Luciano Gonçalves, presidente do Conselho de Arbitragem da FPF - Foto: Miguel Nunes
Luciano Gonçalves, presidente do Conselho de Arbitragem da FPF - Foto: Miguel Nunes

Primeiro os árbitros, depois o futebol

Decisão do presidente do Conselho de Arbitragem é uma regressão no tempo e a confirmação de que o espírito de classe se sobrepõe ao interesse geral

A recente decisão do Conselho de Arbitragem (CA) da Federação Portuguesa de Futebol (FPF), liderada por Luciano Gonçalves, de acabar com a publicação das notas atribuídas aos árbitros no final de cada jornada não tem outra leitura que não esta: uma inegável e profunda regressão de um caminho de abertura, transparência e escrutínio que toda e qualquer atividade pública relacionada com o desporto de massas deve ter no século XXI.

É bom recordar que foi ainda na vigência do anterior presidente do CA, José Fontelas Gomes, e na Direção de Fernando Gomes na FPF, que se abriu uma janela, deixando entrar uma ligeira lufada de ar fresco, com o espaço de análise Juízo Final na Sport TV, à data apresentado por João Ferreira — que, ironicamente, desempenha hoje as funções de diretor técnico da própria estrutura de arbitragem nacional e que concordou com a decisão tomada nesta semana por Luciano Gonçalves.

Mesmo escolhendo os casos com pinças e deixando passar um tempo para assentar a poeira mediática, o público ganhou muito mais do que perdeu - nem que sejam dois em dez, sempre são duas pessoas/adeptos a mais que possam entender o que está por detrás de uma decisão, seja no erro ou na virtude.

Mais tarde, com Duarte Gomes, a FPF tentou ir mais à frente, com um programa no Canal 11 designado de Livre Arbítrio e depois a divulgação das notas dos juízes num limitado e defensivo insatisfatório, satisfatório e muito satisfatório - melhor que nada.

Os programas foram entretanto suspensos por Luciano Gonçalves em janeiro, que em entrevista a A BOLA justificou a medida como uma forma de combater um suposto «ambiente tóxico». Na mesma entrevista afirmou também o dirigente e ex-presidente da Associação Portuguesa dos Árbitros de Futebol (APAF) que a arbitragem iria passar a prestar contas com regularidade, prometendo que «a cada 10 jornadas» seria feita «uma conferência de imprensa de balanço público para esclarecer as decisões e os casos mais marcantes da competição». A promessa caiu em saco roto: os balanços periódicos prometidos diluíram-se no tempo e o compromisso de abertura deu lugar a um silêncio institucional confortável para quem decide.

Enquanto Portugal insiste em trancar a porta e apagar a luz, a Europa do futebol caminha em sentido diametralmente oposto. Em Inglaterra, a PGMOL mantém a transmissão regular do programa Match Officials Mic'd Up, conduzido por Howard Webb ao lado de Michael Owen na Sky Sports e TNT Sports, onde são divulgados abertamente os áudios entre o VAR e os árbitros de campo, assumindo-se erros e explicando-se critérios sem tabus. Em Itália, a FIGC e a associação de árbitros (AIA) tinham até maio uma parceria com a DAZN para a produção do formato Open VAR, que traz dirigentes da arbitragem a estúdio todas as semanas para analisar e disponibilizar as gravações originais dos encontros da Serie A. Na Bélgica, o Professional Refereeing Department da RBFA publica semanalmente vídeos de análise (Under the Spotlight) com os áudios da sala de VAR, ao passo que nos Países Baixos a KNVB adota igual conduta pedagógica na Eredivisie.

A recente decisão de cancelar a publicação das notas dos árbitros, já depois de suspensos os programas televisivos, é apenas a enésima prova de um espírito corporativista enraizado no poder, numa visão sectária que privilegia o interesse de uma classe em vez do interesse geral e aqui também apadrinhada por Pedro Proença, que tinha o dever de assumir uma visão muito mais macro.

Primeiro os árbitros, depois o resto. Foi assim durante muitos anos, é assim que vai continuar um certo futebol português que parece ter ficado esquecido num tempo já muito distante.

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