Afonso Eulálio conquistou a camisola branca, da juventude, e foi sexto da classificação geral no Giro 2026 (SpringCycling)

Afonso Eulálio, o improvável

Já se aguarda, com ansiedade e também com expectativa, o que se seguirá. A afirmação está feita, mas a responsabilidade, Eulálio sabe-o, aumentou

O Giro de Itália descobriu um talentoso e carismático corredor jovem português e apaixonou-se por ele, pela coragem, superação e ambição. E o sorriso maroto. Não foi apenas a camisola branca, nem o sexto lugar final, nem os nove dias de rosa que impressionaram. Foi a forma como tudo aconteceu. O sorriso quando as pernas ardiam. A leveza quando a pressão apertava. A naturalidade diante das câmaras num desporto em que tantos aprendem a esconder emoções.

Afonso Eulálio apareceu como uma lufada de ar fresco num Giro dominado por Jonas Vingegaard. Sorriu no Passo Giau quando os outros sofriam em silêncio. Atacou quando muitos se limitavam a gerir. E conquistou adeptos muito para lá das fronteiras portuguesas. Dentro destas, muitos ainda não tinham sequer ouvido tal nome.

Talvez porque a história do corredor figueirense seja também a vitória da improbabilidade.

Não estamos a falar de um produto fabricado nas grandes academias do ciclismo europeu. Estamos a falar de um jovem que chegou tarde à estrada, descoberto através de uma pesquisa na internet por um dirigente que acreditou que aqueles resultados no BTT escondiam qualquer coisa mais. Estamos a falar de um corredor que teve de aprender quase tudo já na idade de júnior, quando muitos dos seus rivais acumulavam anos de experiência em pelotão.

E talvez por isso conserve uma autenticidade rara.

O percurso de Eulálio é também uma vitória do ciclismo português. Da passagem súbita do pelotão nacional para o WorldTour, da Volta a Portugal ao Giro de Itália, provou-se que ainda existem atalhos para o talento.

O mais interessante é que este Giro pode nem sequer representar o auge da carreira de Eulálio. Pelo contrário. Parece antes o início de qualquer coisa maior.

Quando José Poeira diz que, no Mundial do Ruanda, percebeu que Eulálio já não era apenas um jovem ao serviço da equipa, mas um corredor capaz de ambicionar mais, está provavelmente a resumir aquilo que todo o ciclismo percebeu nestas três semanas italianas.

Portugal já tinha um grande nome para as classificações gerais, João Almeida, agora pode ter dois. Mas, para já, o mais importante nem é o resultado. É a sensação. A sensação de que apareceu mais um corredor português capaz de ganhar corridas. E ao mesmo tempo conquistar a empatia e a admiração.

Num desporto que tantas vezes se perde em números, watts e algoritmos, Afonso Eulálio lembrou-nos que o ciclismo continua a ser feito de histórias. E a dele está apenas a começar. 

«Foi um sonho viver tudo isto», é a frase que expressa a descoberta da glória no Giro por Afonso e a descoberta de Afonso pela grande Volta italiana. Pelo ciclismo mundial… e pelos portugueses.  

Já se aguarda, com ansiedade, mas também com expectativa, o que se seguirá na carreira do corredor de 24 anos. Ainda esta temporada e nas vindouras. A afirmação está concretizada, mas a responsabilidade, Eulálio certamente sabe-o, aumentou. Os olhos do ciclismo mundial vão estar postos nele nos próximos tempos. A confiança que a equipa lhe confere redobra na mesma grandeza dos objetivos futuros. Afonso Eulálio não é um voltista tão completo como João Almeida, nem um portento de força em corridas de um dia como António Morgado. Apesar deste brilharete, vai continuar a procurar espaço e oportunidades. 

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