A «obsessão» de Guardiola com os abraços, o divórcio da «mulher mais bonita do planeta» e o «vazio» que levou a pensar na saída do City
Um novo documentário intitulado «A Beautiful Obsession» (Uma Bela Obsessão), revela os bastidores dos últimos dois anos de Pep Guardiola no comando do Manchester City, clube que orientou entre 2016 e 2026. A imprensa inglesa avançou com alguns episódios retratados.
Apesar de ter renovado contrato em novembro de 2024, Guardiola já sentia que a equipa precisava de uma mudança. O treinador espanhol chegou a propor a saída à direção, mas acabou por decidir ficar para supervisionar uma renovação do plantel durante mais 18 meses, evitando deixar o clube numa fase de maus resultados. «Naquele momento, a verdade é que não estava seguro de que te conseguiria convencer», admite o presidente Khaldoon Al Mubarak no documentário da Prime Video, que estreia esta quarta-feira.
Os abraços - «Olhem como celebraram!»
Um dos episódios mais curiosos ocorreu em setembro de 2025. Após derrotas consecutivas com o Tottenham e o Brighton, e na antecâmara do dérbi de Manchester, Guardiola ficou obcecado com a ideia de os seus jogadores se abraçarem para reforçar a união do grupo. O treinador chegou a repreender a equipa por não celebrar um golo de Haaland com o devido entusiasmo.
«Olhem como o fazem nos treinos. Fizeram isso em Brighton? Olhem como celebram. Estamos neste raio de negócio para isso. Sentem a pressão? Fogo, é disso que se trata. É bom senti-la; se não, estávamos todos nas Maldivas», gritou Guardiola.
Antes do jogo contra o Manchester United, o técnico exigiu que todos «se abraçassem durante cinco segundos, bem forte». O City venceu por 3-0 e, no final, Pep atribuiu o sucesso ao gesto: «A vitória de hoje nasce dos abraços de antes... Os abraços não foram fortes. Eu tentei, mas vocês não me devolveram o abraço com a mesma intensidade. Quero-os mais fortes e que durem mais tempo. Quero que sintam o meu compromisso convosco».
Bomba no balneário: o divórcio
O momento de maior tensão surgiu em novembro de 2025, após uma derrota por 0-2 contra o Bayer Leverkusen na UEFA Champions League. Num discurso brutal, Guardiola confessou o divórcio de Cristina Serra e expressou profundo descontentamento com a atitude da equipa.
«Eu vivo a minha vida, o meu divórcio... e a minha família está longe por vossa causa. E o que recebo em troca? A p* da exibição que fizeram, todos vós», desabafou.
O treinador catalão continuou, num tom de enorme frustração: «É inaceitável esta falta de coragem, de paixão, de amor e de vontade de ganhar. Sinto-me um estúpido. Passei horas e horas a tentar encontrar uma maneira de chegar ao vosso coração. E quando não consigo, é frustrante a nível pessoal. Não me devolvem nada, rapazes. Sabem o que vai acontecer? Terão outro treinador».
Nessa mesma palestra, Guardiola revelou a separação, usando a sua situação pessoal para exigir mais paixão aos jogadores: «Rapazes, quero confessar-vos algo... Estou divorciado da mulher mais bonita do planeta. É a minha mulher... a minha ex-mulher. Amo-a incrivelmente. Mas perdemos a paixão. E é assim que se joga futebol: joga-se por algo que se tem cá dentro, mas onde está a paixão?».
O discurso terminou com uma ameaça e um sentimento de exaustão: «Quando vejo isto, sinto-me esgotado. Vazio. Quero ir-me embora. Sinto-me sozinho. Quando jogam assim, sinto-me sozinho. Amanhã não me verão. Passem dois dias fantásticos. Eu vou à comunicação social defender-vos».
Discussão com Kyle Walker
A saída de Kyle Walker para o AC Milan, por empréstimo em janeiro de 2025, foi um dos momentos mais tensos. O defesa comunicou a Guardiola que pretendia um novo desafio, pondo fim a uma parceria de enorme sucesso que rendeu seis títulos da Premier League. A série revela a profunda desilusão do treinador com a decisão do seu capitão.
