O êxtase dos jogadores no momento em que a Argentina fez o 2-1 - Foto: IMAGO
O êxtase dos jogadores no momento em que a Argentina fez o 2-1 - Foto: IMAGO

Mais uma lição da Argentina: a coragem ganha sempre ao medo (crónica)

Grande jogo da segunda meia-final do Mundial: duas equipas organizadas, um belo golo inglês e depois a decisão suicida de recuar e esperar por um milagre. É na crise que emerge a alma 'albiceleste' cujo treinador não se limita a ter apenas muita fé em Lionel Messi

Ponto prévio: este Mundial não está atrás das edições que ficaram gravadas nos livros de história. Porque nos tem dado grandes espetáculos e permitido assistirmos a diferentes formas de jogar a mais apaixonante das modalidades à face da terra. A meia-final que opôs Inglaterra à Argentina apenas ajudou a reforçar a ideia: uma partida para ser recordada por todos os que gostam de futebol, independentemente dos gostos de cada um. Disputado num clima tenso ao qual o contexto político e histórico não ficou obviamente de fora, por muito que os treinadores dissessem o contrário, foi um jogo que teve quase de tudo: respeito mútuo, duelos individuais no limite, aversão ao risco, criatividade, medo e coragem. Impossível não resultar deste cocktail um desafio memorável.

Mas como todas as boas histórias, houve um começo, meio e fim. E foi um longo início, nomeadamente uma primeira parte jogada com faca nos dentes, mas sem momentos de grande perigo. Duas equipas muito bem organizadas, com algumas surpresas nos onzes (a maior de todas na Inglaterra com a entrada de Morgan Rogers), mas sem oportunidades de golo, culpa de uma estratégia a pensar no desgaste no adversário. Porque o jogo tem duas partes (pelo menos).

Daí que o segundo tempo tenha sido diferente. Até foi a Argentina a encontrar espaço nas costas da defesa inglesa em primeiro lugar, com o remate de Julián Álvarez a encontrar as mãos seguras de Pickford (47'), mas seriam os britânicos, na melhor jogada de todo o jogo, a inaugurar o marcador, por Gordon, saindo das costas de Molina (péssima marcação do lateral argentino, que só teve olhos para a bola e não para o adversário) ao segundo poste e responder ao cruzamento de Rogers. Uns metros atrás festejava Harry Kane, ele que tinha sido o armador de todo aquele movimento harmónico coletivo.

Tudo mudou

Marcar é sempre bom, mas para os ingleses foi o pior que lhes podia ter acontecido. Porque se até aí haviam equilibrado a partida, nem cinco minutos após os festejos do novo jogador do Barcelona o cenário mudava radicalmente, afundando-se na sua área de uma forma suicida e nada recomendável quando ainda faltava tanto tempo para jogar.

Porque em vez de sentir o golo de forma negativa, a Argentina soltou-se das amarras e abraçou o risco de frente. Por duas razões: porque precisava e porque essa é, bem lá no fundo, a sua matriz - conciliar como nenhuma outra seleção a capacidade técnica com uma alma que aumenta quanto maior for a agrura.

Mas ajuda ter um treinador que não se limita a puxar pelo coração. Usando de uma extraordinária racionalidade, Lionel Scaloni fez as mexidas certas e pedindo aos seus jogadores para explorarem a largura do campo, especialmente no lado direito, pois era aí que a formação dos três leões evidenciava as maiores debilidades. Ao invés, Thomas Tuchel colocou a frieza germânica para trás das costas e optou pela mais primária das ideias no futebol: dar ordens para recuarem todos, sem ter ninguém para esticar o jogo em momento de posse de bola. Fazer isso a cinco minutos do fim é legítimo, optar por essa estratégia com mais de 20 minutos para jogar foi escancarar a caverna para entrarem as bestas mais selvagens que cheiravam o sangue à distância.

Pickford foi defendendo (muito e bem) o que pôde, mas os sinais eram óbvios de que os argentinos marcariam. Porque têm em Messi um farol que mostra a luz na mais profunda escuridão. Foi depois de Mac Allister cabecear ao poste (78') que o selecionador inglês pegou no punhal e fez hara-kiri: pôs a equipa a jogar com quatro centrais, abdicando totalmente de atacar.

O resto foi história: num canto bem trabalhado, Messi encontrou Enzo Fernández para um tiro fora da área (86') e aos 90+2', imediatamente a seguir a novo remate de Mac Allister ao poste, Messi cruzou no lado direito, de pé direito (!) para Lautaro, que entrara pouco antes, cabecear entre duas das quatro torres inglesas. Um golo de antologia que fez justiça: mais que o futebol, a coragem ganhou ao medo.

A figura da Inglaterra: Pickford (nota 7)

Gordon marcou o golo inglês, mas foi o guarda-redes a manter a equipa viva nos momentos de pura aflição. Teve defesas de enorme grau de dificuldade, mas a maior de todas foi a parada, lá muito em baixo e quase em cima da linha, a tirar o golo a Nico González. Talvez por mostrar que estava tão confiante terá levado Thomas Tuchel a acreditar que Pickford iria levar a Inglaterra à final.

O melhor em campo: Messi (nota 8)

Sublime segunda parte. Numa carreira tão longa, já nenhum elogio soa a novidade, mas continuar a merecer uma vénia aos 39 anos pelas mesmas coisas que fazia aos 29 ou aos 19 não é só a descrição de um grande futebolista, mas a assunção de que estamos a assistir a História. As duas assistências é apenas um detalhe de um jogo que parece existir apenas na sua cabeça. Aos outros, resta segui-lo.

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