Neemias Queta: «Foi uma época de afirmação, mas ainda consigo dar mais»
De regresso a Portugal após ter assinado com os Celtics o primeiro grande contrato da carreira, renovação por quatro temporadas que começa a contar a partir de 2027/28 e reconhece o crescimento e estatuto que passou a ter na NBA aos 27 anos, o poste de Boston fez uma pequena pausa no seu 3.º Neemias Queta Training Camp, concentração destinada a 100 jovens, entre os 13 e 17 anos, que querem evoluir, para conversar com A BOLA.
Não se escusou a nada. Falou sobre a sua melhor temporada de sempre, de como custa não voltar a ser campeão, de jogos que o marcaram em 2025/26 ou porque não lança triplos.
Confessou ainda que é forreta, do que significa o milionário contrato para lá do dinheiro, porque não veio à Seleção e ficou em Boston, mas que não irá falhar os dois próximos embates, que não chega só ser votado para os prémios anuais, como viu a conquista do títulos dos Knicks, quais os pavilhões que mais aprecia e que o ex-Celtic Jaylen Brown que se cuide porque vai ser abafado.
— Na quinta época na NBA, jogou 76 dos 82 jogos da fase regular e só num não esteve inicial, a que se podem acrescentar seis de play-offs. Passou de uma presença em campo de 13,9 minutos para 25,3 e todas as médias — e reforço que foram mesmo todas —, 10,2 pontos, 8,4 ressaltos, 1,7 em assistências e 1,3 em desarmes são máximos de carreira. Foi melhor do que contava ou era isto que esperava?
— Não, não sei dizer. À medida que se vai avançando, começa-se a criar expectativas melhores e em termos de recolocação de pensamentos, não sei mesmo. Mas o que sei é que foi uma época bastante bem conseguida e que foi, sem dúvida, uma temporada de afirmação na Liga e que fiquei bastante contente em termos individuais com o meu desempenho.
— Só faltou ir mais longe no play-off [Os Celtics foram eliminados na ronda inaugural]?
— Sem dúvida.
— O que é que faltou aos Celtics contra os 76’ers?
— Acho que eles conseguiram melhorar bastante o ritmo do jogo e conseguiram executar melhor que nós em certas alturas. Mas penso que foi uma lição de aprendizagem para nós e que temos ainda muito pela frente para podermos continuar a trabalhar e conseguir chegar a um nível mais elevado.
— Uma coisa que me lembro sempre quando foi campeão, no balneário, disse-me: ‘Tu vais ver, eles não estão à espera, vais ver o que é que vou fazer!’ Estes números que está a começar a apresentar, era disso que falava e sentia que podia dar?
— E ainda consigo dar mais. Acho que só agora é que consegui estabelecer-me e que tenho ainda muito, muito futuro pela frente. Bastante mais potencial por atingir e é isso que me motiva para trabalhar todos os dias.
— Consegue fazer uma comparação o que é que significou naquela altura quando fez 15 jogos na primeira época pelos Kings [2021/22] e agora estes 76 da regular season pelos Celtics? A diferença de sentimento em cada um deles?
— Naqueles primeiros 15 jogos era como um miúdo numa loja de doces ou de brinquedos. Estás no topo do mundo. Sentimo-nos muito bem por estar lá, mas agora creio que já me sinto mais normal. Mais bem conseguido. E tenho vindo a ganhar maior tranquilidade dentro de campo, a estabelecer-me mais, assim como a jogar com cada vez maior confiança.
— Depois de ser campeão, quando não se é, sabe sempre a pouco?
— Yeah, acho que sim. É uma espécie de menino mimado que aprende a acordar para a realidade. Uma pessoa quando é campeã pensa que vai voltar a ser campeã sempre todos os anos, mas na realidade não é assim tão fácil. A NBA é uma liga bastante competitiva e em todas as janelas de trocas existe sempre bastante movimentação, tanto do nosso lado como dos outros. Há equipas que melhoram imenso, que fazem montes de transferências e conseguem ir buscar mais valias para a sua formação. É isso que torna a Liga tão boa.
— Pareceu-me que nesta época, no primeiro mês e meio, com o maior tempo de utilização, faltava-lhe um pouco o fôlego, ficava mais cansado e isso obrigava-o a cometer mais faltas e os erros apareciam. Mas depois ganhou esse fôlego e resistência, melhorou, e tudo passou a ser diferente, o que permitiu que atingisse aqueles números e estar mais tempo em campo. Pensa que foi isso que aconteceu? Sentiu essa mudança fisicamente?
— Sim. Acho que é um bocado por isso é um bocado de confiança também à medida que a época vai indo, estar um pouco à-vontade com os teus colegas. Foi uma mistura de todos esses aspetos que me deu maior descontração dentro de campo e isso permite-nos que vamos jogando bem, a sentirmo-nos melhor e começa-se a jogar mais solto. Foi isso que aconteceu durante a temporada e deu para fazer uma época bastante bem-conseguida.
— Consegue destacar algum jogo nesta temporada que o tenha marcado?
Um jogo?... Não, não sei dizer um jogo especificamente, mas...
— Contra os 76’ers [em março]: 27 pontos, 17 ressaltos, 10 deles ofensivos, 3 desarmes de lançamentos, 2 assistências.
— Foi um bom jogo [reconhece concordando também com a cabeça]. Mas também diria se calhar o jogo com Denver, em casa [janeiro]: 10 ressaltos ofensivos e 10 defensivos [6 pontos]. A produção de ressaltos foi muito boa para mim e acredito que é algo que quero voltar a fazer.
— Sabe quantas vezes já lançou de três pontos deste que está na NBA?
— Para aí dez.
— Onze. Sete só esta época. E quantos marcou?
— Um.
— Lembra-se contra quem?
— Pelicans.
— Exato! Não lança mais de três pontos porque não está dentro do sistema do jogo que o Joe Mazzulla traça — nos aquecimentos, sempre que os vi, ao vivo ou nas transmissões online, tem percentagens à vontade acima de 50 por cento — ou porque ainda se retrai?
— É uma mistura dos dois. Sinto que posso lançar triplos. Tenho confiança para tal e trabalho para isso, mas, às vezes é perceber também o contexto da tua equipa. Quem é, quem é que está ao teu lado, quem está dentro de campo, para quem é o passe extra para o canto. E a nossa equipa está cheia de lançadores, cheia de snipers. Por isso não preciso de lançar quando tenho um atirador como Sam Hauser à minha direita e à esquerda, tenho um Payton Pritchard, um Jayson Tatum ou o Derrick White.
Continua...