«Todos os clubes com bom scouting ainda dependem do olho humano»
— Já perdeu aquele tique de olhar para um jogador como scout ou não?
— Olho muito menos agora para o jogador do que olhava nos meus tempos de Benfica…
— Mas fica lá qualquer coisa, não é?
— Tem sempre tem, sempre tenho aquela coisa de querer dar um olho também. Assim, deixa cá ver como é, se é mesmo assim como estão a dizer. Porque tenho muita confiança na equipa do departamento de scouting, não é? Principalmente algumas pessoas que já trabalham comigo há anos. Mas tenho sempre essa… é algo que não sai de ti.
— O que é que procura ver que mais ninguém vê?
— Às vezes há coisas que até são difíceis de explicar. Tive a felicidade de trabalhar com o Aurélio Pereira, é uma referência mundial do scouting. E o Aurélio dizia assim: «Se me perguntares o que é que eu vi naquele jogador, não te consigo explicar.»
— Sente se, não é?
— É algo que tu sentes. Há ali qualquer coisa diferente. Não estou a falar do alto, alto nível, mas naquilo que são os jogadores, os miúdos e as crianças. Às vezes, até a forma de andar…
— Tocar…
— Exatamente! Há coisas que tu vês e dizes «Este jogador é diferente», e tu tens uma visão especial do jogador. Depois, claro, há coisas que tu tens de ver… Uma das coisas que o que o scouting me ensinou foi a ver o futebol pelos olhos de outros. Porque eu como scout, não são as minhas ideias, são as ideias de para quem eu estou a levar os jogadores, seja o treinador, seja uma cultura de clube. Tu tens de te despir um pouco daquilo que são as tuas ideias futebolísticas e vestir a pele de para quem está a trabalhar, não é? Esse, para mim, é o… Como sabes, dou alguns cursos de scouting lá na Federação Portuguesa de Futebol e uma das coisas que mais digo às pessoas que querem ser scouts é «Esqueçam as vossas ideias e preparem-se para trabalhar com as ideias dos outros. Isso é fundamental. Quem não conseguir fazer isso não consegue trabalhar no scouting.
Aurélio Pereira dizia-me: se me perguntares o que vi naquele jogador não te sei explicar
— Mas não se tornou o scouting, nos últimos anos, demasiado estatístico?
— Tornou-se. Mas acho que continua… Todos aqueles clubes que trabalham bem no scouting continuam a ter o olho humano como principal razão, porque aquilo que tu vês é, sei lá… um clube que que normalmente trabalha bem no scouting e que vai descobrindo jogadores, como a gente diz, vai lançando os jogadores… Esses clubes, às vezes, até parece normal o que eles fazem, não é? E depois tu tens um clube que num ano teve um resultado muito bom e aparece alguém: «Não, eu tinha um algoritmo…» Com todo o respeito que tenho por isso, também. E então cria-se esse «não, é porque eles têm isto, porque descobriram» e, no ano seguinte, que já não descobriram ninguém ou que perderam?
Dez passes certos aqui não são o mesmo que dez passes feitos no Maracanã diante de 70 mil pessoas...
— Se há um segredo deveria funcionar quase sempre...
— Lembro-me do Leicester, de quando foi campeão, houve uma série de gente que meteu o dedo no ar pelo sucesso. Era o cozinheiro, era um rapaz do scouting, que eu por acaso até conhecia porque tinha um algoritmo especial… E a pergunta que eu lhe fazia era «E, nos outros anos?» Essas coisas todas, o cozinheiro e o algoritmo não funcionavam? Só funcionaram nesse ano? Tudo é importante. Hoje temos tecnologias. Quando comecei no scouting, nem sequer o WyScout havia. Nós tínhamos de ver in loco, o que dava uma despesa enorme aos clubes e o tempo que demorava para haver uma decisão sobre um jogador era muito maior. Tinha muito a ver com a disponibilidade que tinhas para viajar. Depois apareceu uma coisa que se chamava Video Profile, que mandava uns DVD via DHL dos jogos que nós pedíamos. Nós tínhamos uma lista, tipo um menu, e íamos pedir: quero ver este jogo, quero ver aquele, quero ver o outro. E eles mandavam aquilo tudo. Por exemplo, quando aparece o Wyscout nós, no Benfica, fomos os primeiros clientes. Dá-se logo uma revolução enorme no scouting, no tempo de decisão, no tempo que precisas para ver um jogador. E todas essas tecnologias ajudam. Agora, não substituem o olho humano e a decisão humana de trazer o jogador.
Conhecia um tipo no Leicester que, quando foi campeão, disse que a responsabilidade era do seu algorritmo. Eu perguntava-lhe: 'E nos outros anos, não funcionou?
— Porque há o risco de nós cada vez mais contratarmos melhores atletas e piores jogadores, não é?
— Ou de tu te baseares em números. Eu costumo dizer assim: «Dez passes certos feitos aqui neste campo [no Ninho do Urubu] não são a mesma coisa do que dez passes certos feitos num Maracanã cheio com 70.000 pessoas.» Portanto, o contexto em que tu tiras os números também… Sendo o Campeonato do Luxemburgo, é diferente da Premier League, não é? Marcar golos na Holanda é diferente de marcar em Itália.Tu vês normalmente que quando se vai buscar pontas de lança holandeses, eles depois já não têm o mesmo rendimento. Agora estamos a falar de números mais macro, que são mais fáceis de ver, mas às vezes aquilo que os números nos dizem, tirados do contexto de onde são tirados, é também muito falacioso.