A Roma de José Mourinho
O desporto de alto rendimento tem contribuído ao longo dos tempos para o enriquecimento da experiência humana. Através de muitos anos de treino intenso e rigoroso, os corpos e a motricidade dos atletas são modelados até atingirem a excelência de corpos expressivos. Tal como as experiências e os saberes dos seus treinadores evoluíram gradualmente no sentido de encararem os atletas que treinam como seres sensíveis e de perceção.
Veja-se o profundo significado relacional e humano contido nas palavras de José Mourinho dirigidas aos jogadores do Roma, após a recente derrota com o Sevilha. «Para mim vocês são os meus rapazes, mesmo depois deste jogo que perdemos. Não perdemos, empatámos. Quero continuar aqui por vocês, por tudo o que dei por vocês. Futebol é futebol. Homens são homens. Vocês são todos homens.» Excelente exemplo de como treinadores e jogadores devem estar sempre a interagir, influenciando e sendo influenciados.
Mas não só! Também o respetivo treino de excelência na área comportamental, nomeadamente no que respeita à comunicação emocionalmente convincente e à importância da existência de modelos e referências cujos comportamentos sejam capazes de se inspirarem e mobilizarem mutuamente. Afinal, treinadores e jogadores de futebol capazes se expressem tal como um pincel na mão de um pintor, um poeta ao escrever um poema, um maestro a dirigir uma orquestra, etc.
Enquanto exemplos de excelência, atletas e treinadores de alto rendimento não são exceções no que respeita à sua perceção e motricidade. Quando percecionam algo, reagem como um todo e, nesse momento, todos os seus sentidos se complementam e integram por inteiro em cada uma das suas reações. Representações visuais, dados táteis e motricidade representam assim três fenómenos recortados na unidade do seu comportamento, em que a sensibilidade e a motricidade se apresentam inseparáveis. Quando se movem, não o fazem através do respetivo corpo objetivo, mas sim do seu corpo vivido e fenomenal, formando um sistema entre o sujeito e o meio envolvente em que se movimentam.
José Mourinho, 60 anos, acaba de cumprir a segunda época na Roma
TORNA-SE assim bem evidente que, as respetivas sensibilidade e motricidade de atletas e trein adores são inseparáveis, existindo uma ligação estreita entre a perceção, a motricidade e a linguagem que utilizam. Por via das suas experiências vividas, adquirem um saber comportamental que se enriquece com novas experiências no presente que oferecem sentido e significado às experiências do passado.
A sua perceção decorre de forma espontânea, interpretando imediatamente os objetos e as situações acontecidas, que se tornam legíveis através das suas propriedades estimuladoras, num verdadeiro diálogo entre cada um deles e o que os rodeia, em que interpretam o sentido e o significado dos objetos e situações que vão experimentando.
Os seus movimentos não são um pensamento do movimento e o espaço corporal não é um espaço representado. O respetivo corpo não está no espaço, nem no tempo, habita-os e aprendem os movimentos necessários a partir do momento que o seu corpo os incorpora. Os gestos e movimentos respetivos pressupõem saber, em cada momento, onde está o seu corpo, sem terem necessidade de o procurar, sendo o esquema corporal que, em cada momento, lhes fornece a posição relativa do corpo, sempre aberto ao mundo e em profunda relação com ele.
Os seus corpos agarram e compreendem o movimento e enquanto espaço expressivo dão-lhe um significado motor. Integram (incorporam) tudo o que está ao alcance dos seus olhos e das suas mãos, sendo através deles que aprendem a conhecer a essência da sua existência. E a espacialidade do seu corpo é a forma como se realizam enquanto corpo.
O próprio corpo interpreta-se a si próprio e todos os seus comportamentos criam significados. Todos eles são o seu corpo e possuem um capital de experiência desse corpo vivido que se opõe à simples reflexão ou pensamento acerca do que fazem.
Integram afinal no seu corpo o espaço dos objetos que utilizam, agem como um todo e todo o hábito é ao mesmo tempo, motor e percetivo. Bem como todo o hábito percetivo é ainda um hábito motor.
Através de uma relação estreita entre corporeidade, gestualidade e linguagem, agem no meio que os rodeia e a ele têm acesso através da sua motricidade, habitando o tempo e o espaço no seu corpo que, por sua vez está sempre a reiniciar-se. A experiência espacial e temporal do seu corpo deve ser assim entendida como a integração do seu corpo no espaço e no tempo dos objetos com que se relacionam.
