Conferência de imprensa no relvado
A derrota na Suíça não abalou apenas uma eliminatória europeia. Abalou também uma estratégia de comunicação.
No final da pré-temporada escrevia aqui que o Benfica tinha optado por se fechar no castelo. Uma estratégia de contenção, assente na ideia de reduzir o ruído exterior e deixar que a comunicação mais importante fosse feita dentro do campo. A lógica era simples: enquanto os resultados acompanhassem o discurso, a liderança seria protegida e o novo ciclo ganharia estabilidade.
Dias antes da derrota, Rui Costa quebrara o silêncio para enquadrar o mercado e proteger o novo ciclo liderado por Marco Silva. Procurou recentrar expectativas e dar cobertura política ao projeto. O problema é que, no futebol, poucas mensagens sobrevivem a noventa minutos. O resultado desportivo acabou por sobrepor-se à mensagem institucional.
É precisamente aqui que reside o risco desta opção.
Quando uma estratégia de comunicação assenta quase exclusivamente no rendimento da equipa, cada vitória reforça a liderança. Mas cada derrota destrói, em poucas horas, a perceção de segurança que demorou semanas a construir.
O problema nunca foi apenas o resultado na Suíça.
Foi perceber como uma única derrota conseguiu reabrir todas as dúvidas que o Benfica procurava fechar desde junho.
Nestes momentos, a pressão nunca permanece no relvado. Sobe inevitavelmente na vertical. Começa nos jogadores, passa pelo treinador e fixa-se na estrutura liderada por Rui Costa.
Foi precisamente nesse contexto que Luís Filipe Vieira decidiu voltar à discussão pública.
Independentemente das motivações, conseguiu aquilo que qualquer comunicador procura: alterar o centro da conversa. Deixou de se discutir apenas uma derrota europeia. Passou a discutir-se liderança, competência e capacidade para preparar um novo ciclo.
É essa a verdadeira dimensão das suas declarações.
A segunda mão deixa, por isso, de representar apenas uma oportunidade de qualificação europeia. Representa também um teste à estratégia de comunicação escolhida para esta época.
Porque o silêncio é uma ferramenta poderosa.
Mas apenas enquanto o campo lhe dá razão.
Quando isso deixa de acontecer, cada jogo transforma-se inevitavelmente numa conferência de imprensa. E, nesse momento, o departamento de comunicação perde protagonismo para os únicos porta-vozes capazes de alterar a narrativa: treinador e jogadores.
Próxima pergunta!