Maxi Araújo marcou o golo da reviravolta na eliminatória frente ao Bodo/Glimt - Foto: Miguel Nunes
Maxi Araújo marcou o golo da reviravolta na eliminatória frente ao Bodo/Glimt - Foto: Miguel Nunes

Um leão arrebatador em história para contar aos netos (crónica)

O Sporting foi fenomenal e por isso está nos quartos de final da UEFA Champions League. Raramente o lema do clube terá feito tanto sentido como neste épico final de tarde em Alvalade

Esforço, dedicação, devoção e glória — eis o Sporting. A história de um dos maiores clubes portugueses é longa e recheada de todos estes predicados, mas juntar tanta coisa boa num só jogo é matéria para ficar escrita a letras de ouro no livro de memórias, como essa outra reviravolta de 1964 frente ao Manchester United, pelo mesmo resultado: 5-0.

Os donos da casa, como prometido, entraram a todo o gás. Aos 5 minutos já Trincão tinha desperdiçado duas oportunidades de golo e um jogador norueguês via o primeiro amarelo da noite. É claro que o próprio Bodo/Glimt se dispôs a sofrer, juntando as três linhas em praticamente um terço do relvado e esforçando-se (a maior parte das vezes com sucesso) para defender bem a sua área. Ainda assim o volume verde e branco foi avassalador em toda a primeira parte, com Gonçalo Inácio, Hjulmand e Maxi Araújo sempre ligados à tomada e a empurrar os companheiros para a frente.

Tardou muito o primeiro golo, tamanha era a superioridade leonina quando, se calhar da forma menos previsível, Inácio se impôs num canto batido por Trincão e deu início ao sonho da reviravolta. Tratou-se, então, da 15.º (!) tentativa de remate do Sporting, embora poucas tenham levado, sequer, a direção certa.

Com uma primeira parte mais inspirada de dois dos habituais desequilibradores leoninos — Pedro Gonçalves e Geny Catamo — talvez a vantagem ao intervalo fosse maior, como se justificava amplamente perante o futebol praticado. Mesmo em cima do apito para descanso, o Bodo/Glimt, que só numa ocasião se tinha aproximado da área (o Sporting soube equilibrar-se defensivamente, apesar de todo o ímpeto ofensivo), quase empatava, também de canto, com a bola a bater na barra de Rui Silva. Não seria, claro, a primeira vez que uma equipa conseguia não estar a perder depois de ser altamente dominada (veja-se o que esta mesma formação fez em Milão, contra o Inter). A bola não entrou e o facto de sair para intervalo em vantagem deu razões ao Sporting (dentro e fora do relvado) para continuar a acreditar.

O Bodo mexeu ligeiramente na dinâmica, trocou o flanco aos alas e tentou subir um pouco mais no terreno, mas foi sol de pouca dura. Em cinco minutos da segunda parte criou sensações de ligeiro perigo e não mais voltou. O Sporting já não tinha a vertigem do primeiro tempo (era impossível manter aquele ritmo), mas prosseguiu a missão e aos 61 minutos Catamo voltou a ser o desequilibrador que conhecemos, rasgando passe para Suárez entrar pela área e servir Pote para o 2-0.

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Sempre seguro defensivamente e assente em atletas de eleição, o Sporting procurou, procurou, procurou... e encontrou a igualdade na eliminatória. Num penálti em que a bola devia queimar mais que nunca, Suárez manteve a calma e conseguiu o que ontem ou anteontem muitos achariam impossível.

Nisto já tinham entrado Debast, Nuno Santos, Daniel Bragança, e qual deles terá entrado melhor! Integraram a dinâmica leonina na perfeição. Depois do penálti do empate os leões tiveram mais três bolas para resolver tudo nos 90 minutos. Mas não estava escrito.

Ainda faltavam 30 minutos, os do prolongamento, para se escrever a justiça épica de o golo da remontada ter sido marcado pelo melhor jogador em campo (mas que dizer de Hjulmand, Suárez, Inácio?). No final, cereja no topo de um dos bolos mais saborosos de 120 anos de história: um rapaz da formação estreia-se na UEFA Champions League e fecha o resultado. Foi a noite perfeita. Obrigado, Sporting.