Tradições que valem mais do que qualquer troféu
O futebol vive obcecado por uma única pergunta: quem ganhou? Os troféus respondem a essa pergunta. Os gestos respondem a outra, muito mais interessante: quem é, afinal, a pessoa que os conquistou?
É por isso que, muitas vezes, o momento mais bonito de uma conquista não acontece quando a taça é erguida, mas nos minutos que se seguem, quando já não há nada para provar e cada campeão escolhe, instintivamente, para onde vai. Há quem procure os colegas. Há quem procure as câmaras. Pedri, campeão do mundo pela Espanha no passado domingo, procurou o pai. Por instantes, deixou de ser um campeão para voltar a ser o miúdo que passava tardes a rematar penáltis no quintal, com o pai na baliza. Não era uma fotografia para as redes sociais. Era uma viagem ao lugar onde tudo começou. Uma tradição repetida a cada conquista, que representa a recriação de um momento da infância. É impossível não pensar numa ideia simples: talvez o verdadeiro troféu nunca tenha sido a medalha de campeão do mundo…
Praticamente ao mesmo tempo, outra imagem percorreu o mundo. Nico Williams recebeu a medalha de campeão e fez algo inesperado: saiu da festa, caminhou até às bancadas e colocou a medalha ao pescoço da mãe. Foi um gesto simples. Mas carregava quase quatro mil quilómetros de história. Décadas antes, os pais de Nico abandonaram o Gana em busca de uma vida melhor. Atravessaram o Saara, enfrentaram a fome, a sede, traficantes de pessoas, viram companheiros morrer pelo caminho e, já no norte de África, escalaram a vedação de Melilla para entrar em território espanhol. Não procuravam riqueza. Procuravam uma oportunidade e um futuro para os seus filhos.
Trinta anos depois, o filho mais novo devolveu-lhes tudo num único gesto. A medalha não era apenas dele. Era deles e há uma frase de Nico Williams que explica tudo: «Os meus pais são heróis.»
Talvez seja essa uma das maiores diferenças entre os grandes campeões e os restantes: os primeiros nunca confundem sucesso com origem.
Há uma razão para estas imagens correrem o mundo em poucos minutos. Não é apenas porque envolvem atletas de elite. É porque nos lembram que, por detrás da camisola, continua a existir um filho, uma mãe, um pai, uma família. Durante alguns segundos, deixam de ser ídolos inalcançáveis e voltam a ser pessoas de carne e osso, iguais a nós. Talvez seja por isso que estes momentos emocionem até quem nunca viu noventa minutos de um jogo de futebol.
Messi, em 2022, conquistou finalmente o Mundial que lhe faltava. O planeta esperava a fotografia perfeita com a taça. Ele preferiu outra imagem: os filhos a brincar com o troféu como se fosse apenas mais um brinquedo. O maior objetivo da sua carreira só fazia sentido quando era partilhado com quem nunca lhe pediu uma Bola de Ouro para o amar.
Rafael Nadal, no ténis, repetiu durante quase vinte anos exatamente o mesmo ritual em Roland Garros. Antes das entrevistas, antes das cerimónias e antes dos discursos, subia às bancadas para abraçar a família. Toda a gente sabia que ia acontecer. Mesmo assim, ninguém deixava de esperar por aquele momento.
Lewis Hamilton, na Fórmula 1, fez o mesmo durante anos. Mal saía do carro procurava o pai. Não era um gesto preparado para as câmaras. Era um agradecimento silencioso a quem hipotecou tempo, dinheiro e sonhos para que aquele momento fosse possível.
Curiosamente, nenhum destes momentos faz parte do espetáculo. Não são ensaiados. Não aparecem no plano de comunicação de um clube ou de uma federação. São escolhas espontâneas. É precisamente por isso que nos marcam tanto. Porque a autenticidade continua a ser um dos bens mais raros no desporto moderno.
Repare-se no padrão. Nenhum destes gestos melhora uma estatística. Nenhum acrescenta um título ao currículo. Nenhum vale uma Bola de Ouro, um Grand Slam ou um Campeonato do Mundo. Mas todos explicam melhor um campeão do que qualquer número.
Já mencionei em artigos anteriores que vivemos numa época em que o desporto mede tudo. Golos, assistências, quilómetros percorridos, velocidade máxima, títulos, seguidores nas redes sociais etc. Mas continua sem conseguir medir a gratidão.
Não existe uma estatística para o número de sacrifícios de um pai que acordava de madrugada para levar o filho aos treinos. Não há um algoritmo capaz de calcular quantas refeições uma mãe deixou de fazer para comprar umas chuteiras ou pagar uma viagem. Não existe inteligência artificial que transforme abdicações familiares em números. E, no entanto, é sobre esse investimento invisível que quase todas as grandes carreiras são construídas.
Há um momento curioso na vida de qualquer atleta de elite: o sucesso tem o hábito de apagar as origens. Mudam as casas, os carros, as rotinas e até as namoradas. De repente, deixamos de falar de pessoas para falar de marcas universais. É por isso que estes pequenos rituais têm tanto valor. Porque obrigam os campeões a regressar ao ponto de partida. Ao pai que defendia penáltis num campo de terra. À mãe que atravessou um deserto para oferecer um futuro aos filhos. Ao abraço que existia muito antes das medalhas, dos contratos milionários e dos milhões de seguidores.
Estas histórias marcam-nos. Inspiram-nos e devem de servir de exemplo para muitos porque, no fundo, todos nós temos uma «baliza» para onde regressar, um quintal, uma rua, um treinador, uns pais e uns avós. Alguém que acreditou em nós quando ainda não havia medalhas para mostrar. O desporto, quando é verdadeiro, não nos faz apenas admirar campeões. Faz-nos recordar as pessoas que tornaram possíveis as nossas próprias vitórias.
No fim do dia, todos os troféus acabam numa vitrina. As tradições, essas, não. Vivem nas famílias. Sobrevivem às carreiras, aos recordes e até à memória das finais.
Os títulos dizem-nos quem venceu. Os gestos e as atitudes dizem-nos quem nunca esqueceu de onde veio. Porque, no fim, não é a taça que eterniza um campeão. É antes a forma como esse «campeão» escolhe celebrar com aqueles que estiveram ao seu lado muito antes de existir qualquer troféu.
«Liderar no Jogo» é a coluna de opinião em abola.pt de Tiago Guadalupe, autor dos livros «Liderator - a Excelência no Desporto», «Maniche 18», «SER Treinador, a conceção de Joel Rocha no futsal», «To be a Coach», «Organizar para Ganhar» e «Manuel Cajuda – o (des)Treinador».