Benfica: quando o problema é interno
No passado recente, já tivemos clubes (Benfica e FC Porto) que recuperaram de desvantagens pontuais consideráveis e se tornaram campeões. Apesar de não existirem impossíveis no futebol, este ano, a missão do Benfica é mais complexa, pois terá de recuperar pontos de dois clubes e não apenas de um, o que a torna muito mais difícil.
As falhas estruturais
Nos últimos anos, o problema do Benfica não está nos treinadores. A questão é estrutural. Dificilmente um treinador conseguirá resolver um problema que, embora aparente ser desportivo, é, na realidade, muito mais amplo. Por muita qualidade que tenham, não foram Roger Schmidt ou Bruno Lage, e, provavelmente, não será José Mourinho a solucioná-lo. Um treinador com resultados positivos no curto prazo até pode camuflar os reais problemas de uma organização, especialmente se os rivais também estiverem sem rumo — o que não parece ser o caso atualmente. Parece-me que não há um projeto desportivo. Nos últimos anos, o Benfica contratou muitos jogadores — 12 só em 2024/25 — e grande parte já não permanece no plantel.
Esta instabilidade dificulta a consolidação de um projeto, algo que Mourinho aponta como essencial para o crescimento da equipa. Sendo este um facto óbvio, a questão que fica por responder é: por que motivo, nos últimos quatro anos, o Benfica faz uma rotatividade tão grande no plantel? E, simultaneamente, por que motivo o Sporting consegue manter os seus melhores ativos por dois ou três anos, enquanto no Benfica estes são vendidos após um ano positivo?
A criseda liderança e cultura
José Mourinho disse recentemente que muitos jogadores ainda não sabem o que é o Benfica. Concordo totalmente. O facto de o treinador referir isto publicamente demonstra que a estrutura não está a cumprir o seu papel. Mas será que quem compõe essa estrutura sabe realmente o que é o Benfica? Tenho muitas dúvidas e alguns exemplos ilustram isso.
Nuno Costa, assessor do presidente, um mês após as eleições, publicou uma mensagem descontextualizada, provocatória e deselegante, criticando sócios e apontando o dedo a quem critica. Num momento em que se devia apelar à união, promoveu a desunião. O episódio demonstra uma clara indefinição de papéis na estrutura, algo que dificilmente acontece em organizações com liderança forte e linhas de autoridade bem definidas.
Um assessor da presidência tem o dever institucional de representar todos os sócios; quando adota uma comunicação provocatória e fraturante, o problema deixa de ser individual e passa a ser de liderança e cultura organizacional. Em clubes com liderança consolidada, este tipo de comportamento teria consequências. Outro exemplo foi quando Mourinho, depois de criticar a arbitragem no jogo com o SC Braga, referiu: «Eventualmente, o clube, enquanto instituição, pode querer fazer algo, ou não, e seguir a linha de estar habituado e acomodar-se à situação.»
Mourinho pode comentar os jogos à vontade, mas um líder do clube deve agir com racionalidade, preservando os valores e a responsabilidade da instituição. A publicação do Benfica nas redes sociais e as declarações posteriores de Rui Costa demonstram duas coisas: levantam dúvidas sobre a cadeia de decisão no clube e expõem uma presidência fragilizada, mais preocupada em defender a própria posição do que em garantir a consistência da instituição. O risco é óbvio: se o treinador sair, o clube pode ficar à deriva. Além disso, um presidente (e treinador) não pode queixar-se da arbitragem ignorando os momentos em que a equipa foi beneficiada, como num penálti não assinalado.
Arbitragem: um bode expiatório?
Guardei para último o tema da arbitragem. Percebo a ideia de procurar um bode expiatório, mas será que o Benfica, com mais um jogo, está a sete pontos do primeiro por causa da arbitragem? Com uma desvantagem de sete pontos ao fim da primeira volta, é difícil iludir os sócios: basta assistir aos jogos para perceber que, de uma forma geral, os outros candidatos jogam melhor futebol.
A teoria de que a arbitragem explica os pontos perdidos cai por terra: a responsabilidade recai sobretudo sobre a equipa. Faz sentido um clube que investiu €130 M, e contratou o treinador português com melhor currículo de sempre, tentar arranjar desculpas externas para os insucessos? Se seguir apenas o projeto do treinador, o Benfica pode melhorar no curto prazo, mas ficará mais vulnerável no longo prazo, caso ele saia.
O caminho só pode ser um: assumir responsabilidades, perceber os erros e não os repetir. Este mercado de inverno deverá refletir isso mesmo. As contratações devem basear-se numa filosofia de jogo e deverão ser uma visão de toda a estrutura, não apenas do treinador. Enquanto o Benfica procurar culpados externos, continuará a adiar a única solução que realmente importa: olhar para dentro.