Rui Borges e Frederico Varandas nos festejos da dobradinha do Sporting em 2025 - Foto: Imago
Rui Borges e Frederico Varandas nos festejos da dobradinha do Sporting em 2025 - Foto: Imago

Sporting: a (in)coerência das decisões

'Mercado de valores' é o espaço de opinião em A BOLA de Diogo Luís, antigo jogador de futebol, economista e comentador

Em maio deste ano, o Sporting renovou contrato com o seu treinador e Frederico Varandas proferiu as seguintes palavras: «Nós não tomamos decisões por marés. Não navegamos à vista ou ao sabor do que estão a dizer ou vão achar. Navegamos com base em convicções e a acreditar em processos de trabalho.»

Agora que se questiona a continuidade de Rui Borges, o que mudou?

Definir o perfil

O treinador é uma das figuras mais importantes de um clube: gere os principais ativos desportivos e tem enorme responsabilidade nos resultados. Escolhê-lo não é fácil, num futebol em que as variáveis mudam rapidamente. Ainda assim, quem define um caminho coerente está mais perto de vencer.

A escolha deve partir de critérios bem definidos: que futebol se quer apresentar? O resultado é mais importante do que a identidade de jogo? Deve ser um fim ou uma consequência do trabalho? Pretende-se um treinador de personalidade forte, que possa gerar choques, ou alguém mais flexível? Que liderança se quer no balneário? Os valores e o comportamento do treinador encaixam na imagem do clube? E que comunicação se espera dele?

Renovação com convicção?

Rui Borges chegou ao Sporting num momento conturbado. Conseguiu agarrar a equipa e conquistar a dobradinha no final dessa época. A época seguinte foi a primeira que iniciou de leão ao peito. Mudou o sistema tático e apresentou um futebol dominador, por vezes alegre e aglutinador. Teve, contudo, dificuldades na gestão da condição física dos jogadores nas fases decisivas da época. Ainda assim, manteve a equipa competitiva nas várias competições, uma exigência de quem treina um clube grande.

Em maio, o Sporting renovou contrato com o treinador. Publicamente, a administração validou o seu perfil e reforçou a confiança.

O que mudou?

Depois da final da Taça de Portugal perdida para o Torreense, a desconfiança dos adeptos em relação a Rui Borges aumentou. Para romper com o passado, a administração leonina entendeu que era o momento de iniciar um novo ciclo, com a saída de vários jogadores determinantes para o sucesso desportivo do Sporting.

As vendas de Hjulmand, Diomande e Trincão, a que se juntou a saída de Morita, representaram uma mudança profunda, com os riscos inerentes à perda de jogadores desta dimensão. Financeiramente, estas operações permitiram equilibrar as contas e criar margem para desenvolver novos projetos, procurando manter o equilíbrio financeiro e desportivo do clube. Desportivamente, permitiram atacar o mercado mais cedo e dar ao treinador a possibilidade de trabalhar com os reforços desde o primeiro dia da pré-época.

Contudo, o Sporting foi mais longe. Deixou sair Pedro Gonçalves e Bragança sem uma contrapartida que justificasse, do ponto de vista desportivo, a importância dos dois jogadores. A sensação que ficou foi a de que foram empurrados para a porta de saída, sobretudo tendo em conta os destinos que acabaram por ter. A explicação para estas saídas nunca foi suficientemente clara. Terá sido pelas lesões recorrentes? Pelos salários elevados? Eram dois jogadores que faziam a diferença em Portugal e constituíam mais-valias para o Sporting.

Com um meio-campo novo para trabalhar e os jogadores disponíveis desde o primeiro dia da pré-época, a administração acreditava ter dado a Rui Borges as condições necessárias para construir uma equipa capaz de voltar a chegar às fases decisivas das competições.

Passadas dez jornadas da Liga e três da Liga dos Campeões, e apesar do voto público de confiança, surgem rumores de que o futuro de Rui Borges poderá depender dos resultados dos próximos jogos. Se isso se confirmar, e forem verdadeiros os contactos para encontrar um novo treinador, a administração ficará numa posição difícil de justificar.

Onde ficam as convicções e os processos de trabalho que sustentaram a renovação de Rui Borges? Está a administração a colocar em causa as competências do treinador apenas cinco meses depois de renovar o contrato? Está a decidir com base nos resultados imediatos ou no perfil e no processo de trabalho que afirmou querer privilegiar?

Se o Sporting não se tivesse deixado empatar no último minuto com o Famalicão, ou se não tivesse permitido que Estrela e Arouca recuperassem de uma desvantagem de dois golos, Rui Borges seria hoje o homem certo no lugar certo? Esperava a administração que o treinador continuasse a jogar da mesma forma que na época passada, apesar de ter jogadores completamente diferentes?

É que ter Trincão não é igual a ter Zalazar…

Comunicar também é liderar

Os treinadores das equipas grandes têm, muitas vezes, quatro conferências de imprensa por semana. São uma oportunidade para acrescentar valor e devem ser preparadas como um jogo. A comunicação reforça a confiança, transmite mensagens e consolida o ADN do clube.

Saber criar um ambiente positivo é fundamental para um treinador com visibilidade. A comunicação é uma das áreas em que Rui Borges menos evoluiu. O seu discurso continua muito redondo e parece não perceber que estes momentos podem proteger e valorizar o seu trabalho. Um treinador de um clube grande pode influenciar a narrativa dos meios de comunicação.

Farioli, por exemplo, numa conferência recente em que estava a ser contestado, falou em «bomba e sangue». No dia seguinte, só se falava dessas palavras e não do futebol apresentado. A declaração ajudou a desviar o foco do futebol praticado pelos azuis e brancos, colocando a mobilização dos adeptos em torno da causa portista no centro da discussão. Farioli conseguiu, assim, influenciar a narrativa.

Neste capítulo, o Sporting e Rui Borges têm falhado. Incluo o clube porque deveria ajudar o treinador a comunicar de forma mais eficaz. Ao não perceber a importância da comunicação para si e para o Sporting, Rui Borges coloca-se numa posição de fragilidade: em vez de controlar a narrativa, é a narrativa que o controla a ele.

Mudar de treinador pode ser uma decisão legítima. O importante é perceber se resulta de uma avaliação do trabalho desenvolvido ou da pressão dos resultados imediatos. Afinal, as convicções e os processos de trabalho também se revelam na forma como se reage às dificuldades.

A valorizar: Ricardo (treinador do Famalicão)

Dois jogos e dois grandes resultados ao leme do Famalicão. Depois de ter sido um grande capitão por onde passou, será que estamos na presença de um grande treinador?

A desvalorizar: António Salvador (presidente do SC Braga)

O início de época é a consequência de o presidente do SC Braga estar mais focado em procurar resultados imediatos do que no perfil ideal para treinar a equipa bracarense.

Próximo artigo

A iniciar sessão com Google...