Rui Borges, 45 anos, está no Sporting desde dezembro de 2024 - Foto: MIGUEL NUNES
Rui Borges, 45 anos, está no Sporting desde dezembro de 2024 - Foto: MIGUEL NUNES

O leão de duas faces

'A Bola é redonda. O Verde é futuro' é o espaço de opinião de Pedro Ângelo, CEO da NAV e sócio do Sporting Clube de Portugal

Na Europa, na estreia desta edição da Liga dos Campeões, o Sporting soube transformar uma desvantagem numa vitória. Em Famalicão, deixou escapar uma vantagem, consentindo um empate penalizador para as aspirações no campeonato. Entre o triunfo por 3–1 diante do Galatasaray e a igualdade a uma bola de domingo, o universo leonino voltou a oscilar entre a satisfação pelo que esta equipa consegue fazer de bom e a inquietação perante aquilo que, demasiadas vezes, continua a conceder. O talento individual aparece a espaços e vai compensando lacunas do coletivo. Porém, a consistência tarda em ganhar forma e as ambições no campeonato não se sustentam em meras boas intenções.

Importa, desde logo, não simplificar a análise, como se o Sporting tivesse sido inteiramente competente na Champions e absolutamente incapaz na Liga Portugal. Diante dos turcos, as duas faces do Leão couberam no mesmo jogo. A equipa entrou desconfortável perante a pressão adversária, perdeu demasiados duelos, revelando pouca agressividade, e demorou a encontrar os caminhos para sair a jogar. Cresceu depois, sobretudo na segunda parte, com outra combatividade, melhores ligações e maior capacidade para explorar os espaços. Rui Borges teve mérito nas alterações promovidas na cabine durante o tempo de descanso. Ficou evidente uma outra atitude na segunda parte e, acima de tudo, uma outra forma de a equipa se posicionar, sair a pressionar a saída de bola e a encontrar os atalhos para ferir o adversário.

Com efeito, seria intelectualmente desonesto responsabilizá-lo pelas dificuldades iniciais e negar-lhe participação nas soluções introduzidas ao intervalo que ajudaram a superá-las. Houve dedo do treinador, devemos ser justos a reconhecer o mérito de virar o jogo para uma importante vitória. Mas admitir a capacidade de corrigir não dispensa a pergunta sobre a preparação para começar melhor, o que podia ter implicado um outro resultado, caso o Galatasaray tivesse logrado um segundo golo, e oportunidades houve para o efeito.

Em Famalicão, a exibição foi menos esclarecida, sem que isso signifique ausência de oportunidades. Socorrendo da estatística e dos dados, o Sporting contabilizou dezasseis remates e cinco ocasiões flagrantes de golo. Existiram, portanto, possibilidades suficientes para construir um outro resultado, mesmo sem um futebol particularmente fluido ou acutilante no último terço. A ineficácia explica em parte o empate, mas não apaga as fragilidades de um futebol praticado pouco convincente.

Por outro lado, os dados estatísticos não devem servir de biombo para esconder a incapacidade de proteger uma vantagem conquistada aos 81 minutos, mormente quando na circunstância o adversário estava em inferioridade numérica, reduzido a dez jogadores. O golo consentido na compensação foi o desfecho infeliz, mais do que ingrato, de uma situação que a equipa deveria ter sabido controlar com outra competência.

Mais uma vez assistimos à confirmação de uma tendência do Sporting de Rui Borges: a incapacidade em saber segurar as vantagens, permitindo ao adversário crescer no jogo quando a atitude competente passaria por conservar a bola, exibir maior controlo emocional e não permitir veleidades ao adversário.

É a décima sexta vez que o infortúnio acontece a Rui Borges, pelo que não deve esta tendência ser menosprezada ou tratada com uma mera fatalidade episódica, de vantagens perdidas determinadas pela apaixonante imprevisibilidade do futebol. Os jogos não tiveram todos a mesma história, é certo, mas o desfecho reiterado obriga a procurar algo mais do que uma explicação diferente para cada jornada.

