Garrido Pereira expõe pontos principais da sua candidatura às eleições no Boavista
Garrido Pereira, presidente do clube axadrezado (Foto: A BOLA)

Boavista: Direção aponta o dedo à SAD e explica ‘buraco’ de 9 milhões ao tribunal

Em documento enviado ao Juízo do Comércio de Gaia, os responsáveis do emblema do Bessa defendem-se das acusações de falta de transparência, justificam atrasos contabilísticos e lançam críticas à gestão da SAD: «O clube foi vítima do colapso económico da sociedade desportiva»

O Boavista vive dias de sobrevivência extrema. Num extenso requerimento enviado ao Tribunal do Comércio de Vila Nova de Gaia, a Direção liderada por Rui Garrido Pereira — cujos poderes foram retirados a 18 de fevereiro passado pela administradora de insolvência (AI) — veio a público (e à justiça) esclarecer a asfixia financeira que ameaça a instituição centenária. No centro da discórdia está a relação difícil com a SAD e um incumprimento, alegam, que ultrapassa os oito dígitos.

Segundo a Direção das panteras, o modelo de sobrevivência do clube assentava num protocolo com a SAD que previa o pagamento mensal de 145 mil euros pela utilização de ativos e infraestruturas. Contudo, a SAD terá deixado de pagar durante anos. «Tal incumprimento resultou na acumulação de um montante em dívida que ultrapassa atualmente os €9.000.000», lê-se no documento.

A Direção é perentória ao afirmar que o clube se tornou refém da sociedade anónima: «A SAD assumiu-se, na prática, como o principal e praticamente único cliente institucional do clube», e quando esta colapsou desportivamente, arrastou a associação para o abismo.

Investidores em fuga e a sombra de Gérard Lopez

O documento revela ainda que, desde a tomada de posse, a Direção contactou mais de 30 potenciais investidores. No entanto, a queda para as divisões inferiores e a extinção do futebol profissional da SAD funcionaram como um repelente de capital. «A evolução da situação desportiva e financeira da SAD foi sucessivamente afastando potenciais investidores», lamentam os dirigentes.

Sobre o atual cenário de liquidação, a Direção revela contornos de um braço-de-ferro com Gérard Lopez. É mencionado que o investidor terá liquidado valores pessoalmente em fevereiro de 2026, mas impondo uma condição drástica: «O Sr. Gérard Lopez impunha enquanto condição a cessação da coadjuvação da Direção junto da Administradora de Insolvência».

A Direção não esconde a ironia da situação, apontando o dedo a quem, no seu entender, causou o problema: «É irónico que aquele que provocou a impossibilidade de recuperação do clube venha agora partilhar informação e imiscuir-se na gestão».

Donativos e ‘caos’ contabilístico

Pressionados pela Administradora de Insolvência e pelo credor Ares Lusitani sobre a transparência das contas, os responsáveis axadrezados detalham verbas que estariam sob suspeita. Explicam que 47 mil euros de proveitos não integrados correspondem a donativos (incluindo um de 25 mil euros) que ainda aguardavam emissão de recibo.

Atrasos no processamento de salários e na entrega de declarações fiscais são justificados com o litígio que o clube manteve com o anterior serviço de contabilidade. «Resulta evidente que o atraso dos lançamentos na contabilidade é igualmente a causa de alguma informação não estar atualizada à semana ou sequer ao mês», defendem, garantindo que tudo foi feito com «total transparência».

«Vontade de insinuar que não é possível manter o clube»

Em jeito de conclusão, a Direção do Boavista recusa a imagem de má gestão e aponta o alvo a uma alegada campanha para fechar as portas do Bessa. Para os subscritores do documento, as dúvidas levantadas ao tribunal resultam apenas de uma «vontade sucessiva em insinuar que não é possível manter o clube em funcionamento».

O futuro do emblema do xadrez permanece agora nas mãos do tribunal, com a Direção a reiterar que, apesar das «sucessivas entropias processuais», continua a atuar diariamente para garantir a sobrevivência da história do Boavista, rejeitando qualquer tentativa de deslegitimação do seu mandato.