A Europa sem eles
DE festa em festa, acompanhado pelo conterrâneo e velho comparsa Angel Di Maria (primeiro, foi a despedida de Maxi Rodriguez, logo a seguir a de Riquelme), Lionel Messi vai gozando as férias enquanto não chega o dia da apresentação no Inter de Miami, o novo destino do astro argentino. O rival de sempre, Cristiano Ronaldo, também goza as delicias estivais, na Sardenha, numas férias certamente mais tranquilas do que as do verão passado, marcada pela perda de um filho bebé e por tudo o que se seguiu. Ronaldo há-de voltar a Riade, capital da Arábia Saudita, para iniciar aquilo que não fez há um ano - a pré-temporada - e que tanto o prejudicou nos meses seguintes.
Espera-o um Al Nassr certamente diferente. Quiçá com um treinador português no comando (Luis Castro?) e mais alguns reforços de qualidade para além do extremo Hakim Ziyech, contratado ao Chelsea. Enquanto isso, o futebol europeu prepara-se para iniciar um novo ciclo sem os dois maiores jogadores e goleadores do séc.XXI - possivelmente da história. Ao fim de tantos anos, não haverá nem Messi nem Cristiano nos estádios europeus. Fim de um tempo e de uma rivalidade inigualável e irrepetível, por muito boa vontade que tenhamos com o Mbapée e Halaand. Estes são de carne e osso. Os outros eram deuses.
Messi vai ser recebido como um Deus em Miami (Florida), a cidade americana com maior percentagem de residentes hispânicos/latinos (70%), justamente considerada a porta de entrada para a América Latina. Com uma população (área metropolitana) de 6,5 milhões, ligeiramente inferior à de Riade (7 milhões), Miami tem óbvias semelhanças com Barcelona (cidade-praia com vida nocturna caliente e ambiente easy-going) e nesse aspecto o clã Messi, que tem lá um luxuoso duplex há vários anos, não vai estranhar a mudança. A diferença que Lionel vai encontrar é a mesma que Ronaldo encontrou em Riade: o clube. Uma descida de vários patamares, embora a de Messi pareça mais pronunciada. O Inter de Miami é o 15.º e último classificado da Conferência Este, não tem jogadores conhecidos do grande público, nem sequer treinador (consta que o argentino Tata Martino está na calha para suceder a Phil Neville).
Mesmo com Sergio Busquets a seu lado (a que eventualmente se podem juntar outros velhos companheiros de estrada como Luis Suarez, Andres Iniesta e Jordi Alba…), dificilmente Messi voltará a respirar na MLS o ambiente de alta-competição a que, conscientemente, virou costas aos 36 anos. Veremos qual dos dois, Cristiano ou Messi, conseguirá projectar mais as respectivas ligas à escala global. O fluxo de jogadores renomados a caminho da Arábia (Benzema, N’Golo Kanté, Rúben Neves, Ziyech, Koulibaly e Mendy à cabeça) é o primeiro efeito da sensacional decisão tomada por Cristiano há seis meses. Veremos de que forma a contratação de Messi conseguirá projectar a Liga Americana para um patamar diferente. David Beckham, patrão do génio argentino, tentou o mesmo em 2007 (quando saiu do Real Madrid para o Los Angeles Galaxy) e não se pode dizer que tenha produzido efeitos duradouros…
E SE O REAL FICAR SEM «9»?
OBayern avança por Harry Kane (29 anos), capitão da selecção inglesa e avançado fabuloso que merece há muito uma equipa com capacidade e ambição de lutar pelos grandes títulos - o que não é, manifestamente, o caso do Tottenham. Já Kylian Mbapée, capitão da selecção francesa e, muito provavelmente, o melhor futebolista do Mundo (agora e nos próximos anos), foi posto no mercado pelo Paris SG depois de Mbapée lhes ter comunicado que não tem intenção de continuar ali para além de 2024. Compreensívelmente, o PSG não quer correr o risco de (dentro de um ano) perder o seu jogador-emblema sem receber um cêntimo… depois de, no verão passado, lhe ter confortado a conta bancária com 300 milhões para renovar por duas épocas.
O preço fixado pelo PSG (200 milhões) está ao alcance de outros clubes financiados por estados árabes, mas o maior deles (Man. City) já está servido nesse departamento (Halaand). Sobra o Real Madrid como destino óbvio, um ano após Florentino Perez ter encaixado a humilhação de ouvir um «afinal, não vou» de Mbapée. Que foi convencido a recuar em cima da linha da meta pelo patrão Catari, que teve como aliado nessa manobra o próprio presidente francês. Vários jornais davam ontem conta de uma alegada proposta que o Liverpool (certamente com o acordo do parceiro Nike), estará na disposição de fazer por Mbapée (um velho sonho de Klopp), mas custa-me acreditar que os «reds», que têm um histórico de relativa frugalidade no mercado (van Dijk, Alisson e Darwin foram as excepções) estejam na disposição de investir quase 250 milhões no avançado francês quando têm Mo Salah, Diogo Jota, Luis Diaz, Darwin Nuñez e Cody Gakpo na frente de ataque. Seja como for, o Madrid, de repente, corre o risco de ver os dois substitutos naturais de Karim Benzema (Mbapée e Kane, o preferido de Carlo Ancelotti) seguirem outros caminhos. A não ser que seja mesmo Joselu (33 anos, ex-Espanyol) o «9» de Florentino para a próxima época. Ele garante que o mercado está fechado, enquanto espera que Mbapée lhe caia no colo…
TANQUES INGLESES À VISTA
QUEM viu o verdadeiro amasso futebolistico que sub-21 ingleses (com vários suplentes no onze inicial) impuseram ontem à selecção alemã - o 2-0 final não reflecte a superioridade avassaladora dos jovens britânicos em todos os capítulos do jogo -, deve ter ficado ainda mais apreensivo com o jogo dos quartos-de-final, domingo. É precisamente esta forte e mandona Inglaterra (três vitórias por 2-0) que se atravessa no caminho dos nossos titubeantes sub-21, que, ao fim de três jogos no Europeu da Geórgia-Roménia, ainda não conseguiram convencer ninguém de que têm futebol para chegar longe… tão pobres e desconchavadas têm sido as suas actuações - seleccionador Rui Jorge incluído. Para quebrar o enguiço que nos persegue neste escalão (zero títulos; três finais perdidas) é preciso que apareça em Kutaisi uma selecção que ainda não vimos e um Rui Jorge muito mais assertivo e ambicioso a partir do banco. Caso contrário, os tanques ingleses vão passar-nos por cima. Como fizeram aos checos, israelitas e alemães.