Jogadores do Leicester choraram após a descida - Foto: Imago
Jogadores do Leicester choraram após a descida - Foto: Imago

Descida à 3.ª divisão coloca o Leicester num buraco negro financeiro

Campeão inglês há 10 anos, clube vai para a League One numa situação preocupante

O Leicester viu confirmada a queda para a League One, o terceiro escalão do futebol inglês, na passada terça-feira. Esta é a segunda despromoção consecutiva do clube desde a Premier League, um feito negativo que apenas outras quatro equipas haviam registado – Swindon Town (1994 - 1995), Wolverhampton (2012-2013), Sunderland (2017-2018) e Luton (2024-2025) – que atira os foxes para uma grave crise financeira e desportiva.

A situação é preocupante. O Leicester, que tem em Ricardo Pereira um dos capitães, recorreu a uma estratégia de antecipação de receitas futuras, hipotecando-as a taxas de juro elevadas para financiar custos atuais. Com a queda para a League One, onde as receitas televisivas rendem apenas €2,3 milhões, a capacidade de reconstrução da equipa está em causa, especialmente porque os proprietários, o King Power Group, poderão não ter os recursos necessários para tal.

Empréstimo australiano

Os problemas financeiros não são recentes. No mês passado, o clube reportou um défice de €82 milhões referente à época de 2024/25, a última na Premier League. Desde 2019, as perdas acumuladas atingiram os €432 milhões. Para se manter à tona, o Leicester contraiu empréstimos de pelo menos €100 milhões junto do banco de investimento australiano Macquarie, com taxas de juro a rondar os 8% a 9%.

Estes empréstimos incluíram a antecipação de verbas de transferências futuras, como as vendas de Tom Cannon, Kasey McAteer e James Justin no verão passado.

Kieran Maguire, especialista em finanças do futebol, explicou à BBC o desafio que o clube enfrenta: «Eles já receberam rendimentos futuros através da Macquarie. Por outro lado, têm dívidas de transferências, pois gastaram uma quantia razoável na Premier League. Portanto, há muito dinheiro a sair e não parece haver muito a entrar.»

De acordo com Maguire, os rendimentos desta época no Championship rondam os €115 milhões. Mas devido aos empréstimos que pediu, o Leicester só deverá receber entre €75 milhões e €80 milhões dessa fonte.

Peso dos salários

Outro enorme problema é a folha salarial: na Premier League, há um ano, esta ascendia a €172 milhões. Mesmo que seja reduzida para metade na próxima época, continuará a ser um fardo imenso para um clube da League One. Jogadores Oliver Skipp (contrato até 2029) e Jannik Vestergaard (contrato até 2027), permanecem no clube com salários elevados, sendo difícil encontrar-lhes novos clubes.

Boavista, Leicester e outros que jogaram a Champions e caíram a pique:

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Maguire sublinha a disparidade: «A folha salaria total, em média, na League One ronda os €11 milhões. Na época passada, a do Birmingham foi de €45 milhões, o valor mais alto de sempre na League One. A folha salarial do Leicester será substancialmente mais alta que isso, mesmo com cláusulas de despromoção, e é um motivo de preocupação».

Para agravar o cenário, o próprio King Power Group, uma empresa de retalho de viagens especializada em lojas duty-free, tem enfrentado dificuldades desde a pandemia de Covid-19 e passou por uma reestruturação no ano passado.

«Esta é a minha preocupação com o Leicester», continuou Maguire. «De onde virá o dinheiro? Se não for dos proprietários, é aí que se começa a ficar um pouco nervoso. Terão de absorver as perdas que irão incorrer na League One. Não vejo de que outra forma possam gerar liquidez».

O Leicester terá, assim, de encontrar uma solução para colmatar este défice financeiro e lutar pelo regresso imediato ao escalão superior. O clube foi contactado para comentar a situação, mas ainda não se pronunciou. Além disso, a subida de divisão ao Championship já na próxima época é essencial para não aumentar este buraco negro financeiro.