Foi em 1961 que o Benfica escreveu o primeiro capítulo de uma era dourada na Europa e, pelo caminho, realizou o sonho de um menino de 12 anos... - Foto: SL Benfica
Foi em 1961 que o Benfica escreveu o primeiro capítulo de uma era dourada na Europa e, pelo caminho, realizou o sonho de um menino de 12 anos... - Foto: SL Benfica

Benfica-Aarhus: a emocionante história do 'miúdo' que morreu antes de ver o seu clube voltar à sua cidade

O maior benfiquista que Aarhus viu nascer partiu em dezembro passado, aos 77 anos. As cinzas de Jan Biermann foram espalhadas no Estádio da Luz. Agora, os clubes do seu coração encontram-se

AARHUS — O futebol não é só um jogo parece uma frase moderna, mas há provas de que vem fazendo sentido desde a criação da modalidade. Não menos antiga é a ligação entre Aarhus e Benfica, que já se defrontaram cinco vezes no seu historial (quatro vitórias das águias e um empate).

Foi logo no primeiro encontro entre os dois emblemas em território dinamarquês — a 30 de março de 1961, para os quartos de final da segunda-mão da Taça dos Campeões Europeus, que nesse ano as águias viriam a erguer pela primeira vez — que um emocionante episódio dá sentido à frase com que se abre este texto. Esta é a história do miúdo dinamarquês.

Jan Biermann tinha 12 anos e, tal como muitas crianças, estava fascinado com a possibilidade de ver de perto uma das melhores equipas do Mundo, tendo-se concentrado junto ao Hotel Royal, em Aarhus, onde o Benfica — com José Augusto, José Águas, Mário Coluna, entre outros no plantel — ficou hospedado.

Numa entrevista ao jornal Fyens Stiftstidende, em 2021 (60 anos depois), o eterno rapaz conta como teve «sorte» por ter despertado a atenção da comitiva lusa, que questionou o jovem loiro se queria acompanhar a equipa num passeio pela cidade: «Acolheram-me logo e nunca percebi porquê. Não falávamos a mesma língua e, mesmo assim, comunicávamos. Cheguei a ajudar um jogador a encontrar uma prenda para a mulher no armazém Salling.»

Os portugueses descreviam Jan Biermann como a nova mascote e logo lhe arranjaram bilhete para o jogo (que viria a terminar 4-1, já depois da vitória encarnada por 3-1 em Lisboa). Mas o melhor ainda estava para vir. 13 dias após a eliminatória, Jan Biermann recebeu um cartão de sócio do SL Benfica, com a garantia de que não teria de se preocupar com quotas. Tornou-se, então, no primeiro associado dinamarquês das águias.

Jan Biermann, orgulhosamente de vermelho desde... pequenino - Foto: SL Benfica

«Às vezes, belisco-me para ter a certeza de que não estou a sonhar quando olho para trás. Isto aconteceu mesmo? Tive experiências que mais ninguém teve ou voltará a ter. No mundo moderno, isso seria impossível. Eu era apenas um rapaz pobre da rua Skanderborgvej, em Aarhus, e eles tornaram os meus sonhos em realidade. As memórias que tenho não têm preço, são insubstituíveis», voltou a dizer o protagonista, em declarações ao Fyens Stiftstidend, sete meses antes de morrer.

Jan Biermann passou a acompanhar, de forma recorrente, a delegação encarnada no seu país — «deixavam-me andar no autocarro da equipa, sendo eu o único estranho. Mais ninguém tinha acesso. Era incrível» — e em 1969, à margem de uma partida da Taça dos Campeões Europeus, contra o KB de Copenhaga, recebeu o presente de uma vida: a camisola de Eusébio. «Deu-me a camisola daquela noite, porque queria que a mascote da equipa, que também os tinha acompanhado nos bons e maus momentos, ficasse com ela», contou.

A camisola que Eusébio ofereceu a Jan Biermann - Foto: Aahrus

Em 2016, o menino (bem adulto) entregou todo o seu espólio ao Benfica, incluindo a camisola do Pantera Negra. «Poderia ter vendido a camisola por 10 mil euros, mas achei que fazia sentido oferecê-la ao Benfica, o clube que tanto fez por mim. Convidaram-me, lembraram-se de mim, fizeram-me parte da sua história. Nenhuma quantia mudaria a minha opinião», disse, nesse ano, à BTV.

Oferta de Eusébio «não tem preço» - Foto: SL Benfica

Homenageado nesta quinta-feira

Jan Biermann morreu em dezembro de 2025, meses antes de o clube da sua cidade voltar a receber o clube do seu coração. A família afirma, aos canais do emblema dinamarquês, que não pode ser coincidência. «Parece que o nosso pai está lá em cima a fazer as coisas acontecer. De que outra forma explicamos que as suas duas equipas amadas se voltem a encontrar logo após a sua morte?», diz a filha Karina.

Jan Biermann ofereceu o seu o espólio ao museu dos encarnados - Foto: D.R.

Karina Biermann, acompanhada pelo marido, cunhado e irmã, marcará presença no Cepheus Park Randers (casa emprestada do Aarhus), para o duelo desta quinta-feira. «Ficamos felizes por poder representar e honrar o nosso pai», sublinha.

Após a sua morte, adiantou a família, as cinzas de Jan Biermann foram espalhadas no Estádio da Luz, cumprindo-se, assim, o último desejo do miúdo dinamarquês.

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