Samaris jogou seis épocas no Benfica - Foto: Helena Valente
Samaris jogou seis épocas no Benfica - Foto: Helena Valente

Nem todos são Samaris

É interessante ver como protagonistas nas mesmas funções se adaptam à língua portuguesa; da conferência dos novos donos do E. Amadora aos casos de dois gregos no Benfica

O domínio da língua não decide jogos nem campeonatos, mas não é um mero detalhe: cria empatia e ajuda os protagonistas a ganhar um estatuto superlativo entre os adeptos, especialmente nos períodos áureos. Ao contrário dos nossos vizinhos espanhóis, o futebol português nunca foi demasiado exigente para com os estrangeiros no que respeita à forma como aprendem ou não o idioma local. Seja pela secular tradição de um país aberto ao mundo ou pelo entendimento de que, ao contrário de outras línguas latinas, assumiu-se que é muito mais difícil aprender a dizer bom dia do que buenos días.

Mas depois há as exceções. E quando nos lembramos delas, pensamos de como especiais se tornaram treinadores e jogadores. O esforço de Bobby Robson em usar as 50 palavras que conhecia de português entrelaçadas com o inglês nativo quando treinava o FC Porto (quem não se lembra do célebre «passe precise») ou o pouquíssimo tempo que demorou até Michel Preud’Homme dominar as palavras de Camões e Pessoa.

Vem isto a propósito da recente conferência de imprensa do novo presidente da SAD do Estrela da Amadora, o alemão Johannes Mosmang, num português mais do que esforçado. Não se trata apenas de um ato de relações públicas, revela vontade de aproximação às respetivas cores. E também respeito.

Não há qualquer código de conduta ou regras pré-definidas nestas situações, mas talvez fosse interessante aos clubes, principalmente àqueles que se podem dar ao luxo de o fazer, de exigir contratualmente o domínio mínimo do idioma do país onde trabalham e se expressam. Caso contrário, dependerá sempre de como exigentes são (ou não) as respetivas sociedades desportivas ou da vontade individual em aprender.

Basta recordar os exemplos de Vlachodimos e Samaris. Um esteve cinco anos no Benfica, ou outro seis. Ambos gregos (o guardião nasceu na Alemanha), mas duas formas distintas de ser e estar publicamente: o guarda-redes nunca falou em português, o médio já se atravessava com desenvoltura na sua segunda época na Luz.

Uma carreira não se define pela forma como cada um comunica, mas acredito que é um sinal identitário: Guardiola fez um esforço enorme para aprender alemão antes da sua primeira conferência de imprensa no Bayern e José Mourinho estudou italiano antes de se apresentar no Inter. Dos casos que ajudam a entender a força de um caldo cultural que coloca em perspetiva o lugar de cada um.

A iniciar sessão com Google...