Numa palestra ao plantel antes de um jogo com o Chelsea, Guardiola expressou mágoa. «Tão triste o que aconteceu com o Kyle. Era tão fácil ele vir ter comigo e dizer: 'Estou cansado'. Mas não te podes comportar como capitão da maneira que ele o fez. Não podes, nos momentos mais difíceis das nossas vidas», afirmou, questionando depois a equipa: «O que fizeram vocês, meus amigos? O que fizeram com o vosso capitão? Digam-me, o que fizeram?»
Embora o documentário não especifique o comportamento a que Guardiola se referia, mostra uma acesa discussão entre os dois após uma derrota contra o Liverpool em dezembro de 2024. No balneário, Guardiola apontou um erro de Walker que levou a uma grande penalidade, após uma perda de bola para Luis Diaz. «O Kyle tem de saber que se perder a bola, é golo», disse o técnico. Um Walker irritado respondeu: «Em todas as reuniões, é o meu nome». Guardiola retorquiu: «Talvez porque és capitão». A resposta do jogador foi cortante: «Ok. Tu não querias que eu fosse o teu capitão».
Nothing is eternal.
— Manchester City (@ManCity) August 13, 2026
A Beautiful Obsession - a four-part docuseries on Pep Guardiola's captivating final chapters at Man City - exclusively on Prime Video in the UK and Ireland from August 19. 📺 pic.twitter.com/EXedwQFUMs
Em maio de 2026, dois dias antes do último jogo pelo Manchester City, Pep Guardiola anunciou a saída aos jogadores num discurso carregado de emoção, revelando que a falta de energia foi o motivo da sua decisão. Um documentário expõe também a fúria dos dirigentes do clube após uma derrota com o Leverkusen.
«Rapazes, serei breve. Domingo será o meu último jogo como treinador deste clube», começou por dizer Guardiola. O técnico espanhol explicou a razão da partida: «Para ir a Selhurst Park, a Anfield, jogar contra equipas da League One na Taça de Inglaterra — ou defrontar o Madrid, Madrid, Madrid — e para lidar com os jogadores maravilhosos que temos, é preciso algo que eu tinha: energia. Mas, no fundo, sei que já não a tenho».
Para ir a Selhurst Park, a Anfield, jogar contra equipas da League One na Taça de Inglaterra — ou defrontar o Madrid, Madrid, Madrid — e para lidar com os jogadores maravilhosos que temos, é preciso algo que eu tinha: energia. Mas, no fundo, sei que já não a tenho
No discurso final, Guardiola expressou um profundo agradecimento ao plantel. «Parto com um sentimento de imensa gratidão e felicidade por todos vós. Dentro de minutos, os adeptos saberão da minha partida e, antes que isso aconteça, merecem ser os primeiros a ouvir algo que acredito valer mais do que as minhas palavras. Preciso dos vossos abraços e beijos. Não se esqueçam», concluiu, num momento emotivo que incluiu ainda uma montagem de imagens da sua década no clube, acompanhada por uma mensagem pré-gravada com uma citação do poeta Tony Walsh.
O documentário revela ainda a tensão na direção do City após uma derrota contra o Leverkusen, com trocas de mensagens de voz entre o presidente Al Mubarak e o diretor executivo Ferran Soriano, que responsabilizaram Guardiola pelo desaire.
«Apresentar uma equipa totalmente nova num jogo tão importante é provavelmente um dos nossos piores momentos. Sinceramente, não consigo falar com ele. Não falei com o Pep ontem nem lhe enviei qualquer mensagem. Estou muito zangado. Ele fez uma mistura totalmente desnecessária», afirmou Al Mubarak a Soriano. Por sua vez, Soriano aconselhou uma abordagem ponderada. «Acho que a nossa atitude para com o Pep não deve ser demasiado negativa. Isso não funciona com ele. Mas também não deve ser demasiado amável ou condescendente. Desta vez, o erro é dele», referiu o diretor executivo.