Os adeptos do Vilanovense despediram-se do seu campo no dia 14 de julho - Foto: Vilanovense
Os adeptos do Vilanovense despediram-se do seu campo no dia 14 de julho - Foto: Vilanovense

O «maior de Gaia» foi despejado da sua casa centenária. Que clube resiste a isto?

Revolta, angústia, tristeza e «betão sobre as memórias»… 103 anos depois, o Vilanovense saiu do Parque de Jogos Soares dos Reis, no coração de Vila Nova de Gaia. «A nossa bancada agora é a rua», suspira-se na despedida

Vilanovense. É a resposta ao título da reportagem, na primeira primeira palavra da mesma. 

«O clube não vai morrer», «o tribunal bateu o martelo, mas não bateu o nosso espírito», «faremos um novo caminho, com a mesma dignidade» - afirmam, ao nosso jornal, Bruno Cardoso, José Oliveira e António Martins, respetivamente, presidente (da recém-eleita Comissão Administrativa), ex-glória e sócio do referido emblema de Vila Nova de Gaia.

Decidimos começar a relatar o momento deste histórico, fundado em 1914, pela positividade, porque - garante-nos o máximo dirigente - «o Vilanovense tem futuro», mesmo que tenha acabado de ficar sem-abrigo.

Bruno Cardoso tem um desígnio: salvar o seu Vilanovense - Foto: Vilanovense

Os rubro-negros entregaram as chaves e despediram-se, na semana passada, do mítico Parque de Jogos Soares dos Reis - que era a sua casa desde 1923 -, por ordem de despejo do tribunal, resultado de um processo que se arrastava há muito tempo. 

«Na década de 90, o Vilanovense deu um sinal de 10 mil contos [50 mil euros], para um contrato de promessa e venda de 50% do terreno. O intuito era comprar a outra parcela, depois, e ficar com a totalidade do Parque, evitando chatices futuras - explica Bruno Cardoso. Contudo, houve um erro fatal no procedimento e a chatice chegou mesmo, no início da década passada: «A escritura do acordo nunca foi feita e os donos do terreno puseram uma ação em tribunal.»

O clube viu, então, devolvidos os 50 mil euros, mas a continuidade no Soares dos Reis estava sempre dependente de outrém. «Depois, a direção da altura fez um contrato de arrendamento. Há um ano, o clube não renovou, porque não tinha tanto dinheiro para pagar a renda. Sem acordo, em abril deste ano, houve uma ordem de despejo», que, como explica o presidente da nova Comissão Administrativa (eleita no início deste mês, propondo-se a salvar a instituição desportiva), ditou a saída daquela que era a residência há 103 anos. 

Os vilanovenses fizeram de questão de permanecer em sua 'casa' até ao último momento - Foto: Vilanovense

Soares dos Reis dava vida a tudo

Localizado no coração de Gaia, o Parque de Jogos Soares dos Reis serviu o que «chegou a ser o clube mais eclético do Norte» - salienta o sócio número 76, António Martins. «Não havia uma modalidade que o Vilanovense não tivesse, até aeromodelismo [construção e voo de aeronaves], que mais ninguém tinha», recorda a associado «consecutivo» há 51 anos - que confessa, em A BOLA, só não ser há mais tempo porque o pai, a certa altura, o pôs de castigo: «Já era sócio desde os 12 anos, mas, como fazia algumas tropelias, tirou-me de sócio, para me castigar.»

António Martins leva uma vida a amar os rubros-negros - Foto: Vilanovense

Aos 68 anos, no auge do temperamento, o adepto gaiense não tem medo de afirmar: «Amo tanto o clube — e elas sabem-no — como qualquer pessoa da minha família.» O amor e a lucidez são tão grandes que António Martins não marcou presença na cerimónia de entrega das chaves do campo - onde passou «tantas décadas, de manhã à noite» -, por consciência de que iria trair um dos lemas da sua vida: «Ia emocionar-me e um vilanovense só chora na hora da vitória

«Vimos de duas descidas seguidas e ninguém que esteve no último jogo da descida chorou. Normalmente, cerramos os dentes e esperamos pela próxima», acrescentou, afirmando que é dessa forma que o emblema encara a nova adversidade: «Agora, estamos a fazer o caminho das pedras e vamos fazê-lo com a mesma dignidade com que já estendemos passadeiras rubro-negras.»

António Martins - de chapéu - acompanha o seu 'Vila' para todo o lado. O presidente Bruno Cardoso é primeiro (da esquerda) na fila de baixo - Foto: D.R.

Para cumpri-lo, o clube tem - revela Bruno Cardoso - o apoio da Câmara Municipal de Gaia (tendo o autarca Luís Filipe Menezes disponibilizado o Estádio Municipal para as atividades), Junta de Freguesia de Mafamude e Vilar do Paraíso, da Associação de Futebol do Porto e do «amigo» Canelas 2010: «Não vamos morrer. Tenho comigo oito bravos elementos a trabalhar com amor e carinho para ultrapassar as dificuldades, além disso temos tido solidariedade e ajuda financeira de muita gente.»

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