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Valdano em entrevista: «Não perdoo Infantino»
- Como há muita gente jovem que lê a A BOLA e que pode não saber muito sobre si, conte-nos como chegou ao futebol
— Nasci num pueblo da Argentina, perto de Rosário, cidade que produz muitos futebolistas e treinadores, como Scaloni Messi, Mascherano, Bielsa, Menotti... Atrás do sonho de ser futebolista, saí da minha aldeia com 15 anos para o Newell's Old Boys. Muito rapidamente fui campeão nacional, o primeiro título da história do clube. Com 18 anos fui campeão mundial de sub-21 e marquei o golo da vitória na final. Estreei-me na seleção principal com dois golos frente ao Uruguai, ou seja, tudo aconteceu muito cedo. Tinha decidido vir para Espanha na primeira oportunidade que aparecesse, porque a Argentina era, naquela altura, não só um caos futebolístico, mas também social e político. A primeira oportunidade que surgiu veio do Alavés, então na La Liga 2 [clube no qual esteve de 1975 a 1979]. Pensava que tudo iria acontecer tão rápido como na Argentina, mas tive duas lesões graves que obrigaram a que a minha permanência nesse clube fosse mais prolongada do que previa. Foi um atraso futebolístico, mas, ao mesmo tempo, um grande progresso pessoal. Daí passei para o Saragoça [de 1979 a 1984] e depois para o Real Madrid [1984 a 1987]. Joguei no Mundial de 1982 e ganhei o de 1986. Pelo caminho fui treinador no Tenerife, no Real Madrid e no Valência, desempenhei as funções de diretor desportivo no primeiro ciclo de Florentino Pérez no Real Madrid e de diretor-geral no segundo. Tenho 10 livros publicados, alguns sobre liderança, outros estritamente sobre futebol. Num plano ainda mais pessoal, um fator importante foi o falecimento do meu pai quando eu tinha quatro anos. Isso fez com que a minha relação com o futebol fosse sempre muito pessoal, pois nunca tive ninguém que me orientasse. No resto, fui um autodidata: gosto de escrever porque leio e li imenso. Da mesma maneira que numa parte importante da minha vida a bola foi a minha ferramenta de trabalho, depois passou a sê-lo a palavra.
— Deve ter sido muito duro ir para Espanha sem conhecer nada nem ninguém...
— Não, duro não foi, porque a paixão pelo futebol era muito grande e eu tinha muita segurança em tudo o que fazia. A minha mãe confiou sempre em mim e deixou-me ser o que eu queria ser.
— Como foi a sua passagem pelo Real Madrid como jogador?
— Foi na época em que surgiu a Quinta del Buitre. Durante o tempo em que lá estive, o Real Madrid ganhou duas Taças UEFA e três campeonatos. Foi uma permanência relativamente curta, mas no Real é assim: por muito pouco tempo que estejas, levantas uma enorme quantidade de troféus. Depois chegou o Mundial de 1986, que foi uma história fabulosa, com Maradona como o grande génio daquela geração e uma equipa que sabia jogar com um génio.
— E o Jorge marcou na final desse Mundial contra a Alemanha (3-2). Como foi o diálogo com a bola antes de fazer o golo?
— Enquanto corria para a baliza, recitei à bola uma espécie de oração: ‘Entra, por favor, por favor! Isto vai fazer-me mais feliz o resto da minha vida’. E, efetivamente, assim foi. Ganhar um Mundial e marcar na final é o máximo que pode acontecer a um jogador. Eu, nesse jogo, tive uma missão pouco agradável para um avançado: fazer marcação homem a homem ao Briegel, que era um grande atleta. Curiosamente, numa das vezes em que o acompanhei até à minha área, o lateral da Argentina tirou-lhe a bola e deu-ma na pequena área pelo lado direito. Fiz uma diagonal longuíssima, a bola passou de mim para o Maradona, do Maradona para o Enrique, e eu reencontrei-me com ela na ala contrária. A partir daí, fui diretamente para a baliza, a falar com a bola e a pedir-lhe que entrasse.
— Atingiu a glória em 1986, mas no ano seguinte pendurou as chuteiras por culpa da maldita hepatite…
— Sim, é verdade. Seis meses depois de ganhar o Mundial, apanhei uma hepatite crónica e tive de deixar o futebol de uma maneira totalmente imprevista. A vida às vezes arroga-se o direito de tomar por nós decisões que deveriam ser apenas nossas.
