André Villas-Boas sucedeu a Pinto da Costa na presidência do FC Porto - Foto: Imago
André Villas-Boas sucedeu a Pinto da Costa na presidência do FC Porto - Foto: Imago

O FC Porto é um caso de estudo

'A Minha Tribo' é o espaço de opinião em A BOLA de Jorge Nuno Oliveira, jornalista e adepto do FC Porto

Está a ir bem esta época do FC Porto. Começámos com uma vitória muito esforçada na Supertaça (aplauso ao Torreense, que fez a vida negra ao campeão nacional e lutou até ao fim. Merecia estar na Primeira Liga). E começámos o campeonato com uma vitória suada sobre o Alverca. Não é possível pedir mais, sobretudo nesta fase da época em que os níveis físicos, a afinação tática e as rotinas de jogo ainda estão muito longe do pico de forma desejado.

Esta época vai ser bem mais longa e exigente do que a anterior. Vamos precisar de reforços e de uma gestão muito inteligente e sensível do plantel. Jogar a Liga Europa é muito diferente de jogar a Liga dos Campeões e o FC Porto tem de estar preparado para isso.

Claro que o primeiro objetivo da época continua a ser o campeonato, mas uma boa Champions dá dinheiro e prestígio.

Não sabemos, ainda, quem vai sair da equipa e quem vai entrar. Este aberrante e longo mercado de verão, que penetra nas Ligas, distorce a competição e a competitividade.

Nenhum treinador sabe que equipa vai ter no início de setembro. Sofre, com isso, a estabilidade do plantel, os mecanismos táticos, a dinâmica do grupo e a própria planificação da época.

Mesmo sem saber se vai sair alguém, o FC Porto tem de reforçar o lado esquerdo da defesa e o ataque. Samu só regressa com a época já lançada e sabe-se lá quanto tempo vai demorar até recuperar a melhor forma. Deniz Gul e André Silva não são garantias suficientes para uma época tão exigente como esta.

Novos tempos

À entrada da terceira época da era André Villas-Boas, impõe-se refletir sobre estes novos tempos, a herança do passado e as perspetivas de futuro.

É um caso de estudo.

42 anos depois de uma presidência como nenhuma outra no mundo, que deixou marcas difíceis de igualar, era legítimo duvidar que o caminho do sucesso se prolongasse quase sem interrupção. Não é normal isso acontecer. O que é normal acontecer é que a um período de grande sucesso desportivo e de continuidade diretiva, se sigam momentos de instabilidade, conturbação ou mesmo crise.

No caso do FC Porto, a transição da presidência histórica de Pinto da Costa para a de André Villas-Boas foi suave e muito bem-sucedida.

O primeiro ano acusou, naturalmente, o choque da mudança. Mas o segundo ano foi fulgurante. Contratações a bater recordes, mexidas cirúrgicas no plantel e na estrutura do futebol, dinâmicas de alta exigência e compromisso recolocaram o FC Porto no caminho do sucesso desportivo, com a vantagem de as contas terem sido finalmente equilibradas.

Como se explica, então, que esta mudança tenha acontecido sem sobressaltos e sem prejuízo da marca de vitória do clube?

A primeira explicação que encontro é a vontade de mudança que os próprios sócios expressaram nas eleições. Ou seja, a vitória de André Villas-Boas não foi um putsch nem sequer uma vitória renhida. Foi uma vitória desejada pela maior massa de adeptos votantes na história do dragão.

Ao manifestarem desta forma tão clara e esmagadora a vontade de dar um novo rumo ao FC Porto, os sócios disseram que estavam disponíveis para contribuir para a continuação do caminho do sucesso desportivo e a reabilitação das finanças do clube.

Em segundo lugar, as qualidades pessoais e profissionais de AVB e da sua equipa garantiram que tudo seria feito sem perda de competitividade e, muito menos, de identidade. A nova direção arregaçou as mangas e ergueu dos destroços da tesouraria um novo clube, apetrechado com tudo o que era necessário para manter o FC Porto no topo.

Em terceiro lugar, a mística do dragão. Nenhum outro clube sente como nós o fulgor, a ambição e a vontade de conquistar e superar.

É a mística do dragão que transforma boas equipas em grandes equipas e grandes jogadores em jogadores excecionais. Nós damos sempre mais, melhor e por mais tempo.

O sonho mais lindo

Não se nasce portista. Uns, absorvem dos seus pais a paixão do clube, seja qual for a equipa, os jogadores ou as conquistas. Outros, aprendem a glorificar aquele artista da bola que tem magia nos pés e que conduz o clube a vitórias históricas. Outros, ainda, habituam-se a acompanhar os ciclos vitoriosos do clube e apaixonam-se pela mística. Não se nasce portista mas, quando se passa o limiar do amor sem fim, morre-se dragão.

Claro que isto é válido para todos os clubes, com mais ou menos intensidade, mas a mística do FC Porto é incomparável e, atrevo-me a dizer, única.

Fiz-me portista por influência do meu Pai, um adepto obcecado que dedicava os domingos a ver todos os jogos do FC Porto que pudesse. Começava nos juniores ou juvenis, passava pelo andebol ou hóquei em campo e acabava nas Antas, quando a equipa jogava em casa.

Habituei-me a ouvir com ele os relatos do futebol e a sofrer por ainda não ser desta que íamos ser campeões.

Naqueles relatos eu era testemunha de uma convicção tão profunda quanto a frustração de mais um insucesso.

Aprendi, por isso, a ser portista como um ato de resistência e esperança. Sou um adepto forjado no sonho.

A Carol do Cerco

Hoje quero recomendar-te uma página de Instagram: carol_sd.cerco_1986.

A Carol, que eu não conheço pessoalmente e de quem nunca tinha ouvido sequer falar, é uma miúda de 11 ou 12 anos que vive no bairro do Cerco, freguesia de Campanhã, na parte oriental do Porto. Para quem não sabe, esta é a zona mais pobre — ou menos sofisticada, se preferires — da cidade Invicta.

E a Carol publica vídeos que destilam a mais pura, genuína e intensa forma de portismo. Rodeada de adeptos dos Super Dragões, ela puxa por eles como gente grande, arrastando toda a bancada para cânticos de incentivo, vibrações místicas e um entusiasmo infantil maravilhoso. Ela grita, canta, chora e ama o FC Porto. A Carol do bairro do Cerco ainda vai dar que falar.

O melhor portismo

Dois documentários vão revelar os bastidores da época 2025/26 (Conseguimos Juntos) e a vida de Jorge Costa (O Capitão). Ambos os documentários têm quatro episódios, cada. O primeiro já está no ar, no canal YouTube do FC Porto, e o segundo vai estrear em breve, na mesma plataforma.

O documentário de Jorge Costa irá revelar imagens inéditas da vida e da carreira do Bicho, sustentadas em mais de 50 entrevistas de jogadores, treinadores e não só, que se cruzaram com ele.

Jorge Costa, que regressou ao FC Porto como diretor do departamento de futebol, morreu há pouco mais de um ano, com um palmarés de 21 títulos de azul e branco. Tinha 53 anos.

Estes documentários são um testemunho vibrante e emocionado do melhor portismo. Tens de ver.

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