'Sports Science', casa das máquinas e... pinças: todas as explicações de Mourinho
— Que Alverca espera amanhã na Luz? E tendo em conta o estado do tempo, de que forma é que isso influencia o tipo de jogo?
— Espero um Alverca igual a todas as equipas que vêm ao Estádio da Luz no campeonato. Com a esperança de não perder, a jogar para não perder, muito bem organizado, bem treinado, muito bem organizado para dificultar o jogo de uma equipa que quer ganhar. Com a tranquilidade dos pontos que têm e que os posicionam na tranquilidade e não na pressão da luta pela permanência. E depois com qualidade. É uma equipa que não constrói muitas oportunidades de golo, mas que faz golos. Uma equipa perigosa contra nós, principalmente porque depois de um empate no último jogo a vitória é o único resultado que nos interessa e é a vitória o único resultado que nos pode deixar, entre aspas, entusiasmados com o jogo de segunda-feira. Se nós não ganharmos o jogo de amanhã, o jogo de segunda-feira passa a ter um significado muito reduzido para nós. Com o estado do campo, eu acho que jogar em casa é muito bom, porque se algum estádio vai estar em condições para se jogar é o Estádio da Luz. Eu ainda agora venho do jogo dos jovens que estão ali a jogar [relvados do Seixal], uns contra o SC Braga e outros contra o FC Porto, e os campos estão num estado muito, muito difícil. Os miúdos não conseguem fazer dois passes seguidos e com os homens seria igual.
— Era alguém que acreditou sempre que poderia evitar a eliminação na UEFA Champions League. Mantém essa confiança em relação ao título? E Lukebakio pode ser reintegrado nos próximos tempos?
— Para amanhã não dá, mas na próxima semana, com jogo na sexta-feira, talvez. Deve estar ali no limite entre o sim e o não. E depois, na semana seguinte, se o processo estiver a decorrer normalmente, é um sim. Ele está bem e agora é uma questão de treinar e de se sentir bem e de sentir confiança. A minha confiança? É defeito de fabrico. Eu sou assim, no positivo e no negativo. Se quiser rir, pode rir, mas no outro dia, quando fizemos o terceiro golo ao Estrela da Amadora, os meus colegas ao lado disseram-me 'já está' e eu disse 'não está nada que ainda falta muito'. Para o positivo e para o negativo eu sou muito objetivo, sou muito pragmático. Quando estive na frente dos campeonatos dizia sempre 'só quando matematicamente formos campeões é que somos campeões'. E estando atrás fui sempre à caça, até que matematicamente fosse possível dar a volta ou não fosse possível dar a volta. Neste momento é matematicamente possível dar a volta e, como eu dizia, vamos atrás deles. Mas para na segunda-feira podermos esperar o resultado do jogo com alguém a perder pontos, ou os dois, só ganhando amanhã. Temos que ganhar amanhã.
— Rafa já está há cerca de duas semanas no Benfica. Sente-o motivado? Tem condições para ser titular amanhã?
— Aqui toda a gente treina bem, toda a gente tem motivação para treinar. Uma das coisas que têm sido sempre ao longo da minha carreira uma grande preocupação é a construção de treinos motivadores, interessantes. OK, em busca de objetivos, mas que sejam motivadores, que sejam interessantes, que puxem um bocadinho também pelos jogadores. Portanto, obviamente que ele está motivado como todos, está a trabalhar como todos, vai recuperando o seu tempo de ausência. Já fez dois jogos, 20 minutos num, 30 minutos noutro. Eu diria que, com o tempo a passar, vai tendo mais minutos nas pernas e amanhã seguramente vai jogar.
— No clássico entre FC Porto e Sporting tem alguma preferência? Que ganhe uma equipa ou ganhe outra, ou prefere que percam ambas pontos?
— Não, o meu trabalho é ganhar amanhã, não é? Eu quero é ganhar ao Alverca. A minha missão é ajudar os meus a ganhar ao Alverca. Acho que o foco de todos nós, e inclusive dos benfiquistas que vão amanhã ao estádio, tem de ser ganhar ao Alverca, que não é seguramente fácil. E todos juntos, todos motivados, tentar puxar pelo estádio e também pedir que o estádio puxe por nós. Ganhar é fundamental antes do clássico. Se me perguntar quem é que eu gostava que ganhasse, e obviamente que aquilo que eu gostava não conta para nada, esquecendo o nome dos clubes — e eu não quero ir por aí, não quero ir pelo nome dos clubes — diria que era melhor para nós que o primeiro classificado perdesse.
— Ivanovic deu há poucos dias uma entrevista no país dele, revelando inclusivamente uma conversa com o treinador do Benfica, dizendo, por exemplo, entre outras coisas, que Pavlidis tem a prioridade. Como é que José Mourinho vai gerir a situação do jogador, de forma a que não se desvalorize alguém que custou quase 23 milhões de euros ao Benfica?