— E isso, de alguma forma, marcou-o?
— Insisto em que de nada faço um drama. Entendo que são provas a que a vida nos submete. Já escrevia no El País, tinha um programa na Cadena SER e fui o primeiro comentador de jogos no Canal Plus. Antes de os jogadores exercerem a função de comentador, eu já marcava presença em todos os meios possíveis. Quando dei por mim, já estava do outro lado, sem qualquer tipo de trauma. Enquanto fazia esse trabalho, completava o curso de treinador que, naquela época, era muito mais longo do que agora.
— E então tornou-se treinador. Tenerife (de 1992 a 1994), Real Madrid (de 1994 a 1996) e Valência (1996/97). Lembra-se de uma eliminatória na Taça UEFA frente ao Sporting quando orientava os ‘blancos’?
— Sim, perfeitamente. Foi muito difícil: no Bernabéu ganhámos 1-0, mas depois em Lisboa perdemos 1-2 depois de um grande sofrimento. Salvou-nos o nosso guarda-redes Buyo e a regra que então existia dos golos fora valerem o dobro. Nessa altura conheci o Carlos Queiroz, que treinava o Sporting, e mais tarde viríamos a reencontrar-nos no Real Madrid. O Figo fez, no Bernabéu, uma excelente exibição. Creio que foi nesse desafio que começou a chamar a atenção dos grandes clubes como magnífico jogador que era. Com o Luís continuo a ter uma boa relação, vejo-o no ginásio quase todos os dias; para mim é uma pessoa muito querida.
— Já fez de tudo no futebol: jogador, treinador, comentador, escritor, entrevistador, dirigente, empresário. O que é que lhe falta?
— Gianni Mura, jornalista do La Repubblica e prefaciador do meu primeiro livro publicado em Itália, disse que só me falta ser bola e árbitro... Creio que nunca serei nem uma coisa nem outra!
— Voltando ao Real Madrid, que opinião tem do que aconteceu no balneário do clube na última época?
— O Real é uma equipa muito grande que se dá muito mal com a derrota e que, quando não ganha, gera conflitos que os meios de comunicação também se encarregam de amplificar.
— Para gerir um balneário, é mais partidário do treinador de mão dura ou do pacifista que procura estar bem com os futebolistas?
Cristiano queria continuar a ter uma grande relação com o golo, e Messi com o jogo
— Depende do grau de maturidade do grupo: se o grupo é imaturo, treinador autoritário; se o grupo é maduro, treinador afável. O futebol tornou-se mais metodológico, embora este Mundial tenha demonstrado que a metodologia não pode vencer o talento. Por muito que o estudem, é impossível desativar um talento superior como o de Messi, por exemplo. Aconteceu com Messi, Mbappé, Haaland e Vinícius: os grandes jogadores passam por cima de qualquer sistema e de qualquer método.
— E Cristiano Ronaldo, entra nesse grupo?
— Cristiano, com todo o direito, entra no grupo dos grandes de todos os tempos. O que acontece é que já tem uma certa idade, e a sua evolução relativamente a Messi foi muito diferente sob todos os pontos de vista. Ele procurou a proximidade da área e Messi procurou afastar-se dela, cada um buscando influenciar o jogo de acordo com as suas condições. Cristiano queria continuar a ter uma grande relação com o golo, e Messi com o jogo.
— Se fosse o treinador de Cristiano, o que lhe aconselharia: continuar ou parar já?
— O que aconselho a todos os futebolistas é que bebam o futebol até à última gota. É mentira que a história os castigue se não se retirarem a tempo: Cruyff acabou no Levante, Pelé no Cosmos; Maradona assinou pelo Newell's e só fez um jogo... Cruyff continua a ser Cruyff, Pelé a ser Pelé e Maradona a ser Maradona.
— Falando de Maradona, como era a vossa relação?
— Muito boa, fomos muito amigos. Fui muitas vezes a Nápoles, ele veio com frequência a Madrid visitar-me e na seleção tínhamos uma relação muito próxima. Mas, como acontece com tanta gente, acabámos um pouco distanciados.
— E como é que a vida dele se foi deteriorando até chegar àquele fim?
