Jamie Vardy marcou uma era no Leicester
Jamie Vardy marcou uma era no Leicester - Foto: IMAGO

Vardy reflete sobre a carreira: «Se me pedissem para repetir tudo, não o faria»

Figura do Leicester e atual avançado da Cremonese olha para trás e confessa que é uma «aberração do sistema». Aborda mudança radical de vida que o levou de trabalhar numa fábrica a brilhar na Premier League, que conquistou em 2015/16

Numa reflexão sobre a sua carreira, Jamie Vardy, experiente avançado inglês que agora veste a camisola da Cremonese, abordou o seu percurso atípico até ao estrelato, a conquista da Premier League com o Leicester e a importância dos seus amigos de juventude, a quem chama «Inbetweeners».

«Fui apenas uma pequena aberração no sistema», afirmou Vardy com a sua habitual autodepreciação, ao falar sobre a sua ascensão no futebol. O jogador, de 39 anos, considera o seu trajeto improvável de se repetir. «Não é a forma comum de fazer as coisas, pois não? Não creio que volte a acontecer, mas aconteceu comigo e foi fruto de trabalho árduo. Foi mesmo muito duro, mas valeu a pena», confessou o avançado em longa entrevista concedida ao The Guardian, a propósito de um novo documentário sobre a sua vida, que o levou de um trabalho num armazém a fabricar andarilhos e muletas até ao sucesso na elite do futebol britânico.

No documentário, quando lhe pedem para se descrever numa palavra, Vardy escolhe «idiota», embora depois suavize para «brincalhão». Atualmente na Serie A, o jogador tem estado afastado por lesão, mas regressou na derrota (1-2) contra a Lazio, no passado fim de semana. O ponta de lança garante que continuará a jogar enquanto as pernas permitirem. «Quando elas disserem que já chega, então será o fim», declarou, acrescentando que os dias em que era movido a vodka com Skittles, um pormenor que surge no documentário, já lá vão.

O ponto alto da carreira do internacional inglês foi, sem dúvida, a conquista do título da Premier League em 2016 pelo Leicester. Vardy recorda com carinho o grupo que alcançou tal feito, forjado por Nigel Pearson e posteriormente liderado por Claudio Ranieri. «Ainda estamos todos num grupo de WhatsApp. Estamos sempre a falar uns com os outros, a manter o contacto, a ver o que os rapazes andam a fazer. A ligação que tínhamos naquela altura era inacreditável», revelou.

O avançado destacou o papel de Pearson na construção da união do grupo, cujas bases se mantiveram na época seguinte, já com Ranieri. «O grande Nigel foi muito bom com as fundações, a tornar tudo muito unido, e isso simplesmente continuou na temporada seguinte», explicou. Vardy elogiou também a inteligência de Ranieri por ter feito apenas ligeiras alterações à fórmula de sucesso. «Ele juntou-nos a todos, disse que tinha visto a grande fuga [à despromoção] na época anterior e que não queria mudar quase nada, o que eu acho que foi o correto para o grupo que tínhamos», recordou.

Jamie Vardy, que se despediu do Leicester há um ano com o seu 200.º golo no 500.º jogo, não tem planos para seguir a carreira de treinador, afirmando que a vida no banco de suplentes não é para si. O avançado inglês refletiu ainda sobre uma carreira marcada por momentos de caos, escândalos e traumas pessoais.

Apesar de ter acompanhado à distância a «desastrosa» campanha do Leicester no Championship, Vardy rejeita a ideia de regressar aos foxes, ou a qualquer outro clube, como técnico. «Treinador, não. Eles estão no centro de treinos ainda mais tempo do que os jogadores. Não consigo», afirmou, acrescentando que prefere viver o dia a dia. «Não pensei muito sobre o futuro. Sou muito do tipo: ‘despacha o dia de hoje, vai dormir e vê o que o amanhã traz’. Sempre fui assim, o que sei que irrita algumas pessoas».

A carreira de Vardy não foi isenta de controvérsia. Em 2015, foi multado pelo Leicester por usar linguagem racista num casino, um ato que atribuiu à ignorância. Nesse mesmo ano, enfrentou um trauma pessoal ao descobrir a identidade do seu pai biológico, um segredo que lhe tinha sido guardado.

Para lidar com os problemas, Vardy nunca considerou procurar aconselhamento fora do futebol, preferindo recorrer ao apoio interno do clube. «Tínhamos um bom psicólogo [no Leicester], por isso falava com eles constantemente», explicou. «São apenas conversas normais como esta que estamos a ter agora. É fácil falar quando se está nesse ambiente. Acho que o problema surge quando se está sozinho e se tenta guardar tudo para si. Não se quer falar com as pessoas, e é isso que depois causa o problema».

Olhando para trás, Vardy garante não ter arrependimentos sobre os altos e baixos da sua carreira. «Não haveria nenhum, nenhum mesmo», disse. No entanto, não repetiria a experiência: «Mas se me pedissem para fazer tudo de novo, não o faria!». Para Vardy, uma viagem alucinante foi suficiente.

O documentário intitulado Untold UK: Jamie Vardy estará disponível na Netflix a partir de 12 de maio.

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