A explosão da 'Danish Dynamite', a obra de autor de Sepp Piontek
Sepp Piontek morreu hoje, aos 85 anos. O antigo treinador alemão foi o criador de uma das melhores seleções, ou melhor, de uma das melhores perdedoras da História. Uma equipa de culto até hoje, ainda que nada tenha ganho.
A inspiração do Futebol Total num grupo de dribladores indisciplinados, que não perdiam oportunidades para se divertir (dentro e fora de campo), ainda por cima impecavelmente vestidos com dois dos mais bonitos equipamentos da história (o principal e o alternativo, que também refletiam um certo joie de vivre), desenhados pela Hummel, e um alemão focado em dar sentido a tudo isto dão lugar a uma das mais apaixonantes seleções de sempre: a Dinamarca de 1986.
We are red, we are white, we are Danish Dynamite!
Os adeptos chamam-se a si próprios de Roligans, os bêbados mais felizes do planeta em plena era do hooliganismo, e também os jogadores gostam de fumar, beber e sentir dos prazeres da vida. Depois de algumas medalhas olímpicas e de uma meia-final no Euro'64, conseguida à custa do improvável grupo de adversários Malta, Albânia e Luxemburgo, a Dinamarca cria a primeira liga profissional em 1978.
Um ano depois, o patrocínio da Carlsberg permite à federação contratar o alemão Sepp Piontek, que aos poucos incute disciplina em futebolistas que não se levam a si nem à profissão muito a sério. A mudança dos estágios para a sede da Confederação Dinamarquesa de Desporto, infraestrutura de betão, rodeada de arame farpado e sem acesso a televisão e telefone, torna-se uma decisão estrutural. Ao fim de vários meses, os futebolistas já toleram sessões táticas de várias horas e treinos cada vez mais exigentes.
Frank Arnesen, Soren Lerby, Jesper Olsen e Jan Molby passam pelo Ajax entre 1975 e 1982 e são inevitavelmente influenciados por Johan Cruijff. A Dinamarca estrutura-se num 3x5x2 – que não contrasta muito na forma com o 1x3x3x3 holandês, ainda que os nórdicos sejam dribladores e os holandeses passadores – igualmente pressionante, com uma linha alta e agressiva de fora de jogo e a famosa rotatividade posicional.
Depois das meias-finais de 1984, as expectativas no México, dois anos depois, são ainda mais baixas. Além do calor excessivo e do aumento de exigência, o experiente Allan Simonsen, que tinha passado por Borussia Mönchengladbach e Barcelona, acabara a carreira em França, com uma perna partida. No entanto, há a leitura do espaço de Morten Olsen, a versatilidade de Molby e Lerby, a visão de Michael Laudrup e o portento físico e técnico que é Elkjaer, e os dinamarqueses entram a todo o gás: 1-0 à Escócia e 6-1 ao Uruguai. É então que o orgulho fala mais alto.
Pela frente, está uma República Federal Alemã só vencida uma vez pelos dinamarqueses, em 1971, e mesmo nessa altura os germânicos tinham sido representados por uma equipa amadora. É ainda a RFA de um Piontek à procura de reconhecimento no seu país. O empate basta para a qualificação (e para fugir à Espanha e cruzar com o teoricamente mais acessível Marrocos nos oitavos de final), mas os nórdicos não fazem concessões e produzem mais uma grande exibição, que garante um novo triunfo, agora por 2-0.
A única má notícia é a suspensão de Frank Arnesen, expulso depois de uma entrada mais dura sobre Lothar Matthäus. Ele que tinha passado as últimas noites em claro, com a doença súbita da mulher.
Segue-se a Espanha, nos oitavos de final. A Dinamarca marca primeiro, mas, perto do intervalo, Jesper Olsen — que mudara da esquerda para a direita precisamente pela ausência de Arnesen — tenta um passe sem olhar para o guarda-redes e isola Butragueño. 1-1. Na segunda parte, a Danish Dynamite implode, com um esclarecedor 5-1.
O selecionador queixa-se da falta de mentalidade ganhadora, da resignação precoce dos jogadores pelo que já tinham alcançado até aí. A história tinha passado à sua frente. Em 1988, perde os três jogos do seu grupo e, dois anos depois, não está na fase final, em Itália. Piontek muda-se para a Turquia.
Não houve melhor seleção da Dinamarca. Um graffiti, feito a dois tempos, numa parede em Copenhaga fez durante anos prova disso mesmo: «O que faremos se Deus voltar à terra?» «Colocamos o Elkjaer numa das alas!»
Dois anos mais tarde, a Dinamarca é repescada para o Europeu da Suécia com a desqualificação de uma Jugoslávia em guerra. Liderada por Richard Möller Nielsen e Brian Laudrup — o irmão Michael incompatibiliza-se com o selecionador e fica em casa —, ganha o único título da sua história, numa versão bem mais pragmática do que aquela que tinha maravilhado o mundo seis anos antes. E num Europeu de baixo nível em que a principal figura é um guarda-redes alto e loiro, que alcunham de Grand Danois: Peter Schmeichel.