«Aqui no Flamengo todos os dias são teste de fogo»
RIO DE JANEIRO — Antigo olheiro do Benfica, José Boto é hoje diretor técnico do Flamengo. Em entrevista a A BOLA, à boleia de Betano, o dirigente fala das diferenças entre Portugal e o Brasil, e da exigência das novas funções, numa constante viagem entre presente, passado e futuro
— José, obrigado por receber A BOLA no Ninho do Urubu. Gostaria por começar com um balanço seu a estes meses neste grande clube que é o Flamengo…
— É sempre um prazer receber aqui a Imprensa portuguesa, neste caso A BOLA, um jornal de referência. O balanço deste ano e meio… É positivo, não é? O que nós ganhámos no primeiro ano… E estamos aqui a meio do segundo, mais ou menos, na luta pelas duas principais competições e acabámos por nos qualificar para os oitavos de final da Libertadores.
— E neste ano e meio já teve de tomar uma decisão difícil, a saída de Filipe Luís, um treinador consagrado, apesar da curta carreira, já com bastantes títulos. Foi um teste de fogo?
— Foi. Aqui no Brasil quase todos os dias são teste de fogo à gestão, porque há muitas questões emocionais a que não estamos habituados na Europa. Nós tomamos as decisões de uma mais racional, não há essa emoção. Portanto, qualquer decisão aqui é sempre emocional, tem sempre uma repercussão grande, principalmente nos media e nos adeptos. Agora, foi a decisão que achámos a mais correta na altura. Nada tem a ver com o valor do treinador, que o provou, ganhando aquilo tudo. Só que, às vezes, para se continuar a ganhar, é preciso mudar. E foi isso que achámos. Se tivemos razão ou não, vamos ver no final da época, não é? Como sempre. Quando tens de tomar decisões, nunca sabes a que vão levar, não é? Mas por isso é que estamos nesta posição, é para tomarmos essas decisões e para depois também termos as consequências das mesmas, como é óbvio.
— Mas em termos de escolha depois foi uma ruptura quase completa em termos de perfil. Estamos a falar de um treinador que tinha uma cultura mais de posse e de futebol associativo do que o Leonardo, que tem pelo menos essa imagem de mais pragmático, de resultado e também de transição ofensiva, por exemplo…
— É verdade que o Filipe [Luís] tinha uma forma de jogar muito, muito característica, com muita posse, que nada tinha a ver com o futebol do Jesus, nada a ver com futebol do Simeone…
Se eu hoje tivesse um treinador italiano iria querer criar a hegemonia do treinador italiano no Brasil
— Nada, zero…
— Considero o Leonardo um treinador mais camaleónico, mais camaleão, capaz de se adaptar a diferentes contextos. Se analisarmos o Mónaco dele, nada tinha que ver com o Sporting que também treinou, não é? Portanto, esse também foi um dos motivos que nos levou à sua escolha, sabermos que se iria adaptar bastante bem aquilo que tinha aqui para trabalhar e isso era algo… porque o mercado já estava fechado também e não podíamos mexer muito, tínhamos de tirar partido de todos os jogadores que tínhamos. E ele é um treinador muito bom a fazer isso. Portanto, o perfil não acho que seja assim tão diferente. Percebes que ele consegue…
— Chegar lá…
— Exatamente. Ele consegue adaptar-se àquilo que tem. Hoje, por exemplo, se calhar temos uma maior diversidade na maneira de jogar do que tínhamos no ano passado. Mas quando temos que jogar em posse e dominar o jogo, nós jogamos. Há uma semana, duas semanas, com o Grêmio do Luís [Castro], e tivemos 78% de posse de bola. Portanto, um jogo que foi muito bem conseguido do ponto de vista estético, vá lá. Como também quando nos dão oportunidade, temos uma transição mais rápida. E isso tem que ver com essa característica camaleónica do Leonardo.
Filipe Luís? Às vezes, é preciso mudar para se continuar a ganhar
— Sendo que a Imprensa brasileira, até certo ponto, também acusa essa posse muitas vezes de ser estéril… Não sei se tem lido alguns…
— Mas isso é algo de que também já acusavam o Filipe. Diziam que só jogávamos para o lado, que só tocávamos para o lado, que não criávamos. Não me parece que façamos, neste momento, uma posse estéril. E também não acho que a posse seja sempre estéril, porque às vezes tem outro objetivo, em que, enquanto temos a bola, também não nos atacam.
— O defender com bola.
— Exatamente. Portanto, às vezes aquilo que pode parecer estéril não é tão estéril quanto isso. É verdade que o Leonardo é um pouquinho mais vertical ou leva menos tempo para finalizar, um pouco à semelhança também do que era o Jesus, que não é alguém que privilegie muito a posse. Agora, a equipa é muito completa neste momento, porque se consegue adaptar àquilo que o jogo vai pedindo.
— Sentiu alguma frustração interna com a decisão, com a mudança, ou o facto de ser estrangeiro também de certa forma o protege nesta fase inicial da sua carreira aqui no Flamengo? Acha que foi uma decisão muito só sua?
— A decisão, ou melhor, o identificar dos problemas é a minha função. E tentar arranjar soluções também é da minha responsabilidade. A decisão é sempre do presidente. Ele é que, como dizem aqui, bate o martelo sobre qualquer decisão.
Na Europa, há muito menos emoção na tomada da decisão do que aqui
— De qualquer forma terá tido grande influência…
— Agora, claro, como é óbvio, quem identifica o problema e dá a solução sou eu. Talvez por ser europeu não sinta tanto essa parte emocional que houve nesta casa com o despedimento do Filipe. Mas, como também há aí em outros casos, de uma emoção muito grande, que não estou a dizer que é má… É boa, a paixão criada pelo futebol é boa, mas muitas vezes noto que dificulta as decisões que têm de ser tomadas. Enquanto na Europa já passámos essa fase e somos mais pragmáticos, tomamos as decisões que achamos as mais corretas, não pensamos no que as pessoas vão pensar ou qual vai ser a reação, aqui há mais esse cuidado. No meu caso, não noto tanto isso, porque não me afeta tanto ter de tomar uma decisão que é profissional. Não confundo essas decisões com o que é pessoal.
— Uma provocação. Disse que queria acabar com a hegemonia do treinador português no Brasil e foi contratar um técnico… português.
— O que disse não era nada contra os treinadores portugueses…
Leonardo é um treinador mais camaleónico, capaz de se adaptar a diferentes contextos
— Acho que foi mal interpretado.
— Tinha um treinador brasileiro e uma das primeiras frases que disse foi a de querer acabar com essa hegemonia porque não tinha ganho nos últimos anos. Tinham sido o Abel [Ferreira] e o Artur Jorge, e acabei. Agora tenho um treinador português e se fosse italiano iria dizer «agora quero começar a hegemonia dos treinadores italianos no Brasil». Não foi nada contra o treinador português, antes pelo contrário. Todos conhecemos a qualidade do treinador português e é uma coisa que também me enche de orgulho.
A BOLA viajou a convite da Betano
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