Afonso Eulálio: «A camisola rosa mudou tudo, mas não a mim…»
Afonso Eulálio, aos 24 anos, vestiu a camisola rosa da Volta à Itália durante nove dias, conquistou a camisola branca de Melhor Jovem e terminou num notável sexto lugar da geral.
- Quando partiu para o Giro, imaginava estar entre os primeiros da geral e ambicionar uma camisola tão importante?
- Não, obviamente que não. Fui para o Giro como gregário, para apoiar o Santiago Buitrago. A ideia era ajudá-lo nas primeiras semanas e depois, mais à frente, tentar aproveitar algumas oportunidades para lutar por uma etapa ou duas. Tudo mudou quando perdemos o nosso líder. A equipa estava totalmente construída à volta dele e tivemos de reformular os planos. Isso abriu oportunidades para todos. Logo no início entrei numa fuga, lutei pela vitória de etapa, fui segundo e ganhei tempo na geral. Depois conversámos internamente e decidimos tentar a classificação geral. Se corresse bem, ótimo; se não corresse, pelo menos ganhava experiência.
- Antes da corrida dizia que o grande objetivo era ganhar uma etapa. No fim, saiu com a camisola branca e um sexto lugar na geral. Acaba por ser melhor?
- Sem dúvida que queria muito ganhar uma etapa. Era um objetivo muito importante para mim. Felizmente a equipa conseguiu vencer com o Alec [Sigaert] e fiquei muito feliz por isso. Mas a forma como o Giro evoluiu foi tão especial que não me posso queixar. Vestir a camisola rosa durante tantos dias, conquistar a camisola branca e terminar no top-10 da geral é algo que nunca imaginei. A vitória de etapa ficou para outra altura. Espero ter muitos anos pela frente para voltar a tentar.
- Tem consciência de que já é o terceiro melhor português de sempre na história da Volta a Itália?
- Sim, tenho ouvido isso. Tal como no ano passado me lembravam que tinha conseguido um dos melhores resultados portugueses de sempre num Campeonato do Mundo. São sinais de que as coisas estão a correr bem e de que o trabalho está a dar frutos. No ano passado fiz top-10 no Mundial, este ano fiz top-10 no Giro. São resultados muito importantes, mas acima de tudo quero continuar a evoluir.
- Muitos esperavam que tivesse uma quebra na última semana. Pelo contrário, parecia cada vez mais forte. Como viveu essa fase?
- Era tudo novo para mim. É muito diferente correr uma grande volta à procura de etapas ou lutar pela classificação geral. Quando estás na geral tens de estar atento a tudo: subidas, descidas, vento, posicionamento, momentos-chave da etapa. É uma exigência constante. Eu estava muito expectante porque não sabia exatamente como iria reagir ao desgaste. Mas a equipa fez um trabalho excelente. Preparávamos tudo ao detalhe e eu procurava apenas fazer o meu melhor. Tal como no ano passado, senti que estava a melhorar à medida que a corrida avançava.
- Passou mais de duas semanas a subir ao pódio todos os dias. Como foi essa experiência?
- Prefiro estar no pódio do que não estar (risos). Mas tem um impacto grande no desgaste. Todos os dias havia cerimónia protocolar, entrevistas, controlos antidoping e compromissos adicionais. Muitas vezes chegava ao hotel mais tarde do que os meus colegas, jantava sozinho ou apenas com o nutricionista e tinha menos tempo para recuperar. Além disso, por estar tão exposto, era frequentemente chamado para controlos antidoping muito cedo. Tudo isso retira energia e aumenta o stress, mas felizmente a equipa apoiou-me sempre.
«Os meus diretores sabem que gosto de correr ao ataque, que assumo riscos e que, por vezes, cometo erros»
- A desistência muito cedo do líder da equipa, Santiago Buitrago, obrigou a uma reformulação completa da estratégia?
