Mundial
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Que significará para a Europa se a final do Mundial de 2030 for em Casablanca?
A escolha da cidade da final do Mundial de 2030 será uma decisão geopolítica. Se a FIFA atribuir a final a Marrocos, essa escolha constituirá uma das mais simbólicas evidências da perda de influência da Europa no mundo contemporâneo.
O Mundial do centenário será disputado em seis países e três continentes. Começará na América do Sul, prosseguirá na Europa e em África. Terminará em Casablanca?
Muitos europeus diriam que a escolha de Casablanca teria resultado de interesses políticos ou de jogos de bastidores. A realidade é mais exigente. Se isso acontecer, será a consequência natural de uma transformação da ordem mundial iniciada há muitas décadas.
A Europa habituou-se a pensar que a sua história lhe garantia influência permanente. Porém, a influência nunca é um direito adquirido. Conquista-se, preserva-se e, quando deixa de existir estratégia, perde-se.
Essa dificuldade revela-se até na forma como a União Europeia escolheu representar-se. Ao fixar o seu centro político em Bruxelas, em vez de Roma, optou por uma capital administrativa e não pelo maior símbolo da continuidade histórica da civilização europeia.
Roma representa o direito, a cidadania, a administração pública, a construção de um espaço político comum e a ideia de uma vocação universal que moldou o Ocidente durante séculos. Os símbolos não governam, mas ajudam as civilizações a acreditar em si próprias. Quando deixam de os valorizar, já estão a perder muito mais do que a memória.
Durante séculos, a Europa foi o centro económico, científico, político e cultural do mundo. No século XX, duas guerras mundiais deslocaram progressivamente o centro do poder para os Estados Unidos.
O futebol acompanhou essa evolução. Foi aqui que nasceu o jogo moderno, onde foram fundados os maiores clubes e ainda hoje se disputam as competições mais prestigiadas. Mas uma coisa é concentrar talento, tradição e riqueza; outra, muito diferente, é conservar a capacidade de definir as regras.
João Havelange percebeu essa diferença antes de todos. Em 1974 compreendeu que, na FIFA, a história e os títulos não votavam. Votavam as federações, todas exatamente com o mesmo peso.
Enquanto a Europa continuava a olhar para a FIFA como uma extensão natural da sua superioridade futebolística, Havelange percebeu que o verdadeiro poder estava nos novos países independentes de África e da Ásia e nas federações da América Latina.
Stanley Rous, presidente inglês da FIFA e símbolo da velha ordem europeia, acreditava que a tradição e a autoridade histórica bastariam para vencer. Não bastaram.
A vitória de Havelange representou muito mais do que uma mudança de presidente. Foi a primeira grande derrota política da Europa dentro da FIFA e marcou o início de uma nova distribuição de poder que perdura até hoje.
A Europa deixou de controlar o centro de decisão. A partir desse momento, manter a influência passou a depender muito mais da capacidade de construir alianças do que da força da sua própria história.
A perda de influência começa quando se perde a estratégia. E a estratégia começa a perder-se na forma como o poder decide.
A tradição política grega valorizava o confronto de argumentos antes da decisão. Muitos dos melhores governantes romanos rodeavam-se de homens livres, independentes o suficiente para discordarem. Sabiam que as decisões mais sólidas nascem do contraditório e não da unanimidade.
O declínio instala-se quando os mais livres e competentes passam a ser incómodos e são substituídos pelos mais obedientes. O debate desaparece, instala-se o pensamento de grupo e as decisões deixam de ser verdadeiramente testadas.
O início do declínio de uma organização não é a falta de talento, é a expulsão do pensamento livre da proximidade do poder.
Hoje, Marrocos é um dos países estrategicamente mais relevantes do mundo.
É parceiro essencial dos Estados Unidos e da União Europeia no Magrebe, plataforma logística entre a Europa, África e o Atlântico e uma potência diplomática crescente no continente africano e no mundo árabe.
Percebeu igualmente que o futebol se transformou num instrumento de projeção internacional. A organização do Mundial faz parte de uma estratégia nacional muito mais ampla de afirmação geopolítica.
Também a FIFA mudou profundamente e o momento decisivo foi o FIFAGate.
Em maio de 2015, dirigentes da FIFA foram detidos, em Zurique, pelas autoridades norte-americanas. O escândalo revelou um sistema de corrupção instalado durante décadas, conduziu à queda de Joseph Blatter, afastou Michel Platini da sucessão e provocou a maior transformação institucional da história da organização.
O mais relevante não foi a corrupção revelada. Foi perceber que a FIFA deixara de ser suficientemente poderosa para viver acima da geopolítica internacional.
Gianni Infantino, eleito presidente da FIFA poucos meses depois, assistiu de perto ao colapso do antigo sistema.
No século XXI, os votos continuam a ser indispensáveis, mas já não são suficientes. Hoje, compreender a FIFA implica compreender a geopolítica.
Se a FIFA escolher Casablanca, não estará apenas a indicar onde se joga uma final, estará a reconhecer que o centro de gravidade da influência global não coincide com o centro histórico do futebol.
Mas esta reflexão não diz respeito apenas à Europa ou à FIFA.
Também o futebol português deveria fazer este exercício de consciência. As suas instituições cultivam verdadeiramente a proximidade de homens livres, capazes de discordar sem receio e de melhorar as decisões? Ou tendem a afastar quem manifesta pensamento independente, premiando sobretudo a lealdade pessoal e a conformidade?
Uma organização que transforma o contraditório numa ameaça começa, muitas vezes sem o perceber, a perder estratégia muito antes de perder resultados.
As derrotas tornam-se visíveis no dia em que chegam os resultados. Mas começam muito antes, no dia em que o poder deixa de ouvir quem pensa de forma diferente.