Roberto Martínez, selecionador nacional - Foto: IMAGO

De Saltillo a Palm Beach

Há 40 anos, Portugal foi um mês antes para o México. Em 2026, a Seleção foi das últimas a chegar ao continente americano

Muito se tem falado sobre Saltillo. Tem sido interessante perceber o que levou ao desastre português nesse fatídico ano de 1986. A efeméride dos quarenta anos e o regresso da prova a solo mexicano justificam a revisita. Entre os problemas amiúde descritos, trarei um: a Seleção aterrou no México um mês antes da prova. Em retrospectiva, todos consideram ter sido demasiado tempo.

Tudo mudou em quarenta anos. Nenhuma selecção se concentrou tão cedo, nem o calendário o permitiria. Os meios de viagem, treino e descanso são incomparáveis. Ao analisar o planeamento de cada equipa, percebe-se que Portugal voou para Palm Beach excecionalmente tarde. A comitiva aterrou no local a cinco dias do primeiro jogo. É uma exceção: a campeã do mundo, Argentina, voou 16 dias antes. Suécia, Tunísia e Nova Zelândia fizeram-no duas semanas antes. No pólo oposto, os ingleses voaram a quatro dias da sua estreia para Missouri. Contudo, as restantes 46 equipas viajaram mais cedo que os portugueses.

Confrontado com o tema, Martínez alegou que o fuso horário, a altitude e a humidade foram trabalhados em março, acrescentando que os dois primeiros jogos serão num estádio fechado.

Sobre esta decisão, há também que levar em conta factores que impactam o bem-estar dos jogadores. Talvez as condições sejam melhores e mais familiares na moderníssima Cidade do Futebol do que na Flórida. Existe a proximidade da família e o maior controlo das variáveis inerentes à preparação.

Ainda assim, impõe-se a pergunta: porque escolheram tantas selecções um caminho diferente?

Sair mais cedo pode ajudar a aumentar níveis de concentração e a criar um atempado espírito de missão. Partir tão tarde faz parecer uma realidade mais distante do que aquela que realmente é.

Por outro lado, embora os jogos sejam em recinto fechado, treinos e recuperação não o serão. Em Houston estarão cerca de 35.º e elevada humidade. O torneio distribui-se por quatro cidades, separadas por 4500 km e quatro fusos horários. Entre o segundo e o terceiro jogo, Portugal fará 1500 km. É um contraste gigante com o Mundial no Qatar, e distâncias pouco habituais para quem joga na Europa. Por outro lado, a adaptação à altitude e à temperatura não se faz em março para competir em junho.

Com as cinco horas de diferença entre Lisboa e Palm Beach, em que condições estarão os jogadores portugueses nos primeiros dias de trabalho? Estará Martínez a apostar numa adaptação progressiva já com a bola a rolar, protegido por um início frente a adversários mais acessíveis?

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