Luis Enrique podia ser um herói da Marvel
Tony Stark podia ser interpretado por Luis Enrique. Arrogante, cínico, desafiador nas conferências de imprensa, vendo os media como uma espécie de inimigo, distribuindo patacoadas que ajudam a construir um escudo à volta da sua equipa. Dentro de portas, porém, não se importa de se expor, exibindo a sua mais pura condição humana, como o fez mais que uma vez em documentários intimistas reveladores uma das personalidades mais complexas e extraordinárias do futebol moderno. A diferença, porém, é que O Homem de Ferro é uma personagem de ficção, ao passo que o espanhol é uma figura real, que por acaso já participou no Iron Man, o que o torna muito mais especial.
Neste sábado, em Budapeste, se vencer o Arsenal, o asturiano tornar-se-á no segundo treinador a conquistar duas Champions consecutivas no formato contemporâneo da prova rainha da UEFA. O primeiro foi Zinédine Zidane, quando o francês ganhou em 2016, 2017 e 2018. Mas não será pelo quanto, antes o como o treinador do PSG poderá ficar na história. Sem querer ser injusto para com Zizou, há uma diferença gigantesca entre os dois: o Real Madrid venceu pela capacidade dos seus jogadores, com Cristiano Ronaldo à cabeça, os de Paris estão a fazê-lo por causa do homem que os comanda a partir do banco.
«Para o ano vou controlar tudo». Esta foi uma das frases que mais vezes recordo do documentário sobre a sua primeira época no PSG, a propósito de não conseguir pôr a estrela Mbappé a defender como o fazem todos os atuais avançados da formação gaulesa. Esta obsessão foi premiada há um ano e a menos que haja alguma surpresa sê-lo-á em 2026. Não tenho muitas dúvidas de que o antigo jogador do Real Madrid e Barcelona vai marcar uma era. Não tem o glamour de Guardiola, mas merece ser objeto de estudo de todos os que gostam de futebol - ou simplesmente dos que aspiram a gerir equipas.
Este PSG tornou-se numa das melhores obras de autor deste século. Junta, na mesma equipa, princípios da escola Barcelona e a verticalidade dos melhores intérpretes do futebol alemão: a procura incessante, ao centímetro, da ocupação de espaços para criar linhas de passe ao futebol vertical e de transições; a construção em superioridade numérica no primeiro terço com a pressão asfixiante; e ainda assim ainda dá tempo e espaço para os seus jogadores usarem a criatividade num caos controlado.
Luis Enrique podia ser um Guardiola e Jurgen Klopp na mesma pessoa, mas já vai sendo o tempo para dizer que a sua marca é tão avassaladora que qualquer comparação soaria a um desaforo, de tão redutora. A forma mais genuína de analisar um treinador é ouvir o que os seus jogadores dizem dele e até hoje não me recordo de ler críticas marcantes. O homem que deseja «controlar tudo» conseguiu criar 11 estrelas de espírito operário; não apenas meia dúzia, mas uma equipa inteira e os seus suplentes. Não me recordo de algo assim.
Come seis ovos por dia, detesta queijo, dorme nu e passou pelo trauma da perda de uma filha de nove anos. Luis Enrique tem todos os traços de um herói da Marvel.
ELEVADOR DA BOLA
A subir
Bruno Fernandes, médio do Manchester United
Foi considerado o melhor jogador da Premier League em 2025/26 e a sua equipa não ficou nos dois primeiros lugares. Isto diz muito sobre a época do internacional português, cuja carreira merece ser também acompanhada de títulos coletivos.
Estagnado
Carlo Ancelotti, selecionador do Brasil
Renovou com a seleção brasileira até 2030 ainda antes de iniciar o Mundial 2026, para o qual foi obrigado a chamar Neymar, numa decisão que pareceu ser desconfortável... e forçada para o experiente treinador italiano.
A descer
Míchel Sánchez, ex-treinador do Girona