A Bola de Ouro de um homem comum
Harry Kane é o novo Bola de Ouro, à boleia de 73 golos em 65 partidas em 2025/26, 61 ao serviço do Bayern e 12 pela seleção de Inglaterra. O pódio do troféu mais desejado completou-se com o francês Kylian Mbappé (Real Madrid) e o espanhol Lamine Yamal (Barcelona). Num futebol em que as estrelas planetárias parecem pertencer a outra dimensão, a consagração do ponta de lança inglês, aos 33 anos, tem um sabor especial.
Harry Kane não precisa de transformar a vida numa montra, de exibir carros de luxo, de cultivar polémicas nas redes sociais ou de fazer de cada aparição pública um acontecimento. É um homem comum, no sentido positivo da expressão. Alguém com quem nos cruzaríamos na rua ou puxaríamos conversa no café sem imaginar que estaríamos na companhia do melhor jogador do mundo.
Uma história que começa longe dos grandes palcos, no leste de Londres, em Chingford. No Ridgeway Park, entre brincadeiras com o pai e o irmão mais velho, nasceu o sonho de ser futebolista. Pelo caminho, a primeira desilusão — aos oito anos, foi dispensado pelo Arsenal, decisão justificada pelos gunners por ser... «gordinho». Um episódio que poderia ter deixado marcas, mas que acabou por ser apenas uma curva apertada numa estrada longa.
Aos 17 anos, estreou-se como sénior no Leyton Orient, seguiram-se o Tottenham e o Bayern, além da seleção dos três leões, sempre a acumular golos e recordes.
Do parque em Chingford ao London Palladium, onde recebeu a Bola de Ouro. Uma viagem extraordinária que explicou em longo discurso com elogios à família, aos clubes, aos treinadores e à comunidade que o viu nascer. É aqui que Harry Kane também se distingue com uma imagem de simplicidade a contrastar com colegas de profissão egocêntricos que vivem numa realidade paralela, rodeados de ostentação, assessores e uma necessidade permanente de protagonismo.
Harry Kane não precisa de nos convencer que é especial. Os golos encarregam-se disso e mesmo assim continua a ser um de nós, como se ainda jogasse no Ridgeway Park. Talvez seja esse, afinal, o seu maior prémio.