Pepa, 45 anos, treinador do estrela da Amadora, atual 8.º classificado da Liga. Foto Miguel Nunes
Pepa, 45 anos, treinador do estrela da Amadora, atual 8.º classificado da Liga. Foto Miguel Nunes
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«Sei exatamente ao que vim quando aceitei o desafio do Estrela da Amadora»

Recentemente adquirido por acionistas alemães, clube da Reboleira quer transformar-se, essencialmente, num ponto de valorização de jogadores

— É inevitável começar por este sucesso inicial do Estrela da Amadora. Quando pegou nesta equipa achava que era possível começar assim?

— Por natureza penso sempre positivo. Depois é passar essa positividade para a equipa técnica, para os jogadores, para tudo e para todos. Essa é a minha natureza. Agora, acima de tudo, também sou muito realista. Gosto de ter noção de tudo, das dificuldades que encontrámos e das muitas que vamos ter pela frente. Uma temporada não se pode resumir a seis ou sete jornadas, bem pelo contrário. Até porque é um grupo muito, muito jovem e temos que ter os pés no chão, saber as dificuldades que temos pela frente, é um campeonato muito competitivo, muito difícil. Agora: é preferível ir crescendo com pontos do que sem pontos. Sei isso e todos querem isso. Mas, acima de tudo, é olhar muito para o presente e para o futuro a curto, médio prazo. É ter a humildade de não olhar para trás, para o que já foi feito.

— Bater recordes de nomes como Fernando Santos, Jorge Jesus, Manuel Fernandes, José Mourinho, etc., não o motiva?

— Não, não é questão de não motivar. Mas são coisas que me ultrapassam. Quando me chegaram eu não sabia, porque sinceramente não perco tempo com isso. Quando me informam das coisas, OK, pronto, é bom. Mas não passa disso, sinceramente.

— A nova SAD do Estrela da Amadora permite outro campo de recrutamento de jogadores, como aliás ainda foi a tempo de se ver para o início desta temporada. Isso, de alguma forma, também pode transformar o Estrela numa placa giratória ‘inimiga’ do treinador, porque os jogadores podem chegar e de repente estar noutro lado?

— O mais importante é estar por dentro e bem identificado com o projeto e com as ideias. Se não, vamos andar a desgastar-nos, a discutir, a perder tempo, a perder energia e depois até fica aquele sentimento de que alguém pode ter enganado alguém, e não é o caso. É saber exactamente para onde vim. Saber exactamente aquilo que está em cima da mesa e passa muito por isso: valorização dos jogadores, valorização do Estrela enquanto equipa, da forma como se dispõe, como joga, como compete do modo que foi combinado, pedido e assumido. Que seja uma equipa corajosa, uma equipa destemida, uma equipa audaz, que corra riscos. Que tenha alegria dentro de campo. Com responsabilidade, como é óbvio. Mas acima de tudo, essas valências de alegria, energia, valorização do futebol, do espetáculo, porque isso vai ajudar a valorizar também os ativos. Depois é preciso ter o equilíbrio, no dia a dia, de passar a mensagem de que não podemos estar a pensar noutros clubes, ou em trampolins ou em saltos para o outro lado. Temos de estar focados só no Estrela.

— Quando chegou ao Estrela já sabia das movimentações para a venda da SAD. É com esse pressuposto que é contratado?

— Sim. Apresentaram-me o projeto, as ideias, o que se pretendia, a internacionalização, globalização do clube. Isso deixou-me muito entusiasmado e muito motivado, sabendo que num ano zero íamos viver dificuldades e no dia a dia estamos a senti-las muito, na pele. Só que são coisas muito desafiantes, que nos levam a superação. E também a desgaste, mas temos de ter essa energia de, com um sorriso na cara, levarmos as coisas com muita tranquilidade, competência e acima de tudo de forma agregadora, porque senão também entramos numa negatividade que não é minha, não é o que nós queremos, nem é aquilo que nós acreditamos. Porquê? Porque foi tudo colocado em cima da mesa. Tudo claro, clarinho. Ninguém foi enganado, ninguém mentiu.

