Afinal, o que vale, neste momento, o novo Sporting?
O Sporting terminou a última temporada no 2.º lugar no campeonato, com acesso direto à Champions League, podendo assim dar continuidade ao bom percurso do último ano. Acabou sem troféus, contudo, perdendo a final da Taça para o Torreense, da Segunda Liga.
Os leões acharam que era altura de fechar abruptamente o ciclo anterior, ainda que com o mesmo treinador, Rui Borges, que renovou antes do final da temporada transacta. Quando há uma revolução, é natural que se ganhe uma maior vitalidade. Também que se percam algumas referências. No caso dos verde e brancos, a remodelação atinge praticamente todas essas referências, que costumam ser os alicerces das equipas.
Perda de referências e outras a serem criadas
A estrutura sofreu mudanças em todos os setores: Diomande acrescentava fisicalidade ao eixo e era importante na fase de construção, Hjulmand e Morita formam uma excelente dupla não só na recuperação da bola e no pressing, mas também na criação, tal como Pedro Gonçalves, Trincão e Quenda apareciam não só nesse momento como na finalização com definição acima da média. Os órgãos estavam longe de ter entrado em falência, mas mesmo assim a equipa foi levada para a sala de operações para uma cirurgia talvez inédita, futurística, em que foram substituídos por uns mais novos, de forma a rejuvenescer todo o corpo.
O emblema de Alvalade terá agora de criar novas referências. Se o tem feito bem ou mal até aqui é algo que não se consegue confirmar na pré-época. Os líderes veem-se sobretudo nos momentos mais complicados, quando são obrigados a chegar-se à frente para carregar a equipa. E a sua responsabilidade não se mede pelo talento, que me parece que chegou em quantidade assinalável.
Lado esquerdo com menos opções
Frederico Varandas já afirmou também que haverá provavelmente mais entradas e saídas. No plantel, nota-se alguma fragilidade à esquerda. Na posição de central desse lado só há um esquerdino, Gonçalo Inácio e, ainda que o internacional português seja indiscutível, em caso de ausência as coisas podem complicar-se nomeadamente na saída de bola — nota-se a tranquilidade com bola e sem ela de Eduardo Felicíssimo, mas o risco está lá.
Na lateral, há Maxi Araújo, porém sem concorrência real para já, após tanto tempo de ausência de Nuno Santos. E o ataque, que tem andado entregue a Flávio Gonçalves e a Doumbia, não tem produzido como a direita.
Pressão em cima de Rui Borges
Também é mais ou menos evidente que, por força da revolução feita e pelos resultados da última época, que pesam sobre um técnico que ainda não conquistou todos os adeptos, o arranque tem de ser inequívoco. Afirmativo. Para que os adeptos, ainda que sempre presentes, criem a onda. É que não há dúvida que, mais cedo ou mais tarde, Rui Borges estará sob pressão. Não tem margem de erro. Ao contrário de todos os que entram agora no grupo.
No relvado, os resultados da pré-época — quando as análises necessitam de maior cuidado — dão a entender que a transição, feita com velocidade assinalável no mercado, está a correr bem. Os leões enfrentaram três adversários de perfil diferente, Celtic, Estrasburgo e Mónaco, e dominaram.
Aceleração sem pausa e novas dinâmicas
O ADN da equipa também está bem vincado. O Sporting tenta condicionar a saída do adversário, obrigando-o a errar ou a bater longo, e assenta a sua pressão num bloco médio-alto. Aqui, a ideia é recuperar a bola e assaltar de forma vertical os caminhos que existam até ao golo. Praticamente todas as transições apontam para que haja finalização. O leão não recicla a bola quando vê que o adversário se reposicionou. Agressividade, velocidade e objetividade totais.
Altimira é o pêndulo, cabe-lhe encaminhar a equipa para aquilo que ela precisa a cada momento. Ainda não é capaz de absorver sempre aquilo que esta precisa, sobretudo quando há dificuldades sob pressão, todavia, isso chegará com o tempo. Doumbia ajuda na recuperação e estica de imediato, como Zalazar, Flávio e Geny. Nel tem crescido e ainda que não seja um ponta de lança frio e letal, toma boas decisões e pode ser cada vez mais útil. Obviamente que não chega para Suárez e para o que se espera ainda de Ioannidis, o tal avançado que sabe jogar de costas e ligar ataques.
O médio ofensivo uruguaio acrescenta uma dinâmica que se pode tornar bastante útil quando deriva para a direita. Com Geny e Fresneda/Vagiannidis e a eventual proximidade do avançado, o sobrecarregar do flanco pode facilmente atrair jogadores rivais e explorar depois os espaços vazios.
A este leão ainda parece faltar a pausa. O conseguir empurrar o adversário para trás, através da posse de bola. O criar problemas diferentes através de um cerco à grande área. O ligar ataque a ataque travando o rival mais com a contrapressão. Fica por saber como atacará os blocos baixos da Liga, que não encontrou em qualquer adversário de pré-época. E aí talvez a técnica de Jesse Derry possa fazer parte da solução. Nota-se também desconforto quando não consegue roubar a bola de imediato e o adversário consegue ir somando passes no seu meio-campo.
Com tantas mudanças, é natural que ainda faltem coisas. Mesmo que tudo pareça estar a correr bem. Nada se conquista na pré-época. Pelo menos, nada de realmente importante.