O árbitro Cláudio Pereira no polémico jogo nos Açores - Foto: Eduardo Costa/LUSA
O árbitro Cláudio Pereira no polémico jogo nos Açores - Foto: Eduardo Costa/LUSA

Os árbitros, o trigo e o joio

Depois de Gustavo Correia, no Minho, Cláudio Pereira, nos Açores. Se os dirigentes da arbitragem não perceberem a gravidade destas situações e não atuarem em conformidade, são cúmplices. Se os dirigentes dos clubes não se revoltarem contra estas situações, que mais cedo ou mais tarde tocam a todos, merecem-nas…

Por se tratar de uma questão que ultrapassa o meramente conjuntural, creio valer pena manter vivo na opinião pública o tema dos relatórios dos árbitros, depois do que aconteceu com Cláudio Pereira em Ponta Delgada ter adensado as preocupações decorrentes do que fez Gustavo Correia em Famalicão.

O árbitro de qualquer modalidade desportiva, enquanto juiz, tem deveres de imparcialidade e isenção e, sobretudo, não devem subsistir quaisquer dúvidas quanto à relação que mantém com a verdade. Se houver a perceção - infelizmente fundada, aliás - de que há árbitros que manipulam, a frio, num relatório escrito (não se tratando  de uma má decisão tomada no calor de um jogo), a realidade, ficcionando situações das quais decorrem sanções disciplinares para terceiros; e se, esses árbitros, continuarem a exercer funções ao mais alto nível, desculpabilizados, com argumentos débeis, pelas mais altas instâncias; a consequência será a descredibilização do setor, através de inevitáveis (e injustas) generalizações, que colocam todos no mesmo saco. Para mim, estamos perante uma situação de claridade cristalina: quem mente (comprovadamente!) num relatório não pode ser árbitro, porque perde a legitimidade e fica desprovido de condições para que as suas decisões continuem a ser vistas pelas lentes da boa-fé. Quem toma decisões disciplinares de forma irresponsável (assumir que o que um jogador disse lhe foi impercetível - até podia estar a rezar uma Avé Maria - e mesmo assim, por intuição?, expulsá-lo, não pode ser desculpado, porque, de facto, o problema nunca esteve na forma como caraterizou a respetiva alegada infração, mas sim nas razões que o levaram a tomar a decisão.

Repare-se que nos casos de Gustavo Correia e Cláudio Pereira não se está a falar de interpretação de um lance, de desvalorização de um alerta do VAR, ou, até, de um erro de arbitragem. O que está em causa é muitíssimo mais preocupante porque denota a existência de um vírus que pode propagar-se e destruir uma classe. Este alerta, penoso para quem o faz, não é contra os árbitros, é em favor deles, de todos aqueles - a esmagadora maioria - que não caminham por estas estradas de realidade virtual (chamemos-lhe assim…).

É obrigação do Conselho de Disciplina da FPF não branquear, como fez com Gustavo Correia, uma situação de gravidade extrema; é obrigação do presidente do Conselho de Arbitragem da FPF não encontrar desculpas inverosímeis para o «impercetível» de Cláudio Pereira. Se a via for esta, sem que se responsabilize quem prevarica, o joio continuará misturado com o trigo, e quem perde é a seara.

A Arbitragem só ganhará credibilidade na medida em que se tornar mais transparente. Não será por acaso que em Espanha se iniciou um projeto-piloto que permite aos árbitros prestar declarações no final dos jogos. Os adeptos merecem isso e muito mais, têm direito a que a opacidade seja erradicada, o corporativismo deixe de ser um peso nos pés que puxa para o setor para o fundo, e que a meritocracia seja aplicada e explicada. Resta falar da posição dos clubes perante estes casos-limite. Não pode ser só o emblema que se sente lesado a arcar com as despesas da contestação. Por tratar-se de um estado de coisas que mais cedo ou mais tarde tocará a todos, justificar-se-ia uma posição conjunta, através da Liga. É impossível falar na integridade da competição pela qual a Liga Portugal é responsável, quando convivemos com casos destes e vemos que acabam por ser tratados como se se revestissem de normalidade absoluta. O que é uma gritante mentira. Nada disto é normal, nada disto faz parte dos princípios basilares da arbitragem.

CARTAS

ÁS

Paulo Fonseca

À imagem de Marco Silva, um regresso a Portugal que se saúda vivamente. Paulo Fonseca é, ao dia de hoje, um dos treinadores do futebol europeu de primeira linha, que procurará, no Sporting, emular Ruben Amorim, desenvolvendo um projeto que perdure no tempo. Excelente escolha.

ÁS

Rodrigo Mora

A afirmação do fantasista português em Roma é uma realidade, e os três golos que leva na Serie A, dois deles obtidos nas últimas duas jornadas, provam-no, assim como a utilização crescente no plano inicial de Gasperini. Mora tem de ganhar mais estaleca física: talento tem de sobra.

REI

Rui Borges

Enriqueceu o currículo em Alvalade, e deixa o nome associado a um dos títulos nacionais dos leões. Merecia, pela frontalidade que sempre demonstrou, ter sido tratado com mais elevação na hora da despedida. A forma como foi deixado a queimar-se em lume brando deixou a desejar. 

CAPA

Mourinho, Fonseca, Conceição, Amorim

O triunfo concludente no seu primeiro ‘Derby Della Madonnina’ (quarto técnico luso a vencer este jogo histórico) deu a Ruben Amorim fôlego para encarar com ânimo renovado o que tem pela frente na Serie A, onde lhe pedem que fique numa das primeiras quatro posições. No mesmo dia, percebeu-se que o problema do Manchester United vai muito para lá do treinador (e isto tem a ver com Amorim…).

FOTOLEGENDA

Kylian Mbapée/China

O que têm grandes nomes do desporto mundial, como Tiger Woogs, Lance Armstrong, Michael Phelps, Ryan Lochte, Oscar Pistorius, Michael Vick, Wayne Rooney, Magic Johnson, OJ Simpson, Kobe Bryant, Ben Johnson ou Neymar Jr., a ver com Kylian Mbapée? Todos eles, a determinado momento, por razões de ordem diversa que impactaram na sua imagem pública, viram patrocinadores virarem-lhes as costas. O que se passa entre a principal estrela do Real Madrid e a República Popular da China, volta a alertar para o facto de atletas que ao mesmo tempo são marcas globais, deverem estar atentos a diferenças culturais e sensibilidades diversas, sob pena de serem penalizados e provocarem danos colaterais (como está a suceder com La Liga). Certo? Errado? É o mundo que temos…

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