— O que pretende para a equipa esta época?

— Sendo claro, direto e muito objetivo, a manutenção. Esse é o principal objectivo, ponto. Agora, claro que dentro desse objetivo da manutenção temos muitas coisas que queremos atingir e proporcionar dentro do futebol português já este ano. Valorização dos jogadores, valorização da forma como o Estrela joga e depois sim, com naturalidade, com o tal crescimento nas infraestruturas e até mesmo em termos de recursos humanos, pensar em algo mais. Temos pessoal de trabalho do dia a dia fantástico, mas há sempre espaço para continuarmos a acrescentar valor humano. E depois todos os detalhes e pormenores contam: campos, treinos, infraestruturas, condições de trabalho. Ou seja, são coisas que se construam de um dia para o outro.

— Tem uma equipa jovem, aliás com oito internacionais de vários países. O trabalho com os mais novos tem sido marca na sua carreira…

— Tem acontecido com naturalidade. Há várias razões que se calhar justificam isso. O facto de ter-me estreado muito jovem, ainda era júnior quando tive a minha estreia profissional, se calhar ajuda-me a compreender a dificuldade, a ansiedade. Às vezes é preciso um empurrão, outras vezes é preciso dar tempo. Os jogadores não são todos iguais. Ter 30 anos não é o mesmo que ter 18. Uns são pais, outros ainda vivem com os pais. No cumprimento de regras e nas oportunidades para jogar, porém, nunca olho a idades.

— Quando treinou pela primeira vez já sabia que queria mesmo ser treinador de futebol?

— Quando me estreei como treinador? Até muito antes disso. A história mais engraçada que eu tenho foi com o Luís Campos. Estávamos no Varzim e questionava algumas coisas. Não de forma arrogante ou para criar algum conflito ou pedir justificações. Questionava porque tinha interesse em algumas coisas. E ele na brincadeira disse ‘Oh pá, tu vais ser um dos poucos treinadores pretos da Primeira Liga’. Isto na brincadeira, claro. Pus-me a pensar e realmente treinadores de cor não havia muitos na altura. Mário Wilson, Oceano…

— Sentiu o estigma da cor da pele ao longo da carreira?

— Não, não! Se formos por esse tipo de conversa… hoje em dia é tudo bullying, é racismo, isto e aquilo. Está tudo muito mal. Mas eu cresci noutros tempos. Nem vale a pena lembrar, não é? ‘Vai para tua terra’, ‘preto da Guiné lava a cara com chulé’. Isso era o dia a dia, mas o que é que vou dizer?

— Mas isso foi sendo ultrapassado…

— E bem, e bem. Eu na altura reagia, mas infelizmente era tão natural acontecer que fiquei com uma espécie de vacina. Não valorizava isso.

— A aceitação do desafio na Arábia, com relativamente pouco tempo de Liga, foi motivada por dinheiro? Não temeu, nessa altura, fechar as portas do regresso ao futebol português?

— Teve a ver um pouco, sinceramente. Contudo, teve acima de tudo a ver com o querer descobrir. Sou muito de desafios, de ir atrás do conhecimento, atrás do que está ali. O que é que se passa ali? Está escuro? Bora lá ver o que é que se passa. Sempre tive o desejo de treinar fora de Portugal. E foi tudo muito rápido. A questão financeira fez a diferença? Fez, como é óbvio, mas sinceramente foi tudo muito rápido. E, olhando para trás, não fechou portas. Estive no Brasil, no Qatar, de novo no Brasil, sempre com convites de vários países, incluindo Portugal. Levou-me por caminhos diferentes para atingir o que quero. Mas há muitas formas de atingir aquilo que se ambiciona. E sempre sem atropelar ninguém, sem pressa. O caminho foi por ali, podia ter ido por outro lado, mas foi assim.

