Fotografia João Moreira/Hoopers
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Miguel Minhava: «Não é a mesma coisa, mas treinar mulheres ou homens é-me igual»

O antigo Internacional português e tetra campeão do Benfica, viveu o seu primeiro Neemias Queta Training Camp e conversou com A BOLA sobre a experiência, diferenças, saudades e o que pretende quando para esta temporada assume a liderança do GDESSA na Liga feminina

Durante a 3.ª edição do Neemias Queta Training Camp, que ontem terminou em Carcavelos e envolveu 100 jovens basquetebolistas entre os 13 e 17 anos, além dos cinco treinadores adjuntos dos Celtics que marcaram presença e trouxeram vivências diferentes, que se associaram ao restantes técnicos e jogadores que estava ao seu lado sob o comando técnico de Carlos Barroca, havia dois que, pelos desafios que irão ter na temporada 2026/27, viveram também um momento especial.

Um foi Bernardo Pires, novo treinador do Sporting para a Liga Betclic masculina. O outro, o antigo internacional e tetra campeão pelo Benfica, Miguel Minhava, de 42 anos, que após uma passagem pelo Sporting e de liderar a seleção sub-16 da Associação de Setúbal, nesta temporada regressa ao GDESSA, na Liga Betclic feminina. A BOLA conversou com o ex-base sobre a experiência que viveu no campo do poste português de Boston.

Fotografia João Moreira/Hoopers

— Este ano participou no campo de treinos do Neemias Queta como um dos treinadores que trabalharam com os cerca de 100 jovens. Como é que surgiu este convite?
— Já tinha surgido antes. Acho que há dois anos o Carlos [Barroca, diretor técnico do evento] tinha falado comigo, só que, na altura, como me encontrava no Sporting [adjunto da equipa sénior de Luís Magalhães e treinador dos sub-23] e já estávamos a trabalhar, não consegui vir. Agora surgiu com naturalidade e fiquei muito satisfeito porque, de facto, é um campo bem organizado. Além disso, é o campo do Neemias, o nosso símbolo em termos nacionais, e espero que daqui para a frente também possam aparecer outros.

Mas, claro, é gratificante. Gosto sempre de trabalhar com miúdos, seja qual for o contexto. Obviamente, num evento bem organizado e num bom recinto — pois os [Quinta dos] Lombos têm um espaço muito bom —, é fácil aceitar. Para mim, isto nem é trabalho. É o que gostamos de fazer: estar dentro do campo com os miúdos e ajudar. É importante haver boa disposição porque, durante o ano, as coisas costumam ser um bocadinho mais pesadas para eles. Aqui o objetivo é aprenderem, evoluírem, mas igualmente passarem um bom bocado e terem esta experiência com o staff do Celtics e com este tipo de treinadores.

— Com a presença dos adjuntos dos Celtics, gente habituada a outro nível e cultura, sente-se que existe uma maneira diferente de ver o basquetebol?
— Sim, mas também sentimos que é uma realidade distante da nossa em Portugal. Pela Europa, começa a ser cada vez mais normal: equipas com staffs maiores e muita especialização. Tivemos cá o treinador do ataque de Boston, o da defesa, o coordenador de vídeo — creio que no vídeo até são dois os elementos que tratam do departamento —, mais um da condição física... Ou seja, é o caminho do futuro: a profissionalização. Antes falava-se na profissionalização dos jogadores, e essa já está feita a esse nível. Agora, as equipas técnicas vão tendo cada vez mais elementos. Quando pensamos na nossa realidade — eu penso em mim como treinador, já que esta época vou treinar o GDESSA — e em ter de tocar quase os instrumentos todos... aqui não.

Fotografia A BOLA

— Acabou por também ser um campo de treinos para si?
— Sim, tivemos igualmente momentos de partilha. Houve a oportunidade de assistir aos treinos do Neemias e do Haywood Highsmith [Phoenix Suns], e estiveram cá ainda o André Cruz [Sporting], o Rafael Lisboa [Alicante] e o João Embaló [Sporting]... Dá sempre para aprender qualquer coisa, mas é muito interessante percebermos que se consegue ser melhor quando se está dedicado apenas a uma vertente. Se estivermos focados só no ataque, conseguimos extrair mais pormenores. Em Portugal ainda temos de tocar um bocadinho todos os instrumentos, o que torna tudo mais difícil. Mas entre os treinadores houve muita partilha, e mesmo com os miúdos aprendemos. Seja pelas perguntas que fazem ou por coisas que por vezes executam no campo sem estarmos à espera, acaba por ser sempre uma aprendizagem para todos.

— O Neemias treinava todos os dias. Para quem foi um bom jogador e até internacional, dá vontade de ir para lá treinar com ele um bocadinho?
— Dá! Quando vejo este pessoal a treinar, a única coisa que me trava são algumas dores que já tenho. Já estava morto só de estar ali em pé de manhã à tarde desde segunda-feira. O problema é só mesmo a condição física, porque a vontade... o chip de jogador continua cá todo, assim como a vontade de querer participar. Mesmo nos meus treinos, na medida do possível, integro os exercícios de forma a ajudar e a ir buscar um bocadinho dessa experiência. Penso que quem jogou nunca deixa de ser jogador. Quem é treinador depois também não deixa de o ser, mas o jogador de facto não sai de dentro de nós. Quem me dera ainda ter umas pernas fresquinhas como as do André Cruz, por exemplo, e andar lá a correr de um lado para o outro!

Fotografia João Moreira/Hoopers

— Esta época vai estar à frente da equipa do GDESSA na Liga feminina. Que desafio é este?
— É um regresso a casa, na Liga Feminina. Na passada temporada a equipa foi à meia-final e agora vamos jogar a Supertaça logo contra o Benfica. Mas mais importante do que tudo — e cada vez valorizo mais isso —, às vezes as pessoas perguntam-me: «Mas agora voltas ao feminino?». Não! Treinar mulheres ou homens dá igual. Não é exatamente a mesma coisa, mas para mim, para a minha satisfação e para aquilo que quero das equipas, é igual. De uma forma ou de outra, sinto-me realizado a treinar.

Cada vez é mais importante o projeto que me apresentam, e o que o GDESSA me apresentou é regressar numa fórmula que me agrada: ter uma formação forte, haver uma grande ligação da formação à equipa sénior e tentar jogar para estar no topo, no top 4 da Liga feminina, marcando presença nas fases finais... isso satisfaz-me. É um clube de que gosto muito, assim como das pessoas. Saí do GDESSA, mas mantive-me sempre muito ligado à estrutura.

Alguns dos treinadores que participaram no campo de Neemias Queta Fotografia João Moreira/Hoopers

— E volta outra vez apenas como técnico.
— Gosto de ver o todo quando olho para um clube. Considero que a primeira responsabilidade de um treinador de uma equipa sénior é treiná-la, sem dúvida alguma, mas acho que cada vez mais tem de ser alguém que inspire quem vem de baixo e que faça perceber que o trabalho da formação é muito importante para quem está lá em cima. É esse sentimento e essa ligação que quero reforçar no GDESSA, pois o clube teve-o na maior parte da sua história. Não digo que já não o tivesse, mas queremos consolidar esse aspeto. Por isso foi muito fácil dizer que sim. Estou em casa, no Barreiro, na minha cidade, portanto estou muito expectante e confiante de que as coisas vão correr bem.

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