Mundial
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O Mundial nos tempos de cólera
Os mundiais são espaços privilegiados para medir o pulso à evolução do jogo. Primeiro porque juntam os melhores, depois porque são raros. Ainda que algumas mudanças sejam impostas por alterações às regras (destaque-se o alargamento da intervenção do VAR e as tentativas de restringir as perdas de tempo), outras são consequência de um espírito de época, muitas vezes definido por quem tem sucesso.
As duas equipas mais bem-sucedidas desta época disputaram recentemente a final da Champions. Veremos mais equipas a emular a frieza e a expectativa do Arsenal? Das equipas com mais talento, quantas serão tão ambiciosas na sua proposta de jogo como o PSG?
Antes da bola rolar, resta-nos olhar para os dados e antecipar tendências. Veremos, como é assunto recorrente, os melhores jogadores a chegar a esta prova no limite. Virgil van Djik, por exemplo, disputou 48 partidas. Bernardo Silva esteve em 44. Com a prova disputada a 48 selecções, os quatro semi-finalistas farão oito jogos em menos de mês e meio. Condicionará isto a abordagem colectiva? Até que ponto é possível, por exemplo, pressionar a campo inteiro? Trocando jogadores, claro. Mas, exceptuando a França, quantas selecções conseguem manter a qualidade com rotação permanente?
Será possível que chegue mais longe quem mais se resguarda? Resolver cedo, ser clínico na bola parada (Portugal recorreu ao especialista do Aston Villa, Angus Macphee) ou saber gerir o jogo com bola podem ser decisivos para chegar às decisões com frescura. Com tantos minutos e viagens, dificilmente veremos sempre futebol-champanhe.
Será também interessante ver de que forma situações fixas ganharão protagonismo. No último ano vimos, por exemplo, equipas de elite que colocavam a bola fora deliberadamente depois de pontapés de saída ou de baliza. Os lançamentos laterais assumem-se cada vez mais relevantes para promover situações de finalização.
Avizinha-se uma fase inicial com muitos jogos assimétricos. No entanto, o futebol mantém-se democrático e a sua história é de superação. Ser melhor durante noventa minutos, sendo pior à partida, também é uma arte.