Vítor Pereira: «Portugal é para viver e Inglaterra é para trabalhar»
A dois minutos do fim do contrato, a 30 de junho, Vítor Pereira foi surpreendido com a notícia do seu despedimento do Nottingham Forest... através de um e-mail enviado às 23h58. Cientes da disponibilidade de Oliver Glasner após deixar o Crystal Palace, os responsáveis do clube de Marinakis acionaram a cláusula de rescisão quando todo o planeamento da nova época — entre jogos de preparação e alvos de mercado — já estava finalizado.
Em entrevista ao The Athletic, o técnico português abordou os contornos da rutura, o trabalho de recuperação que liderou e a ambição de disputar troféus em Inglaterra, que, de resto, já tinha destacado recentemente no vídeocast 90+3, de A BOLA TV.
«Foi uma surpresa total. Tinham o direito de decidir o que pretendiam para o clube e eu aceito, mas a única coisa incorreta e injusta foi a forma como o fizeram: enviar um e-mail a dois minutos da meia-noite, quando tínhamos tudo organizado.»
Apesar do desfecho abrupto, o treinador assegura manter uma relação de respeito com o proprietário Evangelos Marinakis e recusa ficar preso ao passado. A descansar na costa portuguesa enquanto analisa equipas internacionais, o técnico de 56 anos rejeita o rótulo de mero salvador: «Não sou bombeiro. O meu objetivo no futuro é lutar por títulos na Premier League. Quero colocar-me à prova com os melhores.»
O impacto do português no City Ground revelou-se determinante após uma temporada caótica. Quarto treinador da época — sucedendo aos despedimentos de Nuno Espírito Santo, Ange Postecoglou e Sean Dyche no espaço de cinco meses —, o ex-timoneiro do FC Porto encontrou um balneário de confiança em baixo. A revitalização começou com um triunfo por 3-0 diante do Fenerbahçe na Europa League e uma vitória clara no reduto do Tottenham, mas a grande viragem deu-se com o Burnley: a perder ao intervalo, a equipa reagiu às alterações táticas com quatro golos no segundo tempo, num passo decisivo rumo à permanência.
Esse encontro catapultou a afirmação de Morgan Gibbs-White, autor de um hat-trick e que fechou a temporada com 11 golos sob a liderança do técnico luso, com Pereira a manifestar incompreensão pela sua ausência dos convocados de Inglaterra para o Mundial. Outro elemento amplamente elogiado foi Elliot Anderson, cujo foco e entrega competitiva se mantiveram intactos apesar da iminente transferência milionária para o Manchester City por 116 milhões de libras (€138 M).
O reverso da medalha surgiu na segunda mão das meias-finais da Liga Europa diante do Aston Villa (4-0), já depois de ter deixado os azuis e brancos pelo caminho, num duelo condicionado por oito ausências de vulto, que levou Pereira a preencher o banco com jogadores lesionados para criar dúvidas no rival.
Desfecho europeu à parte, a passagem de Vítor Pereira fica marcada pelo resgate da estabilidade e pela garantia da manutenção na Premier League. De olhos postos no futuro, o técnico aguarda serenamente o projeto certo: «Portugal é para viver e Inglaterra é para trabalhar. Estou à espera da chuva para começar a trabalhar.»