A derrota do Benfica na Suíça abalou também uma estratégia de comunicação — Foto: CLAUDIO THOMA/EPA
A derrota do Benfica na Suíça abalou também uma estratégia de comunicação — Foto: CLAUDIO THOMA/EPA

Conferência de imprensa no relvado

Vieira decidiu voltar à discussão pública. Independentemente das motivações, conseguiu aquilo que qualquer comunicador procura: alterar o centro da conversa. Deixou de se discutir apenas uma derrota europeia. Passou a discutir-se liderança, competência e capacidade para preparar um novo ciclo. 'O Lado Direito do Mister' é o espaço de opinião de Ricardo Lemos, consultor de comunicação

A derrota na Suíça não abalou apenas uma eliminatória europeia. Abalou também uma estratégia de comunicação.

No final da pré-temporada escrevia aqui que o Benfica tinha optado por se fechar no castelo. Uma estratégia de contenção, assente na ideia de reduzir o ruído exterior e deixar que a comunicação mais importante fosse feita dentro do campo. A lógica era simples: enquanto os resultados acompanhassem o discurso, a liderança seria protegida e o novo ciclo ganharia estabilidade.

Dias antes da derrota, Rui Costa quebrara o silêncio para enquadrar o mercado e proteger o novo ciclo liderado por Marco Silva. Procurou recentrar expectativas e dar cobertura política ao projeto. O problema é que, no futebol, poucas mensagens sobrevivem a noventa minutos. O resultado desportivo acabou por sobrepor-se à mensagem institucional.

É precisamente aqui que reside o risco desta opção.

Quando uma estratégia de comunicação assenta quase exclusivamente no rendimento da equipa, cada vitória reforça a liderança. Mas cada derrota destrói, em poucas horas, a perceção de segurança que demorou semanas a construir.

O problema nunca foi apenas o resultado na Suíça.

Foi perceber como uma única derrota conseguiu reabrir todas as dúvidas que o Benfica procurava fechar desde junho.

Nestes momentos, a pressão nunca permanece no relvado. Sobe inevitavelmente na vertical. Começa nos jogadores, passa pelo treinador e fixa-se na estrutura liderada por Rui Costa.

Foi precisamente nesse contexto que Luís Filipe Vieira decidiu voltar à discussão pública.

Independentemente das motivações, conseguiu aquilo que qualquer comunicador procura: alterar o centro da conversa. Deixou de se discutir apenas uma derrota europeia. Passou a discutir-se liderança, competência e capacidade para preparar um novo ciclo.

É essa a verdadeira dimensão das suas declarações.

A segunda mão deixa, por isso, de representar apenas uma oportunidade de qualificação europeia. Representa também um teste à estratégia de comunicação escolhida para esta época.

Porque o silêncio é uma ferramenta poderosa.

Mas apenas enquanto o campo lhe dá razão.

Quando isso deixa de acontecer, cada jogo transforma-se inevitavelmente numa conferência de imprensa.  E, nesse momento, o departamento de comunicação perde protagonismo para os únicos porta-vozes capazes de alterar a narrativa: treinador e jogadores.

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