No Sporting não se vendem jogadores. Constrói-se o futuro
O futebol vive da emoção. E a emoção faz-nos, muitas vezes, confundir gratidão com medo da mudança.
Se, nas próximas semanas, se confirmarem as saídas de Francisco Trincão, Pedro Gonçalves ou Daniel Bragança, juntando-se às partidas já consumadas de Morten Hjulmand, Hidemasa Morita, Geovany Quenda, os sportinguistas sentirão inevitavelmente um vazio. Seria estranho que assim não fosse. Todos eles ajudaram a construir um dos períodos mais felizes da história recente do Sporting Clube de Portugal. Deram-nos títulos, noites inesquecíveis, liderança, compromisso e um orgulho enorme em vestir a Verde e Branca.
Por isso, antes de qualquer análise financeira ou desportiva, há uma palavra que se impõe: obrigado. Obrigado por tudo o que fizeram pelo clube.
Mas é precisamente porque lhes estamos gratos que devemos olhar para estas saídas sem dramatismos. Os grandes clubes não vivem de jogadores. Vivem de projetos.
E é aqui que reside uma das maiores transformações do Sporting dos últimos anos.
Hoje existe uma administração que não toma decisões para ganhar a próxima manchete nem para alimentar a ansiedade permanente das redes sociais. Governa com uma preocupação muito mais importante: garantir que o Sporting Clube de Portugal continua competitivo daqui a cinco, dez ou quinze anos.
Sustentabilidade nunca foi uma palavra bonita para colocar nos relatórios e contas. É uma cultura de gestão. É perceber que o mundo não acaba amanhã, que os ciclos dos jogadores têm um princípio, um auge e um fim e que saber vender é tão importante como saber contratar.
Como sócio do Sporting, essa é talvez a maior tranquilidade que hoje sinto. Saber que o clube está entregue a dirigentes que pensam antes de reagir, que planeiam antes de decidir e que não sacrificam o futuro para agradar ao presente.
Os exemplos são evidentes.
Se Francisco Trincão vier a ser vendido por cerca de 45 milhões de euros, estaremos perante mais um excelente negócio. Um jogador de 27 anos, que chegou a Alvalade, recuperou a melhor versão da sua carreira, conquistou títulos, valorizou-se desportiva e financeiramente e poderá sair por praticamente o dobro do investimento realizado pelo Sporting.
O caso de Viktor Gyokeres é ainda mais expressivo. Um futebolista contratado por cerca de 20 milhões de euros que proporciona agora um encaixe que já é superior a 70 milhões, representa uma operação extraordinária. Não apenas pelos números, mas porque demonstra que o Sporting consegue identificar talento antes dos outros, potenciá-lo e criar riqueza sem perder competitividade.
É assim que os clubes sustentáveis crescem.
Naturalmente, uma revolução profunda num plantel nunca deixa de representar um risco. Quem disser o contrário estará a iludir os adeptos. Lideranças perdem-se, rotinas desaparecem, automatismos precisam de ser reconstruídos.
Mas existe uma enorme diferença entre correr um risco e dar um salto no escuro.
O Sporting não parte para esta renovação às cegas. Parte apoiado num departamento de scouting que tem acumulado sucessos, numa Academia que continua a formar alguns dos melhores talentos do futebol europeu e numa estrutura que, ano após ano, tem demonstrado uma capacidade notável para reconstruir equipas vencedoras.
Sir Alex Ferguson resumiu esta ideia numa frase que atravessou gerações: «O segredo do sucesso é reconstruir a equipa antes que ela entre em declínio.» Não esperar pelo fim do ciclo, e antecipá-lo.
Também Arrigo Sacchi deixou uma reflexão que continua profundamente atual: «Uma equipa vencedora não é a soma dos melhores jogadores, mas a organização das suas qualidades.»
É precisamente essa organização que hoje distingue o Sporting.
Vivemos num tempo em que muitos confundem gestão com emoção e estratégia com popularidade. Felizmente, o Sporting escolheu outro caminho. O do rigor, da competência e da visão de longo prazo.
Os nomes mudam. Mudaram sempre. Também partiram Peyroteo, Yazalde, Balakov, Figo, Cristiano Ronaldo, Nani, Bruno Fernandes ou Manuel Ugarte. E o Sporting Clube de Portugal continuou.
Porque aquilo que verdadeiramente faz um clube grande não é a permanência dos seus jogadores, é a capacidade de encontrar os craques seguintes.
Por isso, olho para esta revolução sem nostalgia excessiva e sem receios desmedidos. Com gratidão a quem parte. Com entusiasmo por quem chega. E, sobretudo, com confiança absoluta num projeto que devolveu ao Sporting aquilo que durante demasiado tempo lhe faltou: a capacidade de ganhar hoje sem hipotecar o amanhã.
É essa a maior contratação que o Sporting fez nos últimos anos. E essa, felizmente, continua em Alvalade.