Grandes penalidades falhadas: o que a ciência nos ensina sobre a pressão
Os desempates por grandes penalidades são dos momentos mais emocionantes e intensos de um Mundial. A investigação científica mostra que estes momentos podem ensinar-nos muito sobre a forma como lidamos com a pressão e como podemos gerir melhor situações de elevado stress.
Marcar uma grande penalidade num desempate após prolongamento, ou noutro momento crucial do jogo, exige que o jogador execute um gesto técnico simples sob uma enorme pressão. A baliza começa a ficar cada vez mais pequena e o resultado depende apenas de marcar ou falhar, sendo que cada remate pode decidir o vencedor do jogo. É tão simples quanto isto, mas por outro lado também tem muita complexidade à volta do que parece ser básico. Além disso, a importância do momento e a existência de inúmeras gravações em vídeo fazem dos penáltis um excelente contexto para estudar o comportamento humano em situações de elevada tensão.
Os conhecimentos obtidos através da análise destes momentos podem ser aplicados a outras circunstâncias do quotidiano, como realizar um exame importante, participar numa entrevista de emprego ou enfrentar qualquer desafio que implique grande responsabilidade.
A investigação sobre as grandes penalidades começou no início dos anos 2000, por Geir Jordet. Nos torneios a eliminar, como acontece nas fases finais do Campeonato do Mundo, as grandes penalidades são utilizadas para decidir o vencedor quando o empate se mantém após o prolongamento. Para o estudo que efetuou foram analisados registos disponíveis na Internet, vídeos de jogos e entrevistas realizadas a jogadores e treinadores. Os resultados desta investigação foram utilizados para ajudar equipas de futebol a prepararem-se para possíveis desempates por penáltis, tanto no Campeonato do Mundo como na UEFA Champions League. Estes conhecimentos foram igualmente aplicados a outras modalidades desportivas, como o golfe, onde serviram de apoio à equipa europeia na Ryder Cup de 2025, através de estratégias para treinar e lidar com a pressão da competição.
Uma das principais conclusões é que os atletas de alto rendimento reagem à pressão de forma muito semelhante às restantes pessoas. A importância do momento pode afetar qualquer um, independentemente da sua experiência. Por exemplo, jogadores profissionais de basquetebol falham mais lançamentos livres nos instantes finais de jogos equilibrados, golfistas erram mais putts quando está em jogo um prémio elevado e tenistas cometem mais erros não forçados nas fases decisivas dos encontros. Nos desempates por grandes penalidades verifica-se o mesmo fenómeno. Quando a pressão aumenta significativamente, o rendimento tende a diminuir. Os jogadores que sabem que um falhanço significa a eliminação imediata da sua equipa ou seleção têm uma probabilidade maior de falhar, comparativamente àqueles cujo erro não tem consequências diretas naquele momento.
Durante muitos anos, a preparação para estes momentos foi insuficiente. Muitos treinadores reconheciam que dedicavam pouco tempo ao treino específico das grandes penalidades e que nem sequer definiam antecipadamente a ordem dos marcadores. Esta falta de preparação aumentava a ansiedade dos jogadores, levando alguns a executar o remate imediatamente após o apito do árbitro, numa tentativa de terminar rapidamente aquela situação de enorme pressão. Já se viu essa situação neste Mundial, quando a Alemanha foi eliminada pelo Paraguai no primeiro desempate por grandes penalidades da competição. Na decisão através da marca dos 11 metros, os alemães desperdiçaram três tentativas e percebeu-se, através de várias imagens televisivas, que houve jogadores que não quiseram assumir a responsabilidade, após pedido do capitão Joshua Kimmich.
Por outro lado, existem outros contextos de maior preparação. Por exemplo, a Associação Inglesa de Futebol lançou, em 2018, o chamado Projeto Penáltis, no qual o objetivo foi abandonar a ideia tradicional de que os penáltis são uma questão de sorte. Graças a esta mudança de abordagem, a seleção inglesa passou de uma das menos bem-sucedidas nos desempates por grandes penalidades, depois de ter perdido seis dos sete disputados entre 1990 e 2012, para uma das mais eficazes, vencendo três dos quatro realizados desde 2018.
Apesar de ser impossível reproduzir integralmente, durante os treinos, a intensidade da pressão vivida num desempate de um grande torneio, esse tipo de preparação continua a ser essencial. Sentir algum nervosismo durante o treino permite aos jogadores adaptarem-se melhor às exigências da competição. Tal como uma vacina prepara o organismo através de pequenas doses, também a exposição gradual à pressão ajuda a desenvolver resistência para enfrentar situações muito mais exigentes.
Outra conclusão importante é que um jogador nunca deve enfrentar sozinho a responsabilidade de marcar uma grande penalidade. Os guarda-redes recorrem frequentemente a estratégias para desconcentrar o marcador, como atrasar a reposição da bola, afastá-la do local da marcação ou movimentar-se constantemente sobre a linha de baliza. No entanto, os melhores executantes não confiam apenas nas suas capacidades individuais, contam igualmente com o apoio dos colegas. Num desempate por grandes penalidades, cada remate envolve toda a equipa. Sentir que se pertence a um grupo e poder contar com o apoio dos outros reduz significativamente os efeitos da pressão.
O que os melhores jogadores do Mundo enfrentam durante os desempates por grandes penalidades é mais um desafio humano do que futebolístico. Messi, neste Mundial, ganhou o estatuto de jogador com mais penáltis falhados em Campeonatos do Mundo, sendo o primeiro jogador a falhar mais que uma grande penalidade na mesma edição. Tem apenas 50% de aproveitamento em Mundiais: em oito cobranças, converteu quatro e falhou também quatro, até ao momento.
Por outro lado, Bruno Guimarães também falhou um penálti no jogo em que o Brasil foi eliminado. A pressão era a mesma: um jogo importante e um momento decisivo pela frente.
A diferença esteve na reação de cada um. Um voltou a assumir a responsabilidade quando teve outra oportunidade. O outro deixou que o erro influenciasse a forma como continuou o jogo.
Messi pediu a bola, logo a seguir a ter falhado e quis voltar a decidir. Enquanto isso, Bruno Guimarães prosseguiu de cabeça baixa, sem energia. Após o jogo comentou que foi o pior dia da sua vida. Mas o erro foi o mesmo do seu colega de profissão. Isto acontece também na vida. Muitas pessoas não desistem porque falharam. Desistem porque começam a acreditar que um erro define quem são. Mas um erro não determina o valor nem a capacidade de cada um. E isso começa nos treinos, desde a pré-época até às finais. Seja de grandes penalidades ou de outro fator decisivo em campo.