Benfica-Aarhus: a emocionante história do 'miúdo' que morreu antes de ver o seu clube voltar à sua cidade
AARHUS — O futebol não é só um jogo parece uma frase moderna, mas há provas de que vem fazendo sentido desde a criação da modalidade. Não menos antiga é a ligação entre Aarhus e Benfica, que já se defrontaram cinco vezes no seu historial (quatro vitórias das águias e um empate).
Foi logo no primeiro encontro entre os dois emblemas em território dinamarquês — a 30 de março de 1961, para os quartos de final da segunda-mão da Taça dos Campeões Europeus, que nesse ano as águias viriam a erguer pela primeira vez — que um emocionante episódio dá sentido à frase com que se abre este texto. Esta é a história do miúdo dinamarquês.
Jan Biermann tinha 12 anos e, tal como muitas crianças, estava fascinado com a possibilidade de ver de perto uma das melhores equipas do Mundo, tendo-se concentrado junto ao Hotel Royal, em Aarhus, onde o Benfica — com José Augusto, José Águas, Mário Coluna, entre outros no plantel — ficou hospedado.
Numa entrevista ao jornal Fyens Stiftstidende, em 2021 (60 anos depois), o eterno rapaz conta como teve «sorte» por ter despertado a atenção da comitiva lusa, que questionou o jovem loiro se queria acompanhar a equipa num passeio pela cidade: «Acolheram-me logo e nunca percebi porquê. Não falávamos a mesma língua e, mesmo assim, comunicávamos. Cheguei a ajudar um jogador a encontrar uma prenda para a mulher no armazém Salling.»
Os portugueses descreviam Jan Biermann como a nova mascote e logo lhe arranjaram bilhete para o jogo (que viria a terminar 4-1, já depois da vitória encarnada por 3-1 em Lisboa). Mas o melhor ainda estava para vir. 13 dias após a eliminatória, Jan Biermann recebeu um cartão de sócio do SL Benfica, com a garantia de que não teria de se preocupar com quotas. Tornou-se, então, no primeiro associado dinamarquês das águias.
«Às vezes, belisco-me para ter a certeza de que não estou a sonhar quando olho para trás. Isto aconteceu mesmo? Tive experiências que mais ninguém teve ou voltará a ter. No mundo moderno, isso seria impossível. Eu era apenas um rapaz pobre da rua Skanderborgvej, em Aarhus, e eles tornaram os meus sonhos em realidade. As memórias que tenho não têm preço, são insubstituíveis», voltou a dizer o protagonista, em declarações ao Fyens Stiftstidend, sete meses antes de morrer.
Jan Biermann passou a acompanhar, de forma recorrente, a delegação encarnada no seu país — «deixavam-me andar no autocarro da equipa, sendo eu o único estranho. Mais ninguém tinha acesso. Era incrível» — e em 1969, à margem de uma partida da Taça dos Campeões Europeus, contra o KB de Copenhaga, recebeu o presente de uma vida: a camisola de Eusébio. «Deu-me a camisola daquela noite, porque queria que a mascote da equipa, que também os tinha acompanhado nos bons e maus momentos, ficasse com ela», contou.
Em 2016, o menino (bem adulto) entregou todo o seu espólio ao Benfica, incluindo a camisola do Pantera Negra. «Poderia ter vendido a camisola por 10 mil euros, mas achei que fazia sentido oferecê-la ao Benfica, o clube que tanto fez por mim. Convidaram-me, lembraram-se de mim, fizeram-me parte da sua história. Nenhuma quantia mudaria a minha opinião», disse, nesse ano, à BTV.
Homenageado nesta quinta-feira
Jan Biermann morreu em dezembro de 2025, meses antes de o clube da sua cidade voltar a receber o clube do seu coração. A família afirma, aos canais do emblema dinamarquês, que não pode ser coincidência. «Parece que o nosso pai está lá em cima a fazer as coisas acontecer. De que outra forma explicamos que as suas duas equipas amadas se voltem a encontrar logo após a sua morte?», diz a filha Karina.
Karina Biermann, acompanhada pelo marido, cunhado e irmã, marcará presença no Cepheus Park Randers (casa emprestada do Aarhus), para o duelo desta quinta-feira. «Ficamos felizes por poder representar e honrar o nosso pai», sublinha.
Após a sua morte, adiantou a família, as cinzas de Jan Biermann foram espalhadas no Estádio da Luz, cumprindo-se, assim, o último desejo do miúdo dinamarquês.