Aleksander Ceferin, presidente da UEFA - Foto: IMAGO
Aleksander Ceferin, presidente da UEFA - Foto: IMAGO

A chapada de luva branca do presidente da UEFA

Decisões como a de nomear o árbitro somali para apitar a Supertaça não podem ser apenas um gesto de marketing; tem de representar outros valores

Há muito tempo que o futebol passou a fazer parte da mais alta e intrínseca geopolítica. E não é um fenómeno apenas deste século. Os mais antigos lembrar-se-ão de ver a Argentina, vivendo uma ditadura, a acolher o Mundial-1978 com a seleção anfitriã a arrecadar o título alavancada no talento de Mario Kempes e noutras situações bizarras a que o contexto não foi alheio.

Mas é indiscutível que os mandatos de Joseph Blatter foram aqueles que elevaram a organização dos Mundiais para esferas muito mais opacas. O mesmo antigo presidente da FIFA que agora se insurgiu com o tratamento dado pelos Estados Unidos ao árbitro somali Omar Artan, enviado para casa por suspeitas de associação a organizações terroristas. Estas ironias fazem parte, no fundo, deste imenso circo: processos suspeitos e investigados na atribuição dos Mundiais da Rússia (2018) e Qatar (2022), envolvendo dirigentes, ministros e até presidentes da república, chutando para canto tudo o que são critérios de transparência.

Só os mais ingénuos acreditam que o futebol poderia funcionar como acelerador de mudança e não a embraiagem. Que a FIFA teria alguma magistratura de influência na administração Trump na relação com os estrangeiros que entram no país. Os gestos, declarações e atitudes do presidente Gianni Infantino só reforçam a ideia de subjugação ao poder, pelo que nada de positivo se poderá esperar nos próximos tempos.

E porque o futebol é uma plataforma geopolítica, a decisão da UEFA em nomear o mesmo juiz africano para apitar a Supertaça Europeia entre PSG e Aston Villa é muito mais que uma provocação aos vizinhos da sede em Zurique; é mais um gesto de afirmação que a Europa tem definitivamente de assumir perante os Estados Unidos. Porque o trumpismo veio para ficar: mesmo após a saída do atual inquilino da Casa Branca (seja lá quando for), as relações com o bloco europeu dificilmente voltarão ao que assistimos nos últimos 80 anos porque há divergências de fundo que antes eram disfarçadas com a arte da diplomacia. Pelo menos Trump tem esse mérito: tirou o filtro. Dele e de uma maioria (também no voto popular) que concorda com os seus métodos e valores. O mundo MAGA.

Os europeus são acusados de serem cínicos e de nunca saírem de cima do muro na forma como lidam com Israel ou como se têm posicionado na guerra entre os EUA e o Irão. Mas este será o resultado de um bloco que é feito de muitas camadas e culturas. Mais do que nunca, gestos como a nomeação de Omar Ortan para o jogo de Salzburgo tem de simbolizar muito mais do que um ato de simpatia.

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