O antigo defesa da seleção nacional podia ter voltado ao FC Porto, mas preferiu voltar a Portugal pelas portas do Tondela. O atual treinador explica porque decidiu terminar a carreira no Boavista

Ricardo Costa revela que podia ter voltado ao FC Porto para jogar

Em entrevista a A BOLA, fala do regresso a Portugal, enquanto treinador e jogador. O atual técnico do Feirense fala de uma luta «espetacular» pelo campeonato português e considera que «o Benfica pode ter vantagem»

Enquanto jogador, Ricardo Costa passou por Alemanha, França, Espanha, Catar, Grécia e Suíça. Como treinador, já se aventurou na Geórgia, mas fez sempre questão de voltar à sua pátria e fala com carinho do futebol português.

- Falando da I Liga, como é que vê este ano a competição?

- Está espetacular. O FC Porto está a mostrar um estilo de jogo e uma capacidade de controlar as equipas adversárias muito boa. Acho quem estiver menos cansado para conseguir continuar a luta vai fazer a diferença. O FC Porto está na Eiga Europa, o Sporting na Champions. O Benfica poderá ter uma vantagem por já ter sido eliminado, mas também é a equipa que está com mais desvantagem em termos pontuais. Vai ser uma luta interessante. Com os empates do último fim-de-semana, manteve-se tudo um bocadinho tudo na mesma. A distância entre equipas manteve-se, o que quer dizer que a luta vai continuar. Enquanto matematicamente houver pontos para disputar, vai ser semana a semana.

- Com quatro pontos de avanço e já tendo jogado contra o Benfica e Sporting, acredita que o FC Porto possa estar numa situação mais confortável?

- Sim, o FC Porto está em vantagem. Tem uma mais-valia que é não jogar com os rivais que estão mais próximos. Mas penso que o mais importante às vezes é não pensar que está cada vez mais fácil, porque depois as equipas mais pequenas são aquelas que estão a lutar por pontos e por necessidades de objetivos internos e podem vir a complicar.

- O Ricardo jogou em muitos países. Como é que lá fora veem o campeonato português?

- Veem com como uma liga super competitiva com excelentes jogadores, para virem cá reforçar-se. Por exemplo, quando me chegou a proposta do Wolfsburgo, pensei: 'De onde é que é isto? Alemanha, o que é? Lutou para não descer a época passada. E este ano?' E falei com a pessoa responsável e tive lá dois dias a mostrar as minhas condições e disseram-me: 'Eu vi 17 jogos teus'. E eu: 'Fogo, 17 jogos?!' E eles disseram: 'Nós seguimos a liga portuguesa, vemos jogadores em todas as ligas e gostamos da liga portuguesa, porque vocês têm características diferentes dos demais. Vocês interpretam bem o jogo, têm boa qualidade técnica e adaptam-se muito às realidades onde estão inseridos'. Então é por isso que eu digo que a liga portuguesa é muito vista, porque todos os jogadores saem daqui e valem dinheiro. Podem ir para a liga espanhola, francesa, inglesa… podem ir para os melhores clubes do mundo, porque nós aqui trabalhamos bem, temos excelentes treinadores e temos muita capacidade de trazer bom produto, formá-lo bem para depois ter a capacidade de vingar para onde for.

Ricardo Costa foi campeão alemão pelo Wolfsburgo em 2008/09 - Foto: IMAGO

- Ficando no estrangeiro, mas voltando ao treino. Como é que foram as duas últimas temporadas na Geórgia?

