Mundial
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A confusão entre gratidão e competição
ROBERTO MARTÍNEZ. Despertará sempre análises distintas, ideias opostas. Um selecionador, ainda para mais estrangeiro — pese toda a boa vontade em aprender português, cantar o hino e criar óbvia empatia mediática — será sempre sujeito ao imediato escrutínio, sabendo que, porque é de futebol que se trata, as paixões e os impulsos falarão muito alto e estabelecerão muito ruído.
Em rigor, o primeiro jogo de Portugal no Mundial das Américas não trouxe grandes surpresas, a não ser o golo madrugador de João Neves. Esse facto, aliás, projetou uma imagem errada do que podia vir a suceder.
Já não estamos no tempo da bola quadrada. O futebol, na sua componente científica e de conhecimento transversal, evoluiu de tal forma que, se Portugal conhece o Congo, à equipa africana também não faltam detalhes sobre os portugueses. Cada seleção joga o que pode e sabe, e é no aproveitamento das individualidades, dos que realmente podem fazer a diferença, distinguir um jogo e desequilibrar um resultado, que tudo se pode decidir.
Aqui, Martínez foi coerente, igual a si próprio, e não surpreendeu ninguém com as opções tomadas para o desafio de abertura da saga portuguesa do outro lado do Atlântico.
Esse terá sido o problema. Utilizar na equipa inicial Tomás Araújo e não sugerir a Rúben Neves que fizesse o lugar junto a Renato Veiga, foi um risco. Apostar num Bernardo Silva que pareceu mais com a cabeça em Madrid do que em Houston, tirou lugar a Francisco Conceição, o único que, quando lhe foi dada oportunidade, a agarrou com unhas e dentes.
E depois… Cristiano Ronaldo. Já aqui várias vezes o escrevi: o jogador do Al Nassr não deve ser titular na Seleção Portuguesa. Tem carisma, história, peso, dimensão universal, tem de estar entre os convocados, e será uma ótima gazua para os últimos minutos de um jogo que esteja difícil de desembrulhar, pelo efeito que certamente terá na estrutura defensiva contrária.
Mas é cada vez mais previsível e cada vez menos fiável na frente de ataque portuguesa.
O problema é que Martínez o vai manter como titular frente ao Uzbequistão, num país que quase sempre confunde gratidão com alta competição…
VOZINHA. Se outras provas fossem necessárias, a multiplicação exponencial do número de seguidores de Vozinha após a estrondosa exibição do guarda-redes cabo-verdiano no encontro frente à Espanha demonstrou a globalidade do jogo, e a força das mensagens. Um soundbite, uma defesa impossível, um adereço especial no equipamento, são elementos de notoriedade e de caraterização dos jogadores que atuam num palco de dimensão mundial.
Aos 40 anos, Vozinha fez o jogo da sua vida, quer na perspetiva da competição em que se inseria, quer pelo adversário e pela qualidade superlativa da sua atuação.
Cabo Verde merece todos os encómios, desde logo porque, sendo a qualificação surpresa do continente africano, motivou tudo e todos, e demonstrou que o sonho não terminou com o carimbo no passaporte para a prova mais desejada.
A equipa de Bubista foi, sobretudo, realista, teve a pontinha de sorte que protege os audazes, e no seu guarda-redes a muralha inultrapassável.
O episódio que levará a sua mãe aos Estados Unidos é apenas o lado mais humano da vida de quem, com a máxima humildade, deixou cair lágrimas pela distância. Ela estará, finalmente, nas bancadas a apoiar o filho e todo um país que, pelo caráter do seu povo e pela dimensão arquipelágica que tanto afasta quanto aproxima, merece inteiramente estar a viver este sonho proporcionado pelo futebol.
Os agora milhões de seguidores de Vozinha nas redes sociais serão, afinal, a parte que faltava de uma história que, para o guarda-redes e para os seus companheiros, ainda não acabou…
LIVANO COMENENCIA. Tem apenas 22 anos e, por força do local de nascimento dos pais, adotou a seleção da pequena ilha caribenha de Curaçau, em vez de tentar um lugar na máquina neerlandesa. É que nasceu em Breda, nos Países Baixos, e teria sempre essa possibilidade.
Porém, a história seria outra, não tão reluzente, decerto… Livano Comenencia joga nos suíços do Zurique e na seleção estreante em Mundiais e, depois de uma qualificação emocionante, teve o seu momento de glória frente a um dos melhores guarda-redes da história do futebol. Manuel Neuer nem queria acreditar quando Comenencia, rápido e incisivo, marcou o golo de Curaçau frente à Alemanha, fazendo daquele momento uma moldura que vai marcar para sempre a sua carreira, ainda que nunca mais consiga estar com a equipa da Concacaf na fase final de um Mundial.
É também destes heróis improváveis que se escreve a história do jogo. Destes momentos únicos e irrepetíveis. E do quão marcantes e significativos eles serão, inspiração quase divina, para gerações de jovens. Nas ruas de Willemstad, a deliciosa capital da ilha, ou em qualquer parte do planeta.
LIONEL MESSI. Começa a ser muito difícil adjetivar e analisar a carreira do astro argentino. Aos 38 anos, devidamente enquadrado com os companheiros no relvado, assumindo a experiência como fator de elevado diferencial, aplicando na perfeição os pressupostos técnicos que dele fazem um dos melhores de sempre, o eterno rapaz de Rosário chega, vê e demonstra o que é, efetivamente, um iluminado pela galáxia do futebol: aproveita entrosamento mágico de que dispõe na seleção das Pampas, marca três golos e deixa claro (ele e os restantes comandados de Lionel Scaloni) que a Argentina é, de facto, não apenas campeã do Mundo, mas a principal candidata ao título, no dia 19 de julho, em East Rutherford.
Messi chega ao Mundial em ponto de rebuçado. Toda a equipa argentina sabe que é no coletivo que reside o segredo dos sucessos, e Lionel também. Joga alegre, recebe e passa, desmarca-se e dá a quem desmarcado está, olha, mede a régua e esquadro distâncias, roda e faz rodar.
A Argentina tem um modelo de jogo que não procura Messi porque se trata de Messi. Enquadra-o, potencia as suas únicas e elevadíssimas qualidades técnicas, repara na sua experiência como um farol de referência, e aproveita o que de melhor ele pode oferecer. Do lado do número 10 alviceleste, sabe que tem compromisso, alegria com e sem bola, perceção e capacidade de decisão e conclusão.
É tudo o que é preciso. Por isso Messi, com Pelé e Maradona, já está no pódio dos melhores de sempre.