— Ele tinha uma personalidade aditiva, e isso tirou-o dos carris. Desde os quinze anos foi tratado como se fosse Deus, e isso é muito difícil de suportar. Digamos que é mais fácil acabar como Maradona do que acabar como Messi, que tem um perfil muito mais tranquilo e encontra na família o seu refúgio. Diego, com a sua dependência — reconhecida por ele próprio —, acabou por transformar a sua vida num autêntico caos. Não merecia aquele fim, faleceu demasiado jovem [aos 60 anos]. O paradoxo mais doloroso é que uma pessoa que foi chorada por todo um país morreu sozinha...
— Como companheiro de equipa foi testemunha da famosa Mão de Deus, o célebre duelo em 1986…
— Sim, e ainda por cima de muito perto!
— E foi mesmo a mão divina que meteu o golo?
— Sim, era a mão de Deus, claramente. Não pode ser que a cabeça do Diego chegue mais longe do que as mãos do Shilton, era impossível! Quando cheguei ao pé dele e lhe perguntei, disse-me: 'Depois conto-te, Jorge’.
— Que diferenças fundamentais existem entre o futebol de hoje e o da sua época?
— Tudo são diferenças, a começar pelo estatuto do futebolista: hoje é um primeiro ator social, um primeiro ator publicitário; alcançou um grau de celebridade que não tínhamos na minha época. O futebol já é parte importante da cultura popular e o futebolista cresceu em todos os sentidos — desde o económico até ao profissional, passando pelo social — de uma maneira muito clara. Quanto ao jogo, antes o futebolista tinha muito mais liberdade, agora tem muitas mais obrigações. O ritmo é mais alto, as táticas estão mais ajustadas e o treinador tem maiores responsabilidades porque o futebol tem cada vez uma maior dimensão coletiva. Mas, insisto, tendo talento, um driblador ri-se de qualquer tática.
— Recordo ter ido à antiga cidade desportiva do Real Madrid para ver treinar a equipa, para estar mais perto: entrava no relvado colado à linha lateral, vinha o Jorge e pedia-me: ‘Afaste-se um bocadinho porque pode levar uma bolada’. Hoje isso seria impossível….
— Agora nem é preciso dizer-te que te afastes um bocadinho, porque se te descuidas exilam-te noutra cidade! O futebolista perdeu o contacto com a sociedade. À volta dele há um grupo de colaboradores, nalguns casos para o ajudar, noutros para o afastar da realidade. E a família é muito importante. Um futebolista precisa sempre de alguém que lhe chame idiota quando comete uma idiotice: se isso não acontece, perde-se de vista a realidade.
— Os jovens futebolistas têm tendência a comprar, com o primeiro ordenado, um grande carro e um Rolex. E o Valdano?
— Comprei uma casa. Quem compra um carro e um relógio é porque lhe sobra dinheiro para comprar dez casas. Os futebolistas têm uma inteligência natural que às vezes subestimamos: uma coisa é serem instruídos e outra é serem inteligentes.
— Uma das suas preocupações é a do futuro dos futebolistas quando terminam a carreira. Como se deve abordar esse problema?
— É um passo difícil para o qual convém estar preparado. Não se trata de um problema puramente económico: é um problema que tem a ver com continuar a sentir-se útil e apaixonado por algo, e para isso é muito importante preparar-se desde bastante antes do final da carreira que, como aconteceu comigo, pode aparecer em qualquer momento e quando menos se espera. O que acontece é que o ex-futebolista, tal como o futuro futebolista, não interessa a ninguém; este é um jogo muito colado ao presente, o futebolista só tem interesse enquanto estiver a render em campo. Depois há algo que é incompreensível: qualquer jogador pode passar quinze anos como profissional de futebol sem nunca falar do dia seguinte. É um tabu, como é tabu a morte. Quando se está a almoçar com um amigo não se fala da morte, há temas melhores sobre os quais falar... Como dizia Woody Allen quando lhe perguntaram o que achava da morte: ‘Sou contra’. Mas do final de uma vida tão apaixonante como a do futebolista também não se fala, e isso faz com que, quando ele chega, nos encontremos sem armas para o enfrentar. E isso é um perigo, sobretudo para a saúde mental do futebolista.
— Não deveriam os clubes assumir uma maior responsabilidade social e colaborar na solução deste problema?