- Foi um passo importante. Estive dois anos nos sub-17 do FC Porto e surgiu a oportunidade de entrar no nível profissional numa equipa que queria ser campeã e queria estar na Conference League. O Dila apareceu com os seus investidores a querer que eu fosse o líder, deixando-me a responsabilidade de criar uma equipa e liderar uma equipa que já tinha sido montada há meio ano pelo mister Rui Mota, que na altura tinha sido vendido para a Arménia. Eu entrei em junho, mas eles já estavam a jogar desde março, quando a época começa. A minha tarefa era dar continuidade ao trabalho. Acabou essa temporada, conseguimos o terceiro lugar empatados com o segundo. Conseguimos o objetivo Conference e depois ficamos lá uma nova época para criar uma equipa super competitiva para ir à Conference e lutar pelo título. Na altura, quando larguei a equipa custou-me bastante, mas queria voltar a Portugal e vir para a liga portuguesa, onde queria trabalhar. Deixei a equipa com o mesmo número de pontos do primeiro classificado, conseguimos ir à Conference. E depois tive que comunicar que tinha de vir para Portugal também pelo aspeto de família. Queria estar perto da esposa, dos filhos. Já estive muitos anos no estrangeiro e que queria voltar. Depois tinha a proposta do Feirense que era aquilo que me apetecia fazer.

Podia ter voltado ao FC Porto

Ricardo Costa (FC Porto) disputa a bola com Rui Costa (AC Milan) na final da Supertaça Europeia em 2003, que os italianos venceram por 1-0 - Foto: IMAGO

- No final da carreira de jogador também decidiu voltar para Portugal, para o Tondela, antes de terminar a carreira no Boavista. Gostava de ter voltado para o FC Porto?

- Eu tive dois momentos em que podia ter voltado ao FC Porto, mas não era para a equipa A, era para a equipa B, onde queriam que eu entrasse como capitão. Naquele momento, como estava no Lucerna, na Suíça, a lutar por um lugar na Champions, não era a proposta que eu mais queria. Como é lógico, se fosse para a equipa A e mesmo que tivesse que jogar na equipa B, na altura, eu aceitaria porque era um passo de equipa A para equipa A, equipa superior, não de um escalão inferior. Sobre o Tondela, o clube apareceu-me com um projeto em que queriam formar uma equipa competitiva para se manterem na I Liga. Depois o treinador que estava lá era uma pessoa minha amiga: o Pepa, fomos campeões europeus [sub-18]. E então eu decidi voltar a Portugal por essa razão. Como é lógico, depois fui para o Boavista para fechar o ciclo de 20 anos de carreira. Fiz a minha formação toda lá e não queria fechar a minha carreira sem jogar na equipa principal.

Ricardo Costa chegou em 2017 às beiras para capitanear o Tondela - Foto: IMAGO

- Tem um carinho muito especial pelo Boavista então?

- Sim, tenho um carinho muito especial, fico triste pela situação em que estão neste momento. É triste para todos os boavisteiros, para o próprio estádio que é tão mítico, a própria camisola e o próprio xadrez. Às vezes custa-me passar no estádio… e custa-me não ver o Boavista na classificação da I Liga. Mas, enquanto há vida há esperança, e, no futuro, o Boavista poderá voltar ao lugar que merece.

Ricardo Costa, no regresso ao Boavista, em 2019 - Foto: IMAGO

- Quais são os seus objetivos de carreira agora enquanto treinador?

- Neste momento é conseguir a manutenção no Feirense, fazer este trabalho difícil nas próximas jornadas. Ainda temos muitas batalhas pela frente e depois, sim, conseguir cativar novos projetos, cativar novas realidades, novos desafios para eu continuar a crescer. Estou a acabar agora o UEFA Pro, que era um objetivo pessoal. Sinto-me mais treinador, a própria formação sendo em Espanha com a capacidade de vermos e avaliarmos metodologias diferentes, como a do Villarreal, do Valência, do Barcelona, do Real Madrid, são outras culturas, outras maneiras diferentes de ver o futebol. E eu tive a sorte de estar lá em Espanha, em Valência, cinco anos, e em Granada, que me deu algumas luzes e tive os melhores treinadores para ter mais capacidade neste momento de sacar mais rendimento para mim mesmo como treinador. Quero continuar a evoluir, continuar a ter desafios mais cativantes que me levem a ter capacidade de lutar por títulos, que é aquilo que eu tanto ambiciono.