Adquirem por fim hábitos também através do seu corpo que os compreende e incorpora, hábitos que não residem no corpo objetivo, mas sim no seu corpo vivido e fenoménico. Percebem o que os rodeia com o seu corpo vivido através da experiência que vão tendo e, ao experimentarem através da perceção, reencontram-se consigo próprios. Perceção essa que constitui o modo como estão em contato com a realidade desportiva de alto rendimento em que estão envolvidos.
ENQUANTO atletas ou treinadores de alto rendimento, comportam-se consoante os hábitos previamente adquiridos e sempre que mudam alguns desses hábitos, baixam o respetivo rendimento e eficácia até aí alcançada. E como se relacionam através da expressão inconsciente das suas emoções e agem, muitas vezes, de forma automática, é fundamental que adquiram hábitos conformes com os valores defendidos na comunidade de que fazem parte.
Atletas ou treinadores, são seres de comportamento incorporado e verdadeiras potências fenomenológicas com um corpo que percebe, relacionam-se e reconhecem-se mutuamente na transcendência das suas relações. Os seus comportamentos ao serem motivados por um significado interior e subjetivo que nasce da própria visão interior que têm acerca de tudo o que os envolve obedecem sempre a um propósito vital e humano.
O que significa que devemos futuramente exigir ao treino e à preparação de atletas e treinadores de alto rendimento a responsabilidade de os preparar para serem inspiradores e mobilizadores, tal como a serem criativos e inovadores de forma continuada, capazes de assumirem em todos os momentos e circunstâncias a responsabilidade social respetiva.
Principalmente, que, como seres humanos, para além de atletas e treinadores, se assumam responsavelmente perante cinco questões fundamentais.
1. Não confundam tudo o que a ciência nos permite conhecer e aprofundar, com a verdade contida no ato de conhecer através da experiência subjetiva. Urge que a ciência assuma de uma vez por todas que o comportamento humano e todo o ato de conhecimento têm sempre uma base primitivamente subjetiva.
2. Existe um primado da ficção no modo como em certos momentos das nossas vidas percecionamos a realidade em que nos inserimos; por vezes, satisfazemos pura e simplesmente aquilo que em determinadas circunstâncias gostaríamos que estivesse a acontecer.
3. Só através da experiência vivida conseguimos verdadeiramente assumirmo-nos com um todo.
4. Para fazermos bem as coisas certas precisamos de estar apaixonados pelo que fazemos. Como ponto de partida, a noção bem concreta que somos todos muito maus quando começamos algo. Uma vez iniciado esse árduo caminho, estamos perante a exigência de mobilizarmos a respetiva motivação e consequente paixão; entusiasmando-nos com o objetivo de, para sermos excelentes, termos acima de tudo de trabalhar arduamente e sacrificarmo-nos pelo coletivo.
5. Aprender a ser criativo e inovador é, afinal, um processo ativo, onde o contexto em que nos inserimos e a observação de pessoas criativas, nos ajudará imenso a sermos cada vez mais inovadores! Não basta simplesmente saber, é preciso saber fazer, consoante as circunstâncias e com a capacidade imaginativa necessária para ser capaz de gerir o inesperado. Tudo isto, em treinos exigentes e rigorosos, mas igualmente atrativos, divertidos, lúdicos. O processo ensino/aprendizagem inerente ao treino desportivo de alto rendimento e á preparação respetiva de atletas e treinadores, requer uma relação constante (e muito estreita!) entre emoções e cognições, sentimentos e pensamentos.
AFINAL, um enquadramento pedagógico onde proliferem emoções positivas que os ajudem a encontrar uma orientação vital capaz de fazer a diferença para melhor num mundo social cada vez mais complexo. Enquadramento esse capaz de superar inclusive eventuais tropeços emocionais como aquele que Mourinho teve após o jogo com o Sevilha relativamente à arbitragem.
Todos sabemos que reagiu assim por amor à causa. Diria melhor, que reagiu assim porque quem joga são os jogadores e não os treinadores. E naqueles momentos vale por vezes a pena dar o exemplo do sacrifício pessoal do treinador. Será castigado, naturalmente. Mas os jogadores viram o seu exemplo.
Claro que não foi um bom exemplo! Mas mostrou-nos o ser humano que é José Mourinho, em simultâneo, um dos melhores treinadores de futebol a nível mundial.
«Tudo o que dei foi por vocês», disse José Mourinho quando se dirigiu aos jogadores. E ali estava a prova evidente que gosta sempre de fazer o que diz. Naquele caso, sacrificando o seu prestígio e a sua imagem profissional ao serviço da defesa do orgulho coletivo dos seus jogadores.