Enquanto uns rezam pela queda, o Sporting responde com futebol
Há uma velha tradição portuguesa que nos mostra que quando alguém começa a levantar-se, há sempre uns quantos que esperam o regresso ao buraco. No futebol, essa tentação ganha expressão maior. Em Portugal, país da inveja onde a mediocridade é premiada, há quem deseje, nos jornais e nas televisões, ver o Sporting no chão, simplesmente porque é incapaz de despir a camisola clubística que traz por baixo do fato e da gravata.
Nas últimas semanas, porém, a realidade começa a contrariar o guião.
O Sporting não começou bem o campeonato. O empate 2-2 na Reboleira com o Estrela da Amadora foi uma exibição sofrível e Rui Borges, como qualquer outro treinador, errou. Negá-lo seria absurdo. Mas transformar as primeiras jornadas numa sentença sobre uma equipa que mudou bastante durante o verão é ainda mais absurdo. Só os burros não mudam, não aprendem e não corrigem.
E o Sporting corrigiu onde tinha de o fazer, dentro do campo.
Depois do tropeção com o Estrela, vieram quatro vitórias consecutivas: Vitória Sport Clube (3-2), Alverca (3-1), Nacional (2-0) e Galatasaray (3-1), na estreia na fase de liga da UEFA Champions League. São resultados, mas também sinais exibicionais progressivos de mais controlo, maior consistência, mais soluções e de uma equipa confortável com o novo desenho.
A vitória sobre o Galatasaray merece atenção. O Sporting sofreu primeiro, teve dificuldades perante a intensidade turca inicial e não fez uma primeira parte brilhante. Mas reagiu, ganhou confiança, cresceu no jogo e acabou por vencer. Catamo, Luis Suárez e Zalazar fizeram a diferença e Altimira foi um pêndulo a equilibrar a equipa. É precisamente nestes jogos que se percebe se uma equipa tem capacidade para crescer.
E há outro dado que devia desmontar algumas teses: o plantel que alguns passaram o verão a apresentar como destruído parece, em campo, mais forte e equilibrado do que aquele que terminou a época passada. Não é apagar o que Trincão, Pote, Morita ou Hjulmand nos deram e a quem devemos gratidão eterna. Mas, a verdade irrefutável, é que não existem jogadores gémeos. Substituir características não significa clonar jogadores. O próprio Rui Borges explicou que o mercado resultou da articulação entre estrutura, scouting e equipa técnica, procurando sempre as melhores soluções dentro das possibilidades do clube.
Por isso, prefiro as análises distanciadas de especialistas internacionais. Guillem Balagué, jornalista e analista espanhol; Sid Lowe, correspondente em Espanha e uma das vozes mais respeitadas da imprensa futebolística britânica; Julien Laurens, jornalista francês da ESPN e da BBC; e, agora, Mike Grella e Troy Deeney, ambos analistas da CBS Sports. Grella, antigo jogador de Leeds United, Brentford e New York Red Bulls, e Deeney, antigo capitão e avançado do Watford, olharam para o Sporting sem sentirem a necessidade de carregar às costas as rivalidades domésticas.
Depois do jogo com o Galatasaray, Grella foi particularmente claro: «Se fosse defesa, não gostaria de jogar contra esta equipa.» Destacou jogadores jovens, atléticos, rápidos e técnicos e concluiu que «é tão agradável a forma como jogam». Deeney foi igualmente expressivo ao afirmar que, perante todo o talento e investimento do Galatasaray, «parecia que todo o dinheiro tinha sido gasto do lado do Sporting». Talvez seja útil recordar estas palavras quando por cá há quem tente convencer os sócios e adeptos do Sporting de que aquilo que está a acontecer em Alvalade e em Alcochete é apenas uma ilusão.
É essa a diferença entre analisar e torcer. Entre observar e conspirar. Entre discutir decisões e inventar intenções.
Há demasiada gente empenhada em transformar cada declaração e cada rumor numa crise, a inventar guiões que só existem nas suas cabeças, a semear intrigas e a alimentar suspeitas de casos que, na verdade, não existem. E, quando falam tanto de transparência, talvez fosse interessante que começassem por tornar públicas as agendas e os interesses que defendem.
O Sporting deve responder-lhes como melhor sabe: jogando, ganhando e melhorando. A Administração da SAD, o treinador e os jogadores serão julgados pelo que fizerem, pelos resultados, pelas escolhas, pela evolução e pelo rendimento. Não por manchetes, rumores ou desejos de quem gostava que tudo corresse mal.
Ganha quem marca mais golos. E, neste momento, o Sporting está a marcar, a ganhar e a crescer.
Os batatais onde queremos vender um produto
Há, contudo, uma questão em que não podemos continuar a assobiar para o lado: os relvados em que as nossas equipas continuam a jogar.
É difícil levar a sério a conversa sobre valorizar a indústria do futebol português, centralizar direitos televisivos, aumentar receitas e vender um produto de qualidade quando demasiados jogos continuam a disputar-se em terrenos incompatíveis com o futebol profissional.
Depois da vergonha da Reboleira, o problema deixou de ser uma questão estética. O relvado do Estádio José Gomes acabou por ser chumbado pela Liga para a receção ao SC Braga, e a própria Liga Portugal acabou por identificar oito relvados com avaliação abaixo de 6,5 em 10, sujeitos a vistoria presencial.
Um relvado mau prejudica o espetáculo, condiciona as equipas e pode colocar em causa a integridade física dos jogadores. Não é aceitável investir milhões num plantel e depois jogar em terrenos indignos.
E aqui a responsabilidade é da Liga Portugal. É preciso agir. Se um estádio não apresenta condições para receber uma competição profissional, não pode receber um jogo dessa competição. Ponto final!
Se queremos a centralização dos direitos televisivos, aumentar o valor da Liga e convencer mercados internacionais de que o futebol português é competitivo, então comecemos pelo que aparece em todas as transmissões, o relvado onde as equipas jogam.
O lema é 'Mais jogo, melhor futebol'.
Se a Liga Portugal não cumprir a sua função de certificação e garantir condições mínimas para todos, terá de assumir responsabilidades. E, se não conseguir fazê-lo, mais vale que se demita.
Porque a verdade é esta, e, aqui, falo de Sporting, Benfica e FC Porto: podem mudar jogadores, treinadores, modelos de jogo e até contrariar previsões. O futebol português é que não pode continuar a querer vender futuro enquanto joga em batatais.
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