Após acidente de Vingegaard, ITA defende controlos antidoping noturnos no Tour
Bastante criticada por alguns ciclistas de topo mesmo antes do acidente que levou ao abandono de Jonas Vingegaard (Visma), o qual havia sido controlado às 2 da manha e depois teve dificuldade em dormir e descansar até à partida para a 15.ª etapa da 113.ª Volta a França, a Agência Internacional de Testes (ITA) emitiu um comunicado em que confirma ter realizado controlos antidoping noturnos a Tadej Pogacar (5 horas) e Jonas Vingegaard durante o Tour, defendendo a necessidade de interromper o sono e a recuperação dos ciclistas para garantir a «eficácia dos testes».
Num comunicado entregue à comunicação social presente na prova, a ITA, uma organização sem fins lucrativos sediada em Lausana, Suíça, assegurou que os testes foram conduzidos com «consideração pelo bem-estar, equidade e direitos fundamentais dos ciclistas». A agência, que gere de forma independente programas antidoping para federações internacionais, reconhece o transtorno causado.
«A ITA está ciente de que os testes noturnos podem perturbar o descanso e a recuperação dos ciclistas. Foi, por isso, dada a devida consideração para minimizar tanto quanto possível o impacto que as atividades de testagem têm sobre os atletas», pode ler-se na nota. No entanto, a agência sublinha a sua responsabilidade, em nome da UCI, de garantir a integridade das provas.
«Testes eficazes devem, em circunstâncias limitadas e justificadas, poder ocorrer fora do horário diurno normal», acrescenta o comunicado, afirmando que todas as atividades de testagem no Tour seguem o Código Mundial Antidopagem, as regras da UCI e a lei francesa.
A controvérsia surgiu após várias críticas por parte dos ciclistas. Tadej Pogacar, que foi testado às 5 da manhã igualmente antes da 15.ª etapa, sugeriu que a falta de sono de Vingegaard, após um controlo três horas antes do seu, poderia ter contribuído para quebra de concentração e consequente queda que provocou a fratura da clavícula e obrigará a intervenção cirurgica. No entanto, tanto Vingegaard como a sua equipa, a Visma-Lease a Bike, desvalorizaram essa ligação.
O líder do Tour, apesar de aceitar a necessidade dos controlos, não escondeu o seu descontentamento. «É um pouco estranho, mas aceito se for necessário para provar que estamos a correr de forma limpa. Mas é um bocado de m**** quando se dorme quatro horas num dia a meio de uma Volta de três semanas», desabafou Pogacar, que revelou já ter sido sujeito a outros testes de madrugada durante as Clássicas da Primavera e no próprio Tour.
Outras vozes juntaram-se ao coro de protesto. Remco Evenepoel considerou a prática «desrespeitosa» e «desumana», apelando à intervenção da associação de ciclistas CPA. «É desumano acordar-nos, tivemos uma longa transferência, e acordá-los assim é bastante desrespeitoso», afirmou o belga. Já Pascal Chanteur, presidente da associação francesa de ciclistas UNCP, sugeriu que os atletas estavam a ser assediados.
Apesar das queixas, as regras antidoping da UCI são claras quanto à permissão de testes noturnos, realizados entre as 23h e as 6h. A ITA, por sua vez, não respondeu a questões sobre suspeitas específicas de doping neste caso, alegando que as suas estratégias de testagem são confidenciais.
A ITA anunciou ainda que a sua abordagem antidoping para a Volta a França se baseia numa «avaliação de risco adaptativa». Esta estratégia integra fatores dinâmicos, como as tendências de desempenho dos ciclistas, para garantir testes estratégicos ao longo do evento. A ITA utiliza ainda dados do Passaporte Biológico do Atleta (ABP), incluindo o módulo endócrino, e informações recolhidas pelo seu departamento de Inteligência e Investigações (I&I).
No entanto, a aplicação desta política gera controvérsia. O facto de Pogačar e Vingegaard, primeiro e segundo classificados na geral, serem alvo de testes que lhes retiram tempo de recuperação, enquanto outros ciclistas do top 10 não o são, é visto como potencialmente injusto. Questiona-se se a UCI ou a ITA deveriam justificar publicamente se têm uma «suspeita séria e específica» de doping relativamente a estes atletas, em vez de basearem os testes apenas na sua classificação.
A ITA reforçou o seu compromisso com a fiscalização, afirmando ter realizado mais de 360 testes fora de competição no mês anterior ao Tour e prevendo cerca de 600 controlos durante a prova. As amostras recolhidas serão conservadas durante 10 anos para possíveis reanálises futuras.
Num comunicado emitido a 1 de julho, a agência esclareceu que «os testes durante o Tour de França serão direcionados e podem ocorrer a qualquer momento durante as três semanas de corrida, não apenas no final das etapas». Benjamin Cohen, Diretor-Geral da ITA, sublinhou o objetivo da organização: «Continuamos empenhados em proteger a integridade da corrida e em garantir que todos os ciclistas competem sob as mesmas regras e condições».
A questão central permanece: embora seja possível intensificar os controlos ao extremo, como exigir cinco amostras diárias a cada ciclista, existem limites estabelecidos para não tornar a luta antidoping contraproducente, prejudicando a saúde dos atletas limpos e a própria essência da competição.
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