- Sim. Não estávamos preparados para isso porque todo o plano tinha sido construído em torno do Santiago. Quando ele abandonou, analisámos imediatamente as primeiras etapas e as oportunidades que podiam surgir. Eu disse à equipa que a quinta etapa era perfeita para mim, sobretudo porque se previa chuva. Estudámos tudo ao detalhe e apostámos muito nessa jornada. As coisas correram quase na perfeição. Só faltou a vitória de etapa. A partir daí, com o tempo que tinha ganho e com a forma que sentia ter, tornou-se natural tentar a geral.
- Como reagiu a equipa aos seus desempenhos? Nunca lhe pediram para ser mais conservador na forma como corre, sempre ofensivo?
- Pedem às vezes (risos). Mas também já me conhecem. Sabem que gosto de correr ao ataque, que assumo riscos e que, por vezes, cometo erros. Faz parte da minha forma de correr. Claro que, com a experiência, vou aprendendo a gerir melhor alguns momentos, mas não quero perder essa identidade.
- Já tinha renovado contrato antes do Giro. Crê que teria hoje argumentos para negociar condições ainda melhores?
- Renovei em dezembro e as coisas ficaram definidas nessa altura. Já tinha recebido algumas propostas depois do Mundial e optei por continuar. Sinto-me muito bem na Bahrain Victorious. A equipa conhece-me, sabe quais são os meus pontos fortes e aquilo que ainda preciso de melhorar. Temos trabalhado muito bem juntos. Naturalmente, depois deste Giro, as conversas para melhorar o contrato existem, mas não é algo que me preocupe muito. A equipa e a minha agência tratam disso.
«Vou fazer a Volta à Suíça e depois clássicas. Para o ano, o Tour...»
- Que grande Volta gostaria de fazer agora?
- Este ano vou focar-me sobretudo nas clássicas. Em princípio farei o Tour no próximo ano, mas sem objetivos de classificação geral. A ideia será ajudar os líderes da equipa e procurar uma oportunidade aqui e ali. Daqui a dois anos talvez volte a pensar numa geral no Giro ou na Vuelta, mas ainda falta muito tempo e os planos mudam rapidamente.
- Que objetivos tem para o resto da temporada?
- Daqui a duas semanas vou correr a Volta à Suíça como gregário do Lenny Martinez e do Antonio Tiberi. Depois estarei nos Campeonatos Nacionais. Participarei na prova de contrarrelógio, que servirá sobretudo como treino, porque é difícil reproduzir essas condições durante a preparação. No campeonato de fundo vou tentar fazer o melhor possível, mesmo sabendo que não chegarei na forma ideal.
- O que aprendeu sobre si próprio neste Giro?
- A camisola rosa mudou tudo, mas não me mudou a mim… Sou a mesma pessoa e o mesmo ciclista. Apenas aprendi a acreditar mais em mim. A equipa já acreditava muito antes deste resultado, mas agora também eu acredito mais nas minhas capacidades. Vamos continuar a trabalhar e depois veremos até onde consigo chegar. O futuro o dirá.
«O João é o João; e não me vejo no pódio tão cedo»
- As comparações com João Almeida tornaram-se inevitáveis. Como as encara?
- O João é o João. Quem me dera ter as pernas dele. Estamos a falar de um dos melhores ciclistas da atualidade e de um dos melhores portugueses de sempre. Não gosto muito dessas comparações. O João já provou durante vários anos que consegue lutar com os melhores do mundo. Espero que continue a dar muitas alegrias ao ciclismo português.
- Acredita que pode lutar por um pódio numa grande volta no futuro?
- Honestamente, não sei. Para já, não. Foi uma das ilações que tirei deste Giro. Ainda não sou capaz de bater os melhores. O meu foco é continuar a trabalhar. Mesmo que um dia não seja capaz de lutar por um pódio, vou continuar a tentar melhorar e a fazer os meus resultados. Também gosto muito das clássicas e esse continuará a ser um objetivo importante na minha carreira. Quanto às grandes voltas, veremos. Provavelmente só voltarei a preparar uma classificação geral dentro de dois anos.