assim que nasceu o emblema.»
A inscrição Os Cabicancas é mais um pormenor com história, continua Fábio Baltazar: «Era uma lenda aqui de Aguiar da Beira. Havia uma cabicanca, que era uma cegonha gigante que pousava no chafariz, contam os antigos. Devido a isso, meteram a alcunha de Cabicancas à equipa e ficámos conhecidos assim.»
Mesmo com o reforço mais sonante do futebol distrital da Guarda, o dirigente faz questão de ter os pés bem assentes no chão. A subida aos nacionais está longe de ser um objetivo: «É difícil. Quem disser o contrário, está a mentir. O município tem dado o apoio que consegue e agradecemos, mas é preciso mais. Não é fácil uma equipa do distrital da Guarda sem SAD conseguir chegar ao Campeonato de Portugal e fixar-se.»
Ainda assim, Fábio Baltazar não desencorajará a equipa à maior das ambições: «Mas, como é lógico, se as coisas correrem bem e estivermos em primeiro, não vou pedir aos jogadores para perderem.»
O Aguiar da Beira conta, no palmarés, com três títulos de campeão distrital. No entanto, nunca foi além do Campeonato de Portugal (ou equivalente). «O atual projeto passa por voltar a cimentar o nome do clube na região. Não nos propomos a ser campeões, mas gostávamos, pelo menos, de atingir o segundo lugar de acesso à Taça de Portugal», assume o líder.