José Boto confessa a A BOLA que é muito complicado reter o talento brasileiro no país

«No Flamengo há uma exigência tal que dificulta a afirmação do jovem brasileiro»

Diretor do Rubro-Negro lembra que a pressão de jogar no Maracanã é muito grande e, como tal, a estratégia de José Boto tem sido trazer jogadores consagrados e experientes para criar cultura de vitória no grupo

—  No Shakhtar e no Benfica, a missão passava mais por descobrir jovens talentos. Aqui a sua função tem sido mais trazer talentos consagrados…

— Nós também temos de nos adaptar às realidades em que trabalhamos…

— E o Flamengo tem uma boa base também.

— O que define o Flamengo é aquela frase que está ali [na parede do escritório] que é «Vencer, vencer, vencer.» Aqui não há outra hipótese. Não há aqui o «fizemos não sei quanto dinheiro com vendas», não há essas culturas que, por exemplo, nós temos em Portugal, de tornarmos o clube rentável do ponto de vista financeiro através da venda ou da formação de jogadores. Aqui o foco está completamente em vencer. E é a isso que tens de te adaptar. E é isso que que tentei fazer, trazendo jogadores prontos, com experiência, porque não é fácil jogar no Flamengo. A pressão de jogar no Maracanã é muito grande e, por isso, os jogadores têm de ter algumas características psicológicas, de experiência e maturidade que lhes permita ter rendimento sob um contexto de tanta pressão, como há aqui.

O talento argentino ou uruguaio já vê o Flamengo como um patamar de chegada

— É um novo José Boto, depois de tanto tempo a pensar em jovens talentos?

— É o que eu te digo, é a adaptação ao contexto. O que fazia no Benfica é diferente do que fiz depois no Shakhtar. O que fiz no Shakhtar era diferente do que fiz no PAOK. São contextos diferentes a que nós nos temos de adaptar para ter sucesso, não é? 

José Boto nos tempos de Shakhtar — Foto: Rui Raimundo
José Boto nos tempos de Shakhtar — Foto: Rui Raimundo

— Sendo que o Flamengo tem um lema que é «craque o Flamengo faz em casa», não é? A chegada à equipe principal, ao encontrar ali uma barreira, se calhar não é muito comum. Nos últimos anos tem sido comum, mas mais um pouquinho lá mais para trás, havia mais facilidade em chegar à primeira equipa. 

— Sim, não é fácil. Tu sabes. E em Portugal somos especialistas nisso. O lançar jovens jogadores tem uma série de premissas que tens de ter e não é fácil tê-las aqui no Flamengo. É paciência. São os momentos certos para lançar os jogadores e saber que o rendimento desses jovens vai oscilar muito e temos de ter paciência com eles. Aqui é mais difícil fazeres isso, com esta exigência de teres que ganhar de três em três dias, percebes? E isso torna mais difícil teres esse timing correto, essa paciência que os adeptos também tinham de ter para lançarmos alguns dos jovens que temos, alguns jovens com valor, mas que acabam por ter um espaço mais limitado num contexto que é este de exigência máxima. 

Boto aqui no Osijek — Foto: IMAGO

— E o Flamengo continua a olhar também um bocadinho para o Uruguai, para a Argentina. Isso também abriu aqui um bocadinho a porta, que também estava fechada há algum tempo para esses jogadores, porque o brasileiro tinha prevalência sobre todos os outros.

— Sim, sim. Mas sabes que hoje é muito difícil teres o talento brasileiro. Sempre saiu muito cedo. Ter brasileiros que te permitam atingir o rendimento que queremos não é fácil. Porque saem muito cedo para a Europa, saem muito cedo daqui. Não é fácil mantê-los aqui durante muito tempo.

Boto passou ainda pelo PAOK, na Grécia — Foto: IMAGO

— Essa era a minha próxima pergunta: se é possível fazer mais para manter o jovem brasileiro no país? 

— Não é assim tão fácil porque não é uma questão de dinheiro, mas de projeto de carreira. E, se calhar, é mais fácil trazermos o talento argentino ou uruguaio, porque veem o Brasil também já como um patamar de chegada. E, por isso, também termos tantos oriundos dessas bandas. Aquilo que tentámos fazer desde a minha chegada, na nova gestão do Flamengo, foi trazer alguns brasileiros que têm currículo na Europa e que nos tragam uma mentalidade vencedora e de uma certa cultura de trabalho. E, por isso, nomes como Danilo, Jorginho… Paquetá é um caso diferente, mas também traz essa cultura de trabalho vencedora. E foi isso que tentámos trazer para que isso seja incutido dentro do grupo e do próprio clube, essa cultura. Porque vencer é muito bonito, não é? A forma de lá chegar às vezes é mais difícil e implica muita coisa que as pessoas nem imaginam… 

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