Quando quer, o jogador ganha sempre
Gosto mais de jogadores e treinadores do que de dirigentes. Muitos tratam-nos como mercadoria, e entendem que os verdadeiros adeptos são apenas aqueles que gostam deles.
Nas últimas décadas, os jogadores aperceberam-se do seu poder. Não só de que têm direitos, para lá dos deveres habituais e dos votos de silêncio e de comportamento, que assinam em regulamentos internos. Aperceberam-se também que conseguem ter força para ganhar guerras, dependendo do seu valor.
Quando os jogadores ganham, o clube geralmente perde, mesmo que seja ressarcido. Enzo Fernández, por exemplo, quis sair do Benfica ao fim de seis meses e saiu, agora quis deixar o Chelsea e foi transferido para o Manchester City, o maior glutão inglês. Cem milhões no banco ou na bancada? Nem pensar! Mesmo que o substituto possa não ser tão bom ou até não se adaptar.
Já que falamos do Chelsea lembremos Xabi Alonso. A sua revolução do Real Madrid foi travada pelos jogadores, que viam a mudança como atentado ao seu estatuto, mesmo que tornasse a equipa mais forte e coletiva. Florentino deixou o compatriota a arder sozinho até que se decidiu por Arbeloa. E mesmo com as estrelas mais felizes, os merengues nada ganharam. Em Londres, Alonso iniciou nova revolução. Pode não chegar ainda para bater o Arsenal, porém os blues voltaram a parecer uma equipa.
Ao mesmo tempo que Alonso projetava o novo Real, Ruben Amorim iniciava uma segunda temporada, a primeira desde o início, no Manchester United, tentando levantar um gigante que há décadas não se ergue do chão. Rashford foi emprestado, Mainoo estrebuchou por ser suplente e as velhas glórias não perderam oportunidades para embirrar com o 3x4x3. Com os resultados intermitentes não só o poder do técnico passou a estar ameaçado a partir de cima como um adepto achou que uma promessa capilar poderia desbloquear defesas e vitórias.
A direção cedeu. O manager passou a treinador. Interino uma vez, interino duas ou três, Michael Carrick libertou os jogadores das ideias que os podiam ajudar e a liberdade e alegria reencontradas no caos empurraram o clube até à Champions. Carrick ficou, Mainoo é titular, Rashford regressou. Esta época, em três jogos ganhou um. Entretanto, Amorim pegou noutro gigante e está a conseguir competir. Sem dirigentes que resistam à pressão, não há revolução com final feliz. Mesmo com um bom couro cabeludo.