A comparação com os competidores também merece ser feita para percebermos o padrão entre equipas, por forma a avaliar o respetivo desvio para os principais concorrentes. Ora, considerando a época transata na sua globalidade, o FC Porto de Farioli perdeu vantagens em cinco ocasiões, o Benfica de José Mourinho apenas por 4 vezes, enquanto o Sporting registou dez vantagens perdidas, o dobro ou mais que os seus rivais diretos averbaram.

Como aqui escrevi anteriormente, identificar a perda de energia ou a quebra de concentração não equivale a encontrar uma solução. Rui Borges voltou a dizer que a equipa não pode desligar, nem por um segundo até ao apito final soar, sob pena de comprometer o resultado. Só que o diagnóstico identificado pelo homem do leme carece de outro tipo de resposta do próprio.

Compete ao treinador resolver esta tendência de sofrimento, de situações em que a equipa se apanha em vantagem e se permite a recuar no terreno de forma passiva e receosa. Mais do que a expressividade ou uns gritos vindos do banco, estas situações exigem respostas trabalhadas durante a semana, na Academia Cristiano Ronaldo.

É ainda compreensível que um plantel renovado e uma equipa nova, em processo de construção, atravessem oscilações. As boas exibições não se compram com os valores de investimento em passes dos jogadores, nem se operacionalizam com os mediáticos filmes de apresentação dos reforços. Não será justo exigir o entrosamento imediato a quem ainda está a aprender os movimentos, as características e os tempos dos companheiros, criando as rotinas próprias de um jogo de equipa. Sucede que há dificuldades próprias de um processo de renovação, que são aceitáveis e até inteligíveis, e há problemas crónicos identificados que continuam cativos e teimam em ser resolvidos, independentemente da mudança de ciclo de jogadores.

Também o mercado deve ser avaliado além do entusiasmo das apresentações. Doumbia por Morita, Zalazar por Trincão, Flávio Gonçalves por Pote: não falo de equivalências exatas de posição ou de características, mas do rendimento que é necessário repor. A energia e a fisicalidade de Doumbia não substituem automaticamente a cultura tática, a leitura dos momentos e o conhecimento do jogo de Morita. Zalazar acrescenta verticalidade, capacidade de visar a baliza e qualidade na finalização das bolas paradas com o seu forte remate colocado, mas não oferece a mesma capacidade de desequilíbrio de Trincão. E seria profundamente injusto exigir a Flávio que assegurasse, de imediato, a influência que Pote exercera no jogo ofensivo do Sporting ao longo das últimas épocas.

Compete ao treinador do Sporting responder pelo aproveitamento dos recursos na transição de ciclo, assumindo o desafio de transformar o projeto de renovação numa equipa vencedora. O tempo do benefício da dúvida começa a esgotar-se, cabendo a Rui Borges demonstrar se é ou não um treinador de impressão digital, capaz de construir uma obra de autor, à semelhança do trabalho desenvolvido por outros treinadores que deixaram uma marca reconhecível no futebol português.

Dito isto, não me revejo nas euforias típicas de pré-época de determinados clubes, nem nos funerais desportivos de setembro. O Sporting soma catorze pontos em seis jornadas e perdeu quatro pontos desnecessariamente, depois de estar em vantagem em dois jogos fora. Estamos numa posição desconfortável, mas muito cedo para sentenciar que estamos fora da discussão do campeonato, como já oiço dizer em alguns fóruns.

Nem sequer a estatística autoriza esse fatalismo: o FC Porto de Sérgio Conceição, campeão em 2021/22, também somava catorze pontos, após as primeiras seis jornadas e terminou esse campeonato com o recorde máximo de pontos, até hoje alguma vez alcançados, os inigualáveis 91 pontos. O precedente não oferece qualquer garantia aos leões, mas demonstra que quatro pontos perdidos nesta fase não constituem um veredicto sobre o destino do campeonato.

Saberá Rui Borges entregar um sorriso rasgado de campeão a este Leão de duas faces?

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