— Quando cheguei à direção desportiva do Real Madrid criei uma escola de liderança, uma escola de valores e uma escola de pais. Duvido que alguma delas ainda exista. Ao jogador jovem, ao miúdo, há que prepará-lo antes de chegar ao profissionalismo, e ao profissional há que prepará-lo antes de saltar para a vida das pessoas normais; nenhuma dessas duas coisas levamos a sério. Além disso, como o futebol tem cada vez uma maior robustez empresarial, está, como qualquer negócio, mais colado ao presente do que a qualquer preocupação que exceda o tempo de utilidade.
— Alguma vez teve a sensação de, sendo a pessoa que é, ter nascido cedo demais?
— Perguntei isso uma vez ao Alfredo Di Stéfano. Zangou-se e disse-me: ‘Nasci quando tinha de nascer, ganhei o dinheiro que merecia e não tenho de queixar-me de nada’. Aquilo foi uma lição para mim. O que digo é que o estatuto do futebolista atual não se parece com o meu, tal como o meu não se parecia com o de Di Stéfano. Cada um é filho do seu tempo.
— Teria gostado de jogar no novo Bernabéu?
— Desfrutei muito do velho Bernabéu. Neste novo cabem 80.000 pessoas, mas no velho eu joguei diante de 120.000 e aquilo tinha uma força, uma energia para mim inesquecível. Dito isto, o novo estádio parece-me espetacular.
— Temos Florentino Pérez por mais uns tempos. Como vai ser a sucessão?
— Quem faz a sucessão são as eleições: ganhou-as e, enquanto tiver a energia e o apoio do sócio, aí estará ele a mandar. O que ninguém lhe pode negar é um legado extraordinário. Tanto o Bernabéu como a Cidade Desportiva são dois exemplos para o futebol mundial.
— Onde está o segredo de que uma pessoa com poucos estudos, que não foi à universidade, tenha a formação que tem e possa estar horas e horas a falar de tudo menos de futebol?
— Acho que com o Carlos Queiroz sucede algo parecido: viveu em muitos sítios do mundo e isso deu-lhe uma visão muito mais ampla. Quanto a mim, se quer conhecer um autodidata, olhe para mim.
— Já o sabia, mas como é que isso se faz?
— A minha relação com a palavra e com o conhecimento tem muito a ver com a minha paixão pela leitura, à qual devo muito. Li e leio muito e isso, logicamente, ajuda-me a estar ligado ao mundo, e não só ao futebol. Além disso, sigo sempre a lição de Menotti, que dizia que quem só sabe de futebol nem de futebol sabe…
— Imagino que o seu compatriota Jorge Luis Borges será um dos seus escritores preferidos…
Sim, leio-o muito. Não há ninguém mais afastado do futebol do que Borges. Como estou a falar para um jornal desportivo, direi que ele é o Maradona da literatura…
— E a forma de escrever e de falar de Jorge Valdano também é invejável, especial…
— Bom, muito obrigado, é um enorme elogio. Durante uns tempos colaborei com a A BOLA e quero aproveitar para agradecer aos leitores pelo interesse que sei que mostravam pela leitura dos meus artigos.
— Esteve no recente Campeonato do Mundo. Como o viu?
— O mais importante foi ver como o futebol mostrou a sua capacidade de resistência. O futebol está cada vez mais mecanizado, mais comercial, mais político... Mas, no final, quem ganhou foi a equipa que faz um futebol mais clássico e até mais primitivo: aquela que sabe o que tem a fazer quando tem a bola e quando não a tem. Com ela em seu poder, põe a cabeça em água e desordena qualquer adversário; quando a perde, obriga o rival a jogar a uma velocidade acima daquela a que está habituado, e isso faz com que a recupere com facilidade.
— E o formato de 48 equipas, está de acordo ou acha que era melhor como estava?
— Aumentou o número de seleções, mas não o nível do campeonato. Este movimento é imparável: no próximo Mundial haverá sessenta e quatro equipas em vez de quarenta e oito. Não tenho qualquer dúvida, porque o apetite comercial dessa empresa chamada FIFA é insaciável.
— O que achou da ‘graxa’ de Infantino a Trump?
— Não lhe perdoo o prémio da paz que deu a Trump e muito menos que o tenha feito em nome do futebol. Conheço Infantino há muito tempo, aconteceu-lhe o que acontece a muita gente: o poder subiu-lhe à cabeça.