André Villas-Boas falou em «santa aliança» dos rivais - Foto Mariana Tenório
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Villas-Boas e o clássico: «Miguel Nogueira deveria ter sido 'padre', mas foi árbitro»

Presidente do FC Porto dispara na direção dos críticos da arbitragem do duelo entre os dragões e o Benfica, no passado domingo

André Villas-Boas reiterou a posição assumida na passada terça-feira e voltou a disparar na direção dos críticos da arbitragem de Miguel Nogueira no clássico entre FC Porto e Benfica. Na revista Dragões, publicada esta quinta-feira, o presidente dos campeões nacionais lançou um ataque incisivo «às direções e equipas editoriais de órgãos de comunicação social que gastam milhares de euros em especialistas de arbitragem, nacionais e estrangeiros».

«As direções e as equipas editoriais dos órgãos de comunicação social, que gastam milhares de euros em especialistas de arbitragem, nacionais e estrangeiros, decidiram fazer vista grossa à opinião dos mesmos, unânimes na apreciação da excelente arbitragem de Miguel Nogueira no clássico. Atrevo-me a dizer que todos estarão com o lugar em risco, porque a isenção neste país conta pouco. Nem especialistas nem ex-árbitros nem diretrizes da UEFA vão prevalecer sobre as opiniões das redações tendenciosas e dos seus diretores e editores executivos, bem como da parafernália de adeptos, ex-funcionários, ex-candidatos, ex-jogadores e ex-colaboradores do Benfica que invadem os espaços de opinião, e tiveram o seu expoente máximo de fanatismo no comentador que afirmou que Gabri Veiga deveria ter sido expulso, e o FC Porto ficar reduzido a 10 jogadores, num momento onde o próprio já nao se encontrava em campo», ataca o dirigente máximo dos dragões.

«O absurdo ganha novos contornos quando a suspeita cai também sobre a Sport TV, num campeonato em que o mesmo clube detém os direitos sobre as transmissões televisivas dos seus jogos em casa e faz o que quer e lhe apetece com as imagens, sobrecarregando as que mais lhe convêm na narrativa e fazendo evaporar, quase por mistério, as que a distorcem. Haja decoro! O FC Porto pede há dois anos uma revolução tecnológica para o setor da arbitragem: melhores câmaras, maior número de câmaras, melhores ângulos, melhor definição, tecnologia de fora de jogo semiautomática e tecnologia de linha de golo. E todos, sem exceção, assobiaram para o lado! Trocado por miúdos e para simplificar: o país ia parar porque o Benfica ia ganhar e ninguém ia trabalhar. Para que isso acontecesse, Miguel Nogueira deveria ter sido 'padre', mas não foi: foi apenas árbitro, isento e sério, em mais um clássico do futebol português. Mas vejamos o lado positivo: com a vitória do FC Porto, perderam-se horas de diretos e filmagens do autocarro do Benfica e assim se pouparam milhares de euros em gasolina, que está muito cara», prossegue AVB, em tom de ironia.

No mesmo editorial, o presidente do FC Porto voltou às notícias que, antes do clássico, colocaram o emblema azul e branco como suposto alvo da Polícia Judiciária no recente escândalo da arbitragem que abalou o futebol nacional, motivado pela demissão de Duarte Gomes. André Villas-Boas dispara na direção da CMTV e sublinha a «coragem» de Tiago Silva, comentador afeto aos dragões.

«É neste contexto que quero distinguir a coragem de Tiago Silva. Perante uma abordagem televisiva que procurou transformar a indignação pública e institucional do FC Porto sobre uma nomeação numa suspeita de interferência, defendeu o clube sem se intimidar com o peso da redação ou com a autoridade que alguns julgam adquirir por ocuparem uma cadeira num estúdio. Questionou os rodapés, confrontou a narrativa e recusou aceitar que o FC Porto fosse apresentado como suspeito apenas por ter exercido o direito de discordar. Não pediu tratamento de favor; exigiu que não se confundisse a defesa da instituição com aquilo que se pretendia insinuar contra ela. Essa frontalidade merece reconhecimento, sobretudo quando seria mais cómodo baixar a cabeça e deixar a emissão seguir. No dia seguinte à reação do clube, a suspeita mudou de roupa. A jornalista [Tânia Laranjo] reconheceu que o FC Porto não estava sob suspeita, mas, já sem Tiago Silva no estúdio e perante uma plateia bem menos empenhada em contrariá-la, trocou 'suspeitas' por 'pressões', como se uma mudança de vocabulário apagasse a mensagem que tinha sido transmitida. Uma investigação verdadeiramente prodigiosa: quando o suspeito não serve, muda-se o substantivo. O que não mudou foi a realidade de uma posição pública, assumida e conhecida desde janeiro, que não passou a ser clandestina por receber um rodapé vermelho em setembro», atira Villas-Boas.

«Quem reclama autoridade para escrutinar os outros tem de aceitar que também lhe sejam pedidas contas sobre o que afirma. A mesma jornalista terminou recentemente uma crónica com a máxima 'primeiro os factos, depois os comentários'. Um excelente princípio, cuja aplicação parece ter sido suspensa quando surgiu o nome do FC Porto. Neste caso, chegaram primeiro os rodapés, depois as insinuações e só mais tarde a necessidade de corrigir a história. O rigor não pode ser uma frase de assinatura que desaparece quando os factos estragam a narrativa; tem de existir precisamente nos momentos em que contraria preferências, audiências ou conveniências», assinala.

«Pior, talvez, seja a facilidade com que esta confusão entre profissão e bancada passa para a narração e o comentário dos jogos. No Benfica–FC Porto de andebol, na RTP, ouvimos 'temos quatro golos para recuperar'. No NOW, durante o clássico de futebol, surgiu outra manifestação de isenção: 'Espero que o Benfica marque e equilibre o jogo'. Ficámos esclarecidos sobre quem precisava de recuperar e sobre quem desejava o empate. Falta apenas perceber por que razão se insiste em apresentar como neutralidade aquilo que a primeira pessoa do plural e a expressão de um desejo tornam tão transparente. Cada um é livre de apoiar o clube que entende; o que não pode é exigir ao público que confunda esse apoio com informação imparcial», vinca, antes de rematar com uma mensagem dirigida aos sócios a adeptos portistas.

«Caros sócios e adeptos, o melhor modo de honrarmos estes 133 anos continua a ser manter os pés assentes na terra e o foco no essencial. Temos uma equipa em quem acreditamos, um treinador exigente, talento para desenvolver e uma massa associativa que nunca nos deixa sozinhos. Nada disso nos dispensa de trabalhar mais, de corrigir o que estiver errado e de permanecer unidos quando o caminho apertar. Que a nossa cultura, o nosso desejo e a nossa sede de vencer nos tragam muitas vitórias e a alegria de responder em campo às tristes almas que vivem mais preocupadas com a nossa queda do que com o seu próprio sucesso. O FC Porto continuará a crescer com a sua cidade, a honrar os seus e a procurar novas conquistas, porque a História que celebramos não nos pede descanso: exige-nos continuidade», finaliza.

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