Mundial
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Lições e ilações
Faltam dois dias para a grande final do Mundial 2026. Argentina e Espanha garantiram o direito a estar no jogo mais importante da competição com mérito. Seguiram caminhos distintos, mas nos momentos mais importantes souberam ser e fazer o que era preciso para ultrapassar os seus obstáculos.
Não sei se teremos uma Argentina bicampeã ou uma Espanha a dar continuidade à conquista do Euro 2024. Sei, no entanto, que ambas as seleções deixam lições e ilações que levarei para a vida enquanto ser humano e treinador.
Coragem, congruência, convicção e fidelidade. Ser-se convictamente fiel a crenças e ser-se capaz de agir em conformidade com as mesmas é algo cada vez mais raro de se encontrar num campo de futebol. Argentina e Espanha têm sido fiéis ao seu ADN e congruentes na forma como o expõem em campo. Isso requer coragem. Uma enorme coragem para não haver desvios quando a exibição não está a ter qualidade, as individualidades não sobressaem ou o resultado é desvantajoso.
Unidade e mobilização. Representar uma seleção é muito mais do que vestir as cores da bandeira. É transportar os sonhos de milhões que um dia sonharam estar num Mundial. É ser em campo o exemplo vivo dos princípios e valores morais que supostamente norteiam a cultura de um país. É ter a noção de que a unidade em campo pode ter reflexo na mobilização de uma sociedade. Mesmo que por breves horas ou por meia dúzia de semanas. Argentina e Espanha têm um sentido de unidade e uma capacidade de mobilização dentro de campo em prol do coletivo acima da média.
Inteligência e altruísmo. Argentina e Espanha têm selecionadores inteligentes do ponto de vista tático. Não estão presos a nada que não seja o superior interesse dos seus selecionados e do seu país. Daí nunca terem tido problemas em optar por A em detrimento de B. De Paul e Lautaro Martínez foram suplentes anteontem. Pedri e Ferran Torres foram suplentes nos últimos dois jogos. Todos foram chamados a jogo e responderam de forma afirmativa e altruísta, como seria de esperar.
Liderança humana. Scaloni e De La Fuente. Dois mestres na forma como souberam construir um grupo forte do ponto de vista humano, a partir do qual se desenvolveram as respetivas ideias e os respetivos modelos de jogo. Discretos, humildes, inteligentes. Agem como coreógrafos que criam a coreografia, assistem ao bailado e, no final, recolhem aos bastidores. Sabem que os aplausos serão sempre para quem baila. Têm ego, mas têm muito mais cérebro e coração.