O desporto dá saúde? Nem sempre
Diz o velho ditado que o desporto dá saúde. Acredito que sim, mas há uma frase de João Almeida que não me sai da cabeça esta semana: «Estamos a chegar ao limite do corpo humano.»
Disse-a na Vuelta, a propósito do calor extremo que tem acompanhado a corrida e depois de pedir para que a entrevista fosse feita à sombra. Por causa do calor que obrigou, inclusivamente, a organização a encurtar uma etapa em 79 quilómetros. Não era uma metáfora. Estava a falar literalmente do corpo. Daquilo que consegue suportar antes de deixar de conseguir responder.
Pouco depois, do outro lado do Atlântico, Carlos Alcaraz ofereceu uma imagem quase perfeita dessa mesma fronteira.
Carlos Alcaraz throwing up in his towel during his match against Ben Shelton at the U.S. Open.
— The Tennis Letter (@TheTennisLetter) September 9, 2026
It’s past 2 in the morning.
He's giving it his all. pic.twitter.com/hz6908jJPQ
O espanhol perdeu com Ben Shelton nos quartos de final do US Open, depois de 4 horas e 28 minutos de ténis. O encontro terminou às 3h33 da madrugada, no jogo mais tardio da história do torneio. Pelo caminho, Alcaraz chegou a vomitar em court. Ainda assim, recuperou, levou o encontro ao quinto set e só caiu no tie-break decisivo.
É extraordinário? É.
📼João Almeida:" avec ces fortes chaleurs, nous atteignons les limites du corps humain ; c’est dangereux"https://t.co/SmdHCZEevq
— Stef le belge (@stef170560) September 7, 2026
É também preocupante? Talvez devêssemos ter a coragem de dizer que sim.
Porque há uma coisa que o desporto parece ter aprendido a fazer que é transformar o sofrimento em virtude.
O atleta que joga lesionado é um guerreiro. O que compete com febre é um exemplo de compromisso. O ciclista que atravessa temperaturas impossíveis é um herói. O tenista que vomita, limpa a boca e continua a jogar está a «dar tudo».
E nós aplaudimos. Solidários.
Aplaudimos porque é emocionante. Porque é aquilo que queremos acreditar que distingue um campeão de todos os outros: a capacidade de ir onde os outros não conseguem ir. Mas talvez estejamos a confundir coisas.
A superação não pode significar ignorar os sinais do corpo.
João Almeida não estava a pedir menos competição. Estava a chamar a atenção para uma realidade que o desporto profissional conhece demasiado bem: há condições em que o corpo deixa de ser uma ferramenta de rendimento.
Porque os atletas não são máquinas, mesmo que alguns pareçam, como Fernando Pimenta, implacável na sua canoagem. Não são personagens de vídeo com uma barra de energia que se regenera
Alcaraz regressava no US Open depois de quatro meses afastado devido a uma lesão no pulso.Depois de perder, disse que saía do court feliz, orgulhoso e saudável. Talvez esta última palavra seja a mais importante.
O problema não é o atleta querer ultrapassar os limites, faz parte da essência, da competição. O problema começa quando, espectadores, treinadores, organizações, patrocinadores esperaram que o faça sempre.
Quando a desistência passa a ser fraqueza.
Quando parar passa a ser falta de coragem.
O desporto precisa de continuar a ser extraordinário. ter emoção, histórias, recordes, feitos que parecem impossíveis.
Mas talvez tenhamos de começar a celebrar também outra forma de coragem: a coragem de dizer basta.
Até onde estamos dispostos a ir para continuar a ter espetáculo?
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