— A minha primeira missão enquanto treinador do Benfica, o objetivo principal, até porque é o Benfica, até porque é a cultura do Benfica, é ganhar jogos. E nunca, nestes meses em que eu estou aqui, presidente, Conselho de Administração, diretor-geral ou diretor do Futebol, me disse para ter em atenção a valorização ou desvalorização de algum dos nossos ativos. O objetivo principal é sempre, e em qualquer circunstância, tentar ganhar o maior número de jogos possível. E quando faço as minhas escolhas é nisto que penso. Depois, obviamente que como treinador gestor, como treinador líder de homens, também penso nisso, também penso também na individualidade, também penso nas ambições dos jogadores, também penso que há um Mundial daqui por meia dúzia de meses e sem provocar conflitos entre aquilo que é fundamental e aquilo que é secundário, o secundário também me interessa. O Iva tem jogado pouco, mas tem estado sempre presente, nunca ficou fora de uma única convocatória. Utilizei-o quando achei que devia utilizar, quando foi um jogo em que eu senti que as características do adversário, a maneira como o adversário jogava — um adversário que eu conhecia muitíssimo bem como foi o caso do Nápoles — eram ideais para as suas características. E fui capaz de deixar de fora o Pavlidis. Há outros jogos, principalmente nos jogos do campeonato nacional, em que as equipas jogam muito baixas, as equipas jogam muito fechadas, as equipas acumulam muita gente na frente da área e muitas vezes na área, há determinados perfis de jogador que fazem mais sentido. Por exemplo, o Anísio é um jogador que joga em espaços reduzidos, é um jogador que joga de costas para o adversário, é um jogador que serve de referência na área. Eu vou pelas características que me podem ajudar, no meu entender — e algumas vezes posso estar errado —, que nos possam ajudar a ganhar jogos.
— Dedic é um jogador que lhe causa alguma apreensão?
E, por outro lado, se sente ter influenciado o facto de miúdos que lançou [Anísio Cabral, José Neto e Banjaqui] estarem perto de renovar.
— Dedić não está bem. Não podemos dizer que está lesionado e 100% fora da competição, mas é um jogador que arrasta alguns problemas e que tem de ser gerido com pinças até porque, OK, cada jogo é decisivo, cada ponto é decisivo, mas também há jogos em que, se ele não jogar, encontraremos soluções. E há outro tipo de jogos em que, se ele não jogar, não encontraremos soluções. Por exemplo, o jogo com o Real Madrid: sem Dedic é muito, muito difícil de encontrar uma solução de equilíbrio que possa jogar um jogo daquele nível. Portanto, até lá, temos de ir gerindo como o fizemos contra o Tondela, porque ele tem um pequeno problema. Quanto aos jovens jogadores... eu faço o meu trabalho com toda a naturalidade. Acho que as coisas que acontecem aos miúdos também acontecem com naturalidade, acontecem com o trabalho que eles fazem ao longo dos anos. Depois, obviamente que é preciso alguém que os meta lá dentro, obviamente que há sempre um primeiro passo. Mas o importante é que nós estamos a pensar muito neles, estamos a pensar muito neles e analisamos ao detalhe situação individual, cansaço, mudança de equipas, tempos de utilização. Treinam com a primeira equipa — por exemplo, José Neto já treina com a primeira equipa todos os dias, já jogou com a primeira equipa, já jogou nos sub-23, já jogou na equipa B, já jogou na Youth League. Estes miúdos têm de ser geridos também com pinças, com apoio científico. Ainda esta semana fizeram análises, foram investigados ao nível médico, ao nível da Sport Science, para termos dados que nos permitam ter algum tipo de decisões com eles porque estão numa altura importante do desenvolvimento deles e nós preocupamo-nos imenso com eles. Relativamente a contratos, há coisas que se dizem e às vezes também com um bocadinho de pouco conhecimento. Obviamente que eles só podem assinar contrato profissional [de longa duração] quando fazem 18 anos. Há umas semanas dizia-se que o Benfica ainda não tinha assinado contrato com os jogadores — o Benfica não pode assinar contrato [de longa duração] com os jogadores. Portanto, o Benfica chegou a ser criticado por não assinar contrato profissional com os jogadores atempadamente antes do treinador Mourinho os meter a jogar na equipa principal, criticados por não fazer uma coisa que é ilegal. Só podem assinar [contratos de longa duração] quando fazem 18 anos. O Benfica tem controlo da situação e o controlo da situação passa fundamentalmente pelo desejo que os miúdos têm de ficar aqui, pela sensação mais do que provada de que aqui vão ter portas abertas para o desenvolvimento e estamos contentes com o processo.
— Como está a situação de Richard Rios? Tem sentido falta das características que ele acrescenta à equipa?
— Sinto falta de todos. Sinto falta de todos. Uma coisa é ter Prestianni e Schjelderup ou Sudakov, outra coisa é ter Prestianni, Schjelderup, Sudakov, Rafa, Lukebakio, Bruma, para lhe dar o exemplo relativo aos alas. Outra coisa é ter Rios, Enzo Barrenechea — e não quer dizer a 100%, mas perto disso — , Fredrik Aursnes e Barreiro. Outra coisa é ter só Fredrik e Barreiro e o Manu, que também vai crescendo a pouco e pouco. Eu prefiro ter toda a gente à disposição. Ríos é único no nosso plantel, único nas suas características. Mas eu acho que quem tem jogado, tem jogado muito bem, temos encontrado uma dinâmica muito adaptada às suas características, estou contente. Só não estou contente com os empates que temos tido, principalmente este último com o Tondela, mas estou contente com a maneira como a equipa joga e a maneira como a equipa joga depende muito ali da casa das máquinas, que é uma expressão muito utilizada para aquela posição do meio-campo. Não me surpreenderia se no segundo jogo contra o Real Madrid Ríos já estivesse. Para o primeiro se calhar é prematuro, mas ali entre o primeiro e o segundo, ou no segundo, eu acho que está por aí a chegada dele.