— E onde quer chegar?

— Quero continuar a subir, continuar a andar. Quero ouvir o hino da Liga dos Campeões, lutar por títulos. Mas sempre sem atropelar ninguém e sem ser uma obsessão. Não é uma obsessão. Quero atingir o que tiver de atingir num caminho a ser percorrido com muita naturalidade. No início treinava por 100 euros, nem para o gasóleo dava. Tanta hora perdida não é pelo dinheiro. É para um sonho e para um objetivo, sem atropelar ninguém. Mas também estipulei um timing. Isto implica muitos sacrifícios, há muitos treinadores, e alguns deles vão ouvir e ler esta entrevista, que passam muitos sacrifícios e apesar de serem muito competentes não chegam ao futebol profissional. Eu tinha ali dez anos, mais ou menos, para chegar ao futebol profissional. Felizmente consegui bem antes. Em quatro anos cheguei à Primeira Liga, mas se continuasse sem chegar teria de decidir algo. Os treinadores em Portugal não são apoiados da forma, como, na minha opinião, deveriam ser. Acho que o treinador tem de ser mais valorizado e mais ajudado. Não estou a falar do futebol profissional, aí é fácil. Tenho muito maior facilidade em trabalhar agora no futebol profissional do que quando estava no futebol de formação ou no futebol amador. Aí é que se passa grandes dificuldades e é aí que temos que temos que melhorar. Temos tanta gente tão competente, tão boa no futebol.

— Deixe-me voltar um bocadinho atrás: quando chegou ao Estrela, Paulo Lopo era presidente da SAD. Os nomes dele e do clube têm sido colocados em causa. Como é que o balneário, por exemplo, reagiu?

— Não reagiu nem tem de reagir. O nosso foco é trabalhar e melhorar aquilo que temos que melhorar e potenciar o que temos. Fazemos bem e queremos fazer mais e melhor. Não podemos nem perdemos um segundo com ruído.

— Teve uma boa relação com Paulo Lopo?

— Fantástica. Desde o primeiro dia e da primeira conversa já estava presente o Johannes [Mosmang, que entretanto se tornou o líder], mas enquanto o anterior presidente o era, era-o de facto. A relação sempre foi muito, muito cordial e de proximidade, de trabalho. Competência total.

— O que acha que trouxe os novos acionistas à Reboleira?

— Portugal é um país que importa e exporta. Parece que trabalha a pedra e ela sai daqui mais preciosa, porque é um campeonato muito difícil. Os grandes mercados pensam que se estás bem em Portugal, estás preparado para tudo. Tens o tirocínio feito. Passas pelo departamento de qualidade.

— Quando chega a um clube, o Pedro adapta-se ao que lhe é disponibilizado ou exige, entre aspas, um plantel e uma estrutura à sua medida?

— Sou muito exigente e muito chato, no bom sentido da palavra, mas sempre no intuito de ajudar o clube e adaptando-me à sua realidade. Não deixo de ser exigente, crítico, de expor os problemas. Tenho um lema, que é querer sair de um clube e deixá-lo melhor do que o encontrei. É o meu propósito. A relação com o clube tem ser uma espécie de casamento. Há que haver uma simbiose de ideias, sentir a dor um do outro, porque queremos o melhor para o clube, o melhor para mim ou o melhor para o grupo, para os investidores, para todos. É exigir e mostrar os problemas, não escondê-los debaixo do tapete.

— Foi melhor jogador ou é melhor treinador?

— Mal seria.. Joguei tão pouco tempo! Melhor treinador. Se calhar prometi mais como jogador do que como treinador e estou a ter mais rendimento como treinador. Eu prometia como jogador mas depois a carreira não me levou a dar sequência ao que prometi. Como treinador, se calhar não prometi nada porque ninguém estava à espera de nada e de repente, em pouco tempo, consegui chegar às ligas profissionais.

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