Bernardo Pires  o Campo de Neemias Queta        Fotografia João Moreira/Hoopers
Bernardo Pires o Campo de Neemias Queta Fotografia João Moreira/Hoopers

Bernardo Pires: «O Sporting não me tem deixado dormir»

Antes de assumir a liderança dos leões nos treinos na pré-temporada, o técnico voltou ao campo de Neemias Queta para viver uma experiência diferente com uma centena de miúdos e adjuntos dos BOston Celtics. Lamenta queda do Imortal da Liga para a 4.ª Divisão

Após quase uma dezena de anos no Imortal — as últimas três temporadas à frente da equipa da Liga Betclic masculina, que na próxima época não estará de volta por ter desistido de competir ao mais alto nível devido à falta de apoios suficientes —, Bernardo Pires, de 32 anos, irá comandar o Sporting em 2026/27.

Contudo, antes do arranque desse desafio com os treinos efetivos antes do final do mês, o técnico participou no Neemias Queta Training Camp, onde partilhou experiências com os mais novos e com os treinadores adjuntos dos Celtics.

Fotografia João Moreira/Hoopers

— Como surgiu este convite para participar no Neemias Queta Training Camp numa época tão importante para si, em que vai assumir o cargo de treinador do Sporting, sucedendo a Luís Magalhães?
— Surgiu no seguimento dos dois anteriores. Infelizmente não consegui estar presente no ano passado porque me encontrava a terminar o curso da FIBA, o FEC, na Grécia, mas no primeiro ano já tinha feito parte deste camp. Portanto, para mim é mais uma vez um privilégio e uma oportunidade para estar, como pôde ver há pouco, a conversar e, em tertúlia, a construir e a transmitir conhecimento ao mesmo tempo. É mais uma semana a fazer aquilo de que se gosta com felicidade. Este camp traduz precisamente isso.

Bernardo Pires, Neemias Queta e Miguel Minhava Fotografia A BOLA

— Para quem é treinador na Liga portuguesa, como foi vivenciar estes dias de convívio com cinco adjuntos dos Celtics — profissionais no maior campeonato do mundo, numa equipa que luta pelo título e onde tudo é ao pormenor? Como é feita essa aprendizagem?
— É, sem dúvida nenhuma, uma reflexão que nós, treinadores em Portugal, temos de fazer sobre o futuro do nosso basquetebol, sabendo que ainda estamos atrasados em alguns aspetos. Contudo, é igualmente um desafio partilhar o campo com eles durante uma semana inteira e perceber que estivemos a transmitir conhecimento, mas também a adquiri-lo. Foi uma semana que, com humildade, serviu para dar e receber aprendizagens.

— O que foi aprendendo concretamente com eles? Para além de estarem no campo a dar treinos, certamente passou a ter outro prisma sobre certos aspetos...
— Acho muito interessante perceber a abordagem deles ao treino individual, à preparação física, ao critério e ao detalhe como preparam os jogos em pouco tempo, até porque estão sempre em viagem. São coisas que, para a nossa realidade — agora que as equipas portuguesas também jogam em competições europeias —, começam a fazer cada vez mais sentido. O grande ensinamento foi perceber a ênfase que dão a essas vertentes: a condição física, a técnica individual e o trabalho individualizado. O processo deles é muito mais focado no indivíduo, da parte para o todo.

Fotografia João Moreira/Hoopers

— Dá vontade de, por exemplo, fazer lá um estágio?
— Claro que sim. Seria muito interessante para todos nós podermos perceber como tudo funciona na NBA, até para desenvolver esse espírito crítico. Quanto mais informação e conhecimento tivermos de outras realidades, mais capazes somos de olhar para dentro e perceber não só o que está mal, mas também o que está bem.

— A experiência demonstra que nem tudo é uma questão de dinheiro? A NBA é uma liga rica e dispõe de vários elementos para cada função, mas na vertente organizacional há situações que não dependem do orçamento...
— Acredito que este camp, no seu todo, demonstra precisamente que nem tudo é dinheiro. Nenhum de nós está aqui a ganhar dinheiro. O propósito é claramente a partilha e o crescimento mútuo. Por isso, o facto de estarem cá cinco elementos de uma das maiores ligas do mundo a trabalhar com jovens portugueses revela de imediato que o dinheiro quase nem é assunto para as pessoas que aqui estão.

Treinadores que participaram no Neemias Queta Training Camp Fotografia João Moreira/Hoopers

— Em relação ao seu grande desafio para a próxima temporada: assumir o comando do Sporting, uma equipa que luta por títulos, contrasta com o objetivo anterior de tentar chegar às fases finais. É o maior desafio da sua carreira?
— Sim, pelo menos para já. É o que tenho dito: trata-se de um desafio que irei encarar, como todos os outros até hoje, com muita ambição para fazer jus aos pergaminhos do clube e tentar ser a pessoa certa no lugar certo.

— Quando o abordaram pela primeira vez, foi difícil dormir nessa noite, por se tratar de um salto tão grande na carreira?
— Acho que foi difícil dormir nessa noite e em todas as outras desde então! O objetivo tem sido, neste curto espaço de tempo, tentar colocar tudo nos pontos certos para podermos arrancar com a pré-época no início de agosto já com tudo a postos.

— Para quem esteve em Albufeira durante sete anos, custa ver o Imortal fora da Liga?
— Sim, mas mais do que custar ver o Imortal fora da Liga, custa muito vê-lo na 4.ª Divisão quando sabemos que é um clube de 1.ª Divisão. Especialmente depois destes últimos anos em que se tornou, sem dúvida nenhuma, numa referência do basquetebol nacional no desenvolvimento e oportunidade para os jovens crescerem no topo. Nada